REVISTA GUAIAÓ
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[ Uma História ]

FÚRIA – HANS STADEN, INIMIGO

Por: Soren Knudsen
Fotografias: Marcos Piffer

Revista GUAIAÓ 05 - Uma história - Hans Staden

“De Deus vem a Brisa, do inimigo a Fúria”.
Canoeiro, Ubatuba

 

O grito valente ao nascer do sol corta o silêncio da mata: “Quando eu estiver morto e vocês me devorarem, os meus amigos matarão e devorarão todos vocês”! Um arco perfeito é traçado pelo tacape ibirapema, que explode na nuca do guerreiro tupiniquim. A força do golpe abre a sua cabeça como se fosse uma melancia madura e lança os miolos pelos ares. O brado eufórico do jovem carrasco faz com que as aves levantem voo e se espalhem pelo céu do amanhecer. Os urubus fixam os olhos no corpo que tomba ao chão. Numa algazarra, as velhas correm para colher os miolos e o sangue quente em cuias antes que esfriem.

O sangue é dividido entre os membros da aldeia. Nada deve ser desperdiçado, tudo deve ser consumido e todos devem fazê-lo. O inimigo não é devorado por conta de sua carne, mas sim de seu espírito. As mães lambuzam os seios de sangue para que seus mitãs – bebês – possam compartilhar do inimigo. Tingem os braços dos kurumí-mirim – meninos  - com o sangue para torná-los bravos. A vingança é comemorada e consumida. Vingança pela invasão de suas terras, destruição dos seus campos de caça, das bancadas de pesca e dos ninhais do precioso Guará. Pelo roubo de suas mulheres. Pela ameaça à sua existência.

Enquanto o corpo é esquartejado, Mayara atentamente observa seu prisioneiro para ver se ele desvia o olhar da cerimônia. Somente guerreiros valentes são sacrificados. Covardes não interessam. Ao consumir a carne do inimigo, o seu espírito também passa para o devorador.  Logo chegará a vez desse amigo dos portugueses. O prisioneiro reza para o seu Deus. Para Mayara, filha de cacique, esse cativo não se comporta como outros que já foram abatidos pelos jovens da sua tribo. Não lhe parece valente.

Triunfante, vestido com um manto de penas de guará vermelho, o carrasco olha para as jovens que o cercam. É um dia de glória, de reconhecimento, de maturidade social. Com seus 25 anos de idade, fora finalmente escolhido pelos anciãos, entre os kurumí-guaçus – guerreiros, para passar pelo rito de iniciação. De hoje em diante será considerado como avá adulto. É uma honra e uma responsabilidade. O ritual de vingança simboliza a perpetuação da tribo. A cerimônia estabelece a harmonia entre o plano espiritual dos antepassados e o das gerações que virão. Por ter sacrificado o inimigo, o jovem guerreiro vinga os males causados à sua família e à sua tribo.

Após o sacrifício, o guerreiro observa um complexo conjunto de ritos. Ficará resguardado na sua oca para que o espírito do sacrificado não lhe faça mal. Ao mostrar-se à luz do dia pela primeira vez, será considerado homem. Terá o direito de escolher uma temericô – esposa – para começar a própria família e de participar nas decisões que influenciam o futuro da sua gente. Renascerá com um novo nome e se juntará à hierarquia dos velhos defensores da tribo, os mendar-amo. Ele escolhe chamar-se Jaguaraçu – a grande onça devoradora de homens. O crânio do vencido é colocado numa estaca em frente à sua oca. Ali ficará até que a escolhida aceite sua proposta. Ao entrar na escuridão, ele ansiosamente olha para trás e busca o olhar da Mayara na multidão.

“Os Primeiros

O mundo de Mayara é feroz e sangrento. Vive numa faixa litorânea de extensas matas fechadas e exuberantes baías. Sua terra, a caá-etê, é de córregos, cachoeiras, serras e planícies costeiras banhadas num verão sem fim. A vegetação úmida explode em mil tons de verde. Perfumes exalam da selva fecunda. Plantas, flores, pássaros e animais de cores e formas impensáveis fazem desse mundo de neblina e chuva, seu lar. As vozes das matas sussurram a sua sinfonia. Águas despencam das serras e correm por córregos e rios para desaguar no mar em baías protegidas por morros e em longas praias de enseadas abertas.

Nas águas límpidas dos rios, os peixes oferecem fácil sustento. O povo cultiva, pesca e caça na mata. A mandioca e o milho complementam a dieta. Do imenso mar que os acompanha em toda a extensão do território, alimentam-se das aves, dos mamíferos e dos peixes. Até as baleias que encalham nas praias são aproveitadas ao máximo, desde a gordura até os ossos. A tribo protege os seus recursos a qualquer custo e, quando se esgotam, migram para novas áreas.

