REVISTA GUAIAÓ
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[ Ficção ]

O adágio da cobra e da rã

Por: Natalia Barros
Fotografia: Marcos Piffer

 

Séria Flora - Marcos PIffer - Guaiaó 05 Ficção

Parecia o canto de um pássaro, muito forte, no jardim. O calor a tudo silenciava, menos aquilo. Às duas horas da tarde, não restava nenhuma sombra de dúvida, pude ver de perto: a rã na boca da cobra. Era uma rã amarela – com a transparência dos anfíbios – e uma cobra, rajada de verde e marrom, com papo amarelo e cabeça triangular. No caramanchão, diante de todos os olhos, sob o sol forte, uma trepadeira, de origem indiana, ocultava quase todo o corpo da serpente. A plenos pulmões, a rã gritava. Olhei sem interferir – nem a favor, nem contra – no que era, desde há séculos, assim, vital. Aos poucos, a rã se calou, enquanto a cobra ia devorando lentamente, num ritmo contínuo: pernas, corpo, braço, mão, cabeça e, por fim, a outra mão, que continuava agarrada à planta, em silêncio. Em maior silêncio, fiquei eu.
Um eco mudo repercutia num adágio longe, na descida da montanha, na praia; o mar salpicava as ondas nas rochas – explodindo-as: belas e brancas – sem se saber se a água mole ou a pedra, para sempre, ou até quando, durarão.

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