REVISTA GUAIAÓ
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[ Entrevista ]

FERNANDO GABEIRA – O DILEMA ENTRE O CONCRETO E A NATUREZA

Por: Reh Theiss
Fotografias: Marcos Piffer

Fernando Gabeira - entrevista - revista GUAIAÓ 05

Em busca de cidades sustentáveis, menos armadas e concretas, com muito mais verde, cheias de azul do céu e do mar

Um dia de céu cinza e garoa fina, típico da cidade paulistana, não abalou o bom-humor de Gabeira, mineiro de nascimento e carioca por opção, cujo percurso de vida inclui o exílio político nos anos 70 e a volta ao Brasil, marcada por seu engajamento em defesa da ecologia e da liberdade de expressão em seus mais amplos significados, passando por temas polêmicos e ideias avançadas.

Entre o verde das árvores e o concreto das curvas de Oscar Niemeyer, no Parque do Ibirapuera, melhor cenário não poderia haver para entrevistar o jornalista e escritor Fernando Gabeira, de passagem por São Paulo, e ouvir suas opiniões sobre impasses e desafios da vida urbana, contradições que surgem na relação Homem x Natureza nos dias atuais, marcados por tecnologias e virtualidades.

Escritor de ideias que vão além do horizonte das palavras

GUAIAÓ: Como você vê a atuação do movimento ambientalista após as vitórias que ele conquistou nos anos 80 e 90, denunciando crimes ambientais e lutando pela preservação dos recursos naturais em todo o Planeta?

FG: Eu costumo dizer que nós já superamos aquela fase de atuar pela denúncia, porque a própria imprensa já faz isso hoje, mas continuo respeitando e valorizando os ativistas que assim atuam. O que nos compete hoje é encontrar soluções; o movimento ambientalista já tem maturidade suficiente para oferecer alternativas aos problemas ambientais, mas, para isso, precisa se relacionar muito mais com a ciência, pois os cientistas têm dado respostas a problemas que os intelectuais “clássicos” não nos deram, sendo, portanto, um elemento de confluência e congregação de ideias importantíssimo.

GUAIAÓ: Faltou esse tipo de colaboração na discussão sobre as alterações que estão sendo propostas ao texto do Código Florestal?

FG: A discussão sobre o Código Florestal foi patética nesse ponto, de um lado os ecologistas, de outro os ruralistas e os burocratas de Brasília, todos discutindo metragens e dimensões iguais para áreas que não são homogêneas e que têm características diversas. Tudo seria muito melhor se a gente pudesse discutir questões tão importantes com a ajuda dos cientistas, dos Comitês de Bacias Hidrográficas e de outros instrumentos de gestão já criados no Brasil, que contemplam a participação da comunidade científica, da sociedade civil organizada, dos setores empresariais e do próprio governo.

GUAIAÓ: Você tem falado muito sobre “cidades inteligentes”, que usem a tecnologia a seu serviço e a seu favor, e que contemplem a participação das pessoas no planejamento da cidade. Utopia ou realidade?

FG: É verdade que ainda temos dificuldades, mas já existem tecnologias inteligentes que estão sendo instaladas em cidades como o Rio de Janeiro, que criou um centro que coordena e monitora as atividades da cidade, com câmeras espalhadas em pontos estratégicos da área urbana, que coletam todos os dados necessários à tomada de decisões, inclusive em situações emergenciais, e tudo isso em tempo real. Curitiba criou um sistema pelo qual toda reclamação feita pelos cidadãos tem que ser respondida em até 48 horas pela Prefeitura, e cada pessoa que faz uma reclamação é convidada a colaborar com a Prefeitura. Os setores responsáveis processam essas informações, e a cada nova intervenção que se pretende fazer na cidade, esses cidadãos que colaboram com a prefeitura são consultados sobre os novos projetos. Isso tem permitido a Curitiba fazer o planejamento de suas ações levando em consideração uma consulta antecipada aos cidadãos.

GUAIAÓ: Como aliar crescimento urbano e ecologia em uma cidade como Santos, que está passando por várias transformações urbanas que estão ameaçando seus recursos naturais e empobrecendo sua paisagem, em detrimento de interesses ligados à exploração do petróleo?

FG: Isso está acontecendo ao longo do litoral brasileiro, sobretudo na faixa onde se está explorando o Pré-sal. É um processo devastador para o meio ambiente e, sobretudo, para o azul [o mar], pois está ocorrendo no “corredor ecológico” onde há o maior número de espécies em extinção. Além disso, está destruindo a paisagem das cidades, o espaço onde se vive e a qualidade de vida, por causa da especulação imobiliária; e transfigurando a paisagem do litoral, pela presença de plataformas, grandes embarcações e seu intenso movimento, além da ampliação e criação de novos portos, motivadas pela nova descoberta de petróleo, cuja exploração já existia, mas que se intensificou muito. Esta transfiguração das cidades prejudica especialmente as que têm vocação turística. Primeiro, porque a paisagem fica diferente e, segundo, porque qualquer desastre ambiental causado por vazamentos ou derramamento de petróleo dificulta ou inviabiliza as atividades turísticas.

GUAIAÓ: Quais aspectos você considera relevantes a serem avaliados no planejamento urbano das cidades situadas na faixa do Pré-sal?

FG: O que acontece em uma cidade de médio porte, como Santos, é o que acontece com a cidade de Macaé, no Rio de Janeiro. A especulação imobiliária constrói novos hotéis, apart-hotéis etc., procurando atender à burocracia ligada às empresas de petróleo; e, ao mesmo tempo, milhares de pessoas vêm em busca de emprego, inclusive dos empregos considerados desqualificados, o que acaba ocasionando o surgimento de novas favelas, ou aumentando as já existentes. É um processo complexo, e, se não houver um planejamento, eu acho que no final quem vai sair perdendo é a população. Um dia, o petróleo pode acabar, ou perder o seu lugar para outras energias renováveis que estão sendo descobertas. A riqueza do petróleo é relativa, e implica muitos custos sociais relativos à saúde, à educação, à segurança da população local. Muitos países já sofreram muito com a exploração de petróleo, tanto que se cunhou a expressão “a maldição do petróleo”, então temos que ver se nestas cidades o petróleo foi uma dádiva ou uma maldição, e isso é só o tempo que vai dizer.

GUAIAÓ: Você tem defendido que nós precisamos de cidades mais humanas, sustentáveis e inteligentes, ressaltando que “a cidade mais humana é feita para as pessoas, e não para o ego dos arquitetos e suas obras monumentais, ou dos políticos com suas ambições, ela é um espaço de convívio e celebração”.

FG: Eu tenho falado muito sobre isso, por observar certos projetos que ilustram obras feitas apenas por um desejo estético dos arquitetos, ou porque os políticos querem fazer algo que os eternize. Muitas vezes, estas obras são feitas em uma escala que visa enfraquecer a dimensão humana, roubando algo que as pessoas não estão dando valor agora, como o horizonte, por exemplo; imagine não se ter mais o horizonte …

GUAIAÓ: Nesse sentido, você poderia falar um pouco sobre a “Lei da Sombra”, que visa disciplinar as questões relativas à verticalização, à proteção do horizonte e ao direito à luz natural, ao sol?

FG: Essa lei já existe na cidade do Rio de Janeiro, onde é proibido construir de uma forma que sombreie demais os lugares, principalmente as praias e a região litorânea. Isso é algo que toda cidade litorânea tem que ter, porque se não houver um gabarito para as construções, que estabeleça relações com a iluminação natural, o sol e a praia, certas áreas acabarão ficando muito sombreadas, e se tornarão menos saudáveis, perdendo o seu valor turístico. Ninguém quer ir a uma praia sombreada artificialmente, sem sol e sem horizonte. Portanto, a construção desses prédios altíssimos acaba sendo irracional, inclusive porque gera uma demanda maior de infraestrutura, para a qual a cidade ainda não está preparada.

GUAIAÓ: Considerando todos esses fatores, como proteger as nossas praias?

FG: Primeiro, impedindo que o sol e o horizonte acabem sendo roubados por projetos que não contemplem a discussão desses fatores. Temos também o problema da qualidade da água, que nem sempre é monitorada adequadamente. Toda cidade balneária deveria ter pontos com a indicação sobre a qualidade da água em cada praia, para que as pessoas possam se manter informadas. Além disso, é necessário evitar a contaminação da areia, fazendo um controle adequado da presença de animais, e sobre o que as pessoas jogam na areia, pois elas deixam toneladas de lixo na areia. Acho muito importante que se tenha um processo de educação ambiental, e de coleta permanente do lixo, evitando que as praias fiquem sujas, e que o lixo não acabe indo para o mar.

GUAIAÓ: Ou seja, não basta apenas recolher o lixo que é jogado nas praias; é preciso educar as pessoas…

FG: Exatamente. A coleta do lixo é importante, mas o lixo tem que parar de ser produzido na praia. Cada pessoa pode levar a sua própria sacola de lixo à praia, assim como já colocam as ecobag´s em seus automóveis, que surgiram para evitar que o lixo continuasse sendo atirado pela janela do carro.

GUAIAÓ: A Conferência das Nações Unidas “Rio+20” introduziu esse tipo de preocupação e a temática da sustentabilidade litorânea na pauta de discussões, reforçando a importância dos oceanos e faixas litorâneas?

FG: A Rio+20 trouxe à tona essas questões, introduzindo a preocupação com o azul, pois os oceanos são decisivos, principalmente com relação às mudanças climáticas. As alterações das correntes marítimas podem estimular ou acelerar o aquecimento global. Eu vejo o oceano como a última, ou a próxima fronteira; por isso, toda cidade litorânea deveria levar em conta tais questões em seu planejamento, e, inclusive, se relacionar com o governo federal de maneira a garantir a vigilância do seu litoral. Mas nós ainda não temos um debate sobre o nosso litoral, e a melhor maneira de gerir a faixa litorânea. Isso é uma lacuna, e é uma lacuna entre os próprios ambientalistas. Na verdade, o movimento ambientalista no Brasil é verde, e só agora é que ele está tomando consciência do assunto, e o azul está começando a ocupar o seu espaço. Essa foi a grande novidade trazida pela Rio+20.

Fernando Gabeira - entrevista - revista GUAIAÓ 05

GUAIAÓ: Em um passado recente, as crianças podiam brincar nas ruas, ir a pé à escola, ao clube, à praia; os vizinhos colocavam suas cadeiras nas calçadas e conversavam entre si; os namorados passeavam tranquilos de mãos dadas ao longo da orla; a cidade era, enfim, um lugar de convívio pacífico. Os episódios de violência, entretanto, passaram de fatos isolados a estatísticas aterrorizantes, levando as pessoas a se fechar em suas casas, e a se relacionar através de seus celulares, Ipad’s, Iphones etc. E o espaço de celebração urbana, teria ele migrado para as tecnologias e virtualidades?

FG: Eu acho que a tecnologia não substitui o espaço de convívio urbano, tanto que há vários movimentos de reconquista da cidade e dos espaços urbanos, movimento que está sendo feito pelas próprias pessoas como uma tentativa delas poderem recuperar para elas um espaço que lhes foi roubado. Há também algumas experiências que levam à convivência social, que me parecem interessantes e bem-sucedidas, como o Sesc-Pompéia, em São Paulo; e os espaços abertos que as pessoas ocupam para pintar, caminhar e ter o seu lazer aos domingos, por exemplo. O problema que eu vejo é como estimular as pessoas a sair de casa, já que hoje há uma tendência maior de as pessoas ficarem em casa assistindo televisão, filmes etc.

GUAIAÓ: Ou a relação das pessoas com a cidade, o mar, a praia, o sol, o amor e a amizade migrou para o espaço das redes sociais?

FG: Eu acho que, nesse momento, essa é uma tendência forte, mas que há uma possibilidade de serem recuperados os espaços urbanos para que a convivência social também exista. Acredito que a tecnologia continuará oferecendo novas oportunidades para as pessoas se encontrarem, tornando possível a realização de grandes concertos de música ou manifestações políticas, por exemplo, cuja transmissão via Internet possibilita a participação de milhares de pessoas conectadas em todas as partes do mundo. A tecnologia avança, e também abre espaço para que a gente a utilize no sentido de congregar pessoas.

GUAIAÓ: Você disse, recentemente, que “a reação das crianças aos cuidados com a Natureza e o meio ambiente é muito positiva na maioria dos países. Já a reação dos políticos comprometidos com as indústrias sujas é lamentável, mas muitas barreiras estão sendo superadas”. Você realmente se sente otimista diante dos “novos habitantes do Planeta”?

FG: As crianças, hoje em dia, são muito mais conscientes em relação às questões ambientais, mas elas também são submetidas a um conjunto de influências. Todos nós somos, simultaneamente, estimulados a proteger o meio ambiente, e a consumir de forma a refletir valores que giram em torno da riqueza material, como se ela fosse o fato principal da vida. A sociedade de hoje exerce múltiplas influências sobre as pessoas; nem sempre uma influência positiva pode ser vista isoladamente. Se examinarmos o mundo, veremos que os valores foram sendo, progressivamente, substituídos: a religião não é mais um valor universal; as utopias políticas que vislumbravam outro tipo de sociedade, também não existem mais; a família já não tem mais as características e a estrutura do passado; até os vizinhos já não são mais vizinhos. Nós moramos em cidades grandes e nem sabemos mais quem são os nossos vizinhos… Então, somos obrigados a buscar um caminho próprio, a própria autenticidade. Por isso tudo, é muito difícil prever o que irá prevalecer em uma sociedade na qual o papel do indivíduo, e a importância de suas escolhas é cada vez maior.

GUAIAÓ: Você acha que as pessoas têm consciência de todas as influências que elas sofrem na hora de fazer suas escolhas, ou elas agem de forma automática, inconsciente?

FG: Eu acho que é muito importante desenvolver a educação e ajudar as pessoas a fazer suas escolhas, mas também é necessário respeitar as escolhas que elas fizerem. Nós vivemos um momento em que o indivíduo tem um peso muito grande, porque já não existe mais o constrangimento que havia no passado. Hoje, a religião, a família, a política e as ideologias já não ditam mais as regras de comportamento, e nem orientam as pessoas a seguir um único caminho com a mesma rigidez do passado, fazendo com que o indivíduo e sua individualidade assumam um papel muito mais importante do que antigamente, e isso vale tanto para o bem quanto para o mal…

GUAIAÓ: Você ainda vê a política e os movimentos organizados como caminhos de transformação social?

FG: Eu nunca excluo caminhos. Nós temos os ecologistas, que se organizam politicamente porque compreendem que a via institucional é um caminho importante, assim como são importantes os movimentos, um não exclui o outro.  Um partido político, não substitui o papel espontâneo dos movimentos, os quais também não substituem o papel institucional dos partidos, ambos se complementam. Assim como uma pessoa procura a arte, porque considera a arte como um caminho melhor; outra pessoa acha que a política institucional é um caminho melhor; outro acha que é o ativismo ecológico; e todos esses movimentos acabam se complementando.

GUAIAÓ: “Onde está tudo aquilo agora”, fazendo trocadilho com o título de seu último livro publicado?

FG: Eu mudei, estou me reinventando. Quem viaja como eu viajo, várias vezes por semana, aprende muito com o que vê, e com as pessoas com quem fala. Eu tenho aprendido muito com o que eu vejo, com o que eu ouço, estando sempre aberto para o fato de que não temos todas as respostas. Eu fui jornalista durante muitos anos, tornei-me político, voltei à minha profissão em um momento em que ela está decadente sob certos aspectos, mas com instrumentos de narração muito superiores. No passado, eu tinha uma pequena câmera e escrevia em uma máquina portátil; hoje, eu tenho um computador e a câmera com a qual eu fotografo também faz filmes de boa qualidade. Eu posso fazer uma televisão, realizar um jornal próprio, tudo com a minha própria câmera, e mostrar tudo isso nos sites da Internet, o que é muito poderoso!

 

Fernando Gabeira - entrevista - revista GUAIAÓ 05

O que não precisaria ser dito

Em “Onde está tudo aquilo agora”, seu mais recente livro, publicado em 2012, FG faz um balanço de 50 anos entre ideologias, política e jornalismo. No site da Flip – Feira Literária Internacional de Paraty, está registrada sua participação na mesa de discussões sobre “Autoritarismo, Passado e Presente”, em 2012. Nada de literatura no título, nem no debate; uma conversa em torno da política e da história recente do Brasil.
Em 1994, FG criou o site “Cidades Sustentáveis”, no qual ele destaca as melhores experiências urbanas que estão sendo realizadas no mundo. Atualmente, é o âncora do programa “Capital Natural”, que trata de economia criativa e urbanismo, a economia das florestas, oceanos, arte e conscientização, cidades e democracia, envelhecimento sustentável, entre outros temas.

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