A tribo é batizada com sangue e com sangue luta pela sobrevivência. Quebrar as regras que os preservam por gerações é tabu. Para os tupinambás, a tribo é central. Ela mantém o domínio e o poder sobre as suas terras. Dentro do seu território, a tribo se apoia numa rede de tawas aldeias unidas por laços sanguíneos, interesses e inimigos comuns e defesa mútua. As mulheres circulam entre os seus familiares. Os homens caçam e pescam juntos. Em tempo de guerra, montam expedições contra as tribos vizinhas e confraternizam nas cerimônias para o sacrifício de inimigos.

Nas aldeias, o centro da vida social e familiar é a maloca – a grande oca. São ocas que chegam a ter cinco metros de largura, três metros e meio de altura e 45 metros de comprimento, abrigando até 200 pessoas com laços familiares. Essas malocas são construídas ao redor de um grande terreiro e cercadas por estacadas defensivas a caiçara. A unidade mais importante das aldeias é a maloca. A pessoa pertence à maloca. É na proteção dela que a vida dos tupinambás se desdobra, com o espaço central reservado para o chefe e suas mulheres.

Cada família tem seu espaço e nela as refeições são preparadas e comidas ali. Aqui, as visitas são hospedadas e o entretenimento é feito. São realizados os rituais. Os vencidos são assados sobre o fogo. O cauim, aguardente de milho, é consumido nas bebedeiras cerimoniais. Ali, o amor e o sexo são feitos no aconchego das innis redes de fio de algodão esticadas do teto.

Há três épocas de chuva, Mayara teve seu primeiro nhemõdigara fluxo. Foi iniciada em rito de passagem, rito de morte e de renascimento. Reclusa na maloca, cabelo raspado e pintada com jenipapo, a menina já não vivia mais no seu corpo. Durante quatro meses junto às adultas, as uainuy, Mayara perde os atributos de menina e adquire os novos conhecimentos essenciais para a sobrevivência da aldeia.

Ela foi marcada com profundos cortes rituais nas costas, nos seios e no ventre para comprovar a sua nova posição na aldeia. Sangrou de corpo e alma. Pelo ritual de sangue renasce como mulher e toma para si o nome que lhe garante a sua individuação: Mayara a que domina. Para os tupinambás, as jovens iniciadas são livres para se relacionar com quem e quantos quiserem. E, se lhe agradar, casar. É ela que Jaguaraçu deseja para si.

Para eles, os tupinambás são únicos. São os primeiros, os mais antigos. São os que buscam a lendária “terra sem males”, um lugar mítico onde ninguém adoece e a paz predomina. Os que não são tupinambás ameaçam a sua existência. São os outros, os vizinhos, os inimigos os tupiniquins. Sem que eles saibam, os inimigos que conhecem há gerações estão prestes a mudar. A presença desse prisioneiro tinoába-piranga – barba ruiva -, que agora clama a seu tupã – deus -, é um presságio. Para Mayara, nada será como antes.

 

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O Inimigo

Com a sua barba ruiva, cabelo estilo monge, calvo em cima típico dos tupinambás, seu corpo nu pintado coberto com formas geométricas, veste apenas um cocar que o identifica como prisioneiro. Hans Staden mantém a calma. Sabe que sua vida depende da vontade de Mayara, que agora o observa. É prisioneiro dela. Seus primos, Nhaêpepô-guaçu e Aracundá-mirim, o capturaram perto do braço de mar onde a tribo pesca a tainha na piracema – a saída dos peixes. Os tupinambás chamam esse lugar, essencial para o sustento da tribo, de “o lar da tainha” Piratyoca.

Ali, num verdadeiro balé aquático, as tainhas nadam rio acima, contra a correnteza, para realizar a desova no período de reprodução anual. Os empregadores de Staden, os portugueses, pronunciam Piratyoca como Bertioga. A serviço das tropas de choque de João Ramalho, Staden foi emboscado perto do Forte de São Felipe, situado no extremo norte da ilha de Santo Amaro, a Guaimbê.

Ramalho foi o maior senhor das guerras dessas terras naquela época. Das muralhas do compacto forte São João se observam, cobertas pela mata, as ruínas da Ermida do Santo Antônio do Guaimbê, a Armação das Baleias e um pouco além, onde era o Forte São Felipe, no outro lado do canal. Ramalho e seus guerreiros defenderam Bertioga contra mais de mil arqueiros tupinambás que atacavam com suas grandes canoas de guerra. Sem ele, a capitania de Martim Afonso nunca teria sobrevivido.

Ramalho, náufrago na costa do nosso litoral por volta de 1513, aos seus 20 anos, foi acolhido pela tribo dos Guaianases e rapidamente alcançou prestígio com o cacique Tibiriçá, juntando- se com sua filha predileta Bartira. Logo assumiu o papel de braço forte do sogro. Para aumentar sua posição e o status de Tibiriçá, Ramalho e seus filhos adultos mantinham entrepostos “brasileiros” no litoral, onde negociavam pau-brasil, que os indígenas o ajudavam a extrair e reabasteciam os navios europeus que transitavam no litoral da terra de Santa Cruz. A liberdade sexual nas tribos era grande. Pela prática de “cunhadismo”, Ramalho não se importava nem um pouco em se deitar com as filhas dos caciques vizinhos para selar alianças. Teve mais filhos fora da união com Bartira do que com ela.

Para colocar João Ramalho em perspectiva, foi ele e seu contingente de guaianases que receberam Martim Afonso no “Porto dos Escravos”, na ilha de Guaiaó, em 1532, e não os tupiniquins que habitavam o local. Dono absoluto da praça comercial, assegurou-se que o negócio da armada afonsina não caísse nas mãos de outro. Ele foi o primeiro intermediário do Brasil. Vinte anos mais tarde, Brás Cubas, o governador da então incipiente Capitania de São Vicente, viu a situação econômica dos engenhos ameaçada por falta de mão-de-obra. Mais uma vez, Ramalho estava no lugar certo na hora certa.

De seu reduto do porto de Tumiarú, Ramalho comandava mais de 5000 guerreiros guaianases e tupiniquins. Com eles, dizimava as tribos vizinhas e vendia os prisioneiros de guerra como escravos para os colonos. Com a crescente demanda, seus filhos mamelucos aventuravam-se cada vez mais mata a dentro para capturá-los. Nem nativos, nem brancos, esses filhos de Ramalho comportavam-se com extrema crueldade contra os que encontravam no planalto.

Mas essa ofensiva violenta teve consequências. Na medida em que os portugueses raptavam a sua gente e desmatavam a selva para ampliar os canaviais, as tribos se sentiam acuadas. Ameaçadas de perder seus meios de sobrevivência, revidaram. Os tupinambás pedem ajuda aos franceses que negociavam escambo e pau-brasil na costa. Os franceses, que não concordavam com o Tratado de Tordesilhas, cobiçavam um pedaço desse paraíso. Para eliminar a concorrência, ajudam os indígenas a assaltar os povoados e destruir tudo que lhes caía nas mãos. São Vicente sangra.

Braz Cubas mais uma vez recorre ao seu parceiro comercial João Ramalho para resolver a situação. Das posições fortificadas em Bertioga, Ramalho conduz uma campanha de “terra queimada”, que instiga os primeiros movimentos sangrentos da chacina. Durante os próximos 50 anos, varrerá a presença indígena do litoral paulista para dar espaço aos engenhos de açúcar que constituíam a base da economia colonial.

À frente das suas tropas de choque, ornamentado com colares de dentes dos inimigos vencidos, Ramalho segue numa rota de destruição das aldeias tupinambás ao norte de Bertioga. Nas terras despovoadas, aldeias vazias. No seu rastro, a selva arde em chamas, sufocando a caça com densa fumaça. A terra seca se abre expondo suas veias. Os rios sangram com o sedimento arenoso das chuvas que desbarrancam suas margens. As nascentes secam. Os mananciais morrem. A tainha e a garça desaparecem. A monocultura estéril do canavial silencia a cacofonia do mosaico das matas. Pindorama chora.

Ramalho mantém o embalo e avança além da Serra de Boiçucanga, divisa natural entre os tupiniquins e os tupinambás, a caminho da Ilha de Maembipe, a Ilha Bela. Milhares de tupinambás são exterminados ou capturados na campanha. As notícias das atrocidades cometidas pela horda de Ramalho não tardam a chegar ao cacique Cunhambebe, da aldeia Ariroba, perto de Angra dos Reis.

Cunhambebe assume a liderança e, numa explosão de violência, devolve a fúria dos Tupiniquins e Guaianases, empurrando Ramalho, seus guerreiros e os portugueses de volta a Bertioga. A Vila de Santos e seus engenhos, cujas fornalhas consomem a mata ao seu redor, estão à mercê das impes, incursões indígenas que descem pelo canal da Bertioga. Começa a campanha para exterminar os portugueses e seus aliados traidores da terra que o seu povo ocupava desde que “os primeiros” chegaram do norte.

 

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Staden

Em sua segunda viagem ao Brasil, o mercenário da cidade-estado alemã de Hesse, Hans Staden, então com 26 anos de idade, naufraga na altura de Itanhaém. Consegue se salvar e, ao chegar a Santos, sede da capitania depois da destruição de São Vicente por um maremoto dez anos antes, ele se hospeda com um conterrâneo, Heliodorus Hessus. Heliodorus é gerente do Engenho de São João, propriedade do poderoso genovês Giuseppe Doria, parceiro comercial do Governador Martim Afonso e do Capitão-mor Braz Cubas.

Junto a outro patrício, Peter Rösel, gerente do Engenho dos Erasmos, Heliodorus e Cubas incentivam o ambicioso soldado a aceitar o cargo de comandante da Casa Forte de Bertioga.  Fechariam assim a brecha que ameaça seus caros investimentos. Staden considera a oportunidade aquela que buscava no Mundo Novo. Conhece as regalias do cargo de oficial Del Rey, pois lutou ao lado dos portugueses contra os franceses e seus aliados indígenas em Pernambuco, na sua primeira viagem ao Brasil poucos anos antes. Negocia todas as comissões, mordomias e facilidades. As recompensas são certas.

Prevendo ataques cada vez mais ferozes, Staden recomenda que as fortificações sejam melhoradas e reforçadas. Na sua vinda ao Brasil, no final de 1553, Tomé de Sousa, o Governador Geral, aprova as medidas de defesa. Da sua posição estratégica na Ponta da Armação, o Forte São Felipe era a peça de resistência que servia para mostrar a supremacia militar que Portugal estava disposto a usar para defender suas posses. Nem a Casa Forte nem o Forte São Felipe existem mais. Anos depois, foi substituído pelo Forte São Luiz, que hoje enfeita a ponta da ilha. Com o fogo cruzado que o forte São Felipe e o de São João ofereciam, não tinha como passar por ali. Por ora, os engenhos estavam seguros e as perdas reparadas.

O tupinambá Nhaêpepô-guaçu também queria reparar as suas perdas. Seu pai foi mortalmente ferido quando ele e seus bravos voltavam da Ilha Guará, perto de Bertioga. Buscavam penas das aves vermelhas para uso cerimonial. Um tiro de arcabuz vindo do forte arrancou seu braço quando sua canoa foi atingida ao passar ao largo da foz de Piratyoca. Sua aldeia fora saqueada e as malocas queimadas pelas tropas de Ramalho. Sua gente foi devorada ou vendida como escravos. Ele e seu irmão Aracundá-mirim ansiavam vingar a morte de seus familiares.

Montaram uma expedição para capturar quem causou a perda. Aguardaram o momento certo e, quando o inimigo vacilou, o emboscaram e o raptaram. Esse barba-ruiva, que covardemente lançou o raio de trovão detrás dos muros do seu forte, será um presente deles para o irmão do seu pai, Ipiru-guaçu – o grande tubarão. Terão a sua vingança.

O Cativeiro

Quando chegaram à sua aldeia de Ubatyba, três dias ao norte de Bertioga de canoa, entregaram Staden ao tio. É de praxe que a filha do cacique ou uma irmã do futuro carrasco tome conta do prisioneiro para que as outras jovens da aldeia não se envolvam com o inimigo. Mayara, filha de Ipiru-guaçu e prima dos irmãos, será a mulher e mestra do barba-ruiva até que ele seja sacrificado. É sua a responsabilidade de assegurar que ele mantenha a saúde, o humor e o peso até o dia do seu sacrifício. Após a morte do prisioneiro, Mayara novamente estará livre para casar-se com outro. Jaguaraçu reza para que matem Staden logo e que, quando chegasse a hora, que ele mesmo fosse escolhido para acabar com o intruso.

Com seus 17 anos, cabelo preto liso abaixo da cintura, Mayara era a cobiçada musa dos guerreiros da aldeia. Desde pequena ela acompanha os curumins nos seus jogos de guerra.  Com eles corre pela mata, rema nas canoas, nada nas ondas do mar e mergulha dos penhascos e das cachoeiras. Arco e flecha em mãos ela caça e pesca melhor que muitos deles. À noite, na maloca ao lado do pai, acompanha as conversas dos guerreiros sobre os movimentos dos inimigos ao redor das fogueiras.

Nua, lisa, seu corpo dourado untado de óleo brilha ao sol. Tinta de urucum destaca os sensuais quadris e as fortes coxas. Os olhos negros amendoados são acentuados por uma faixa de tinta preta que os sobrepõe. Brincos de pena enfeitam as orelhas e braceletes adornam os braços. Uma garra de onça acaricia os pequenos seios no balanço do seu andar. O sorriso, contagiante. Determinada, mantém Staden, soldado experiente, quase dez anos mais velho que ela, como o seu bicho de estimação.

Formam um casal exótico. Ele, alto, branco corado pelo sol, pintado de azul que reflete os seus olhos cor do mar e sua barba vermelha. Ela, duas cabeças mais baixa que ele, pele marcada pelas cicatrizes de iniciação e o urucum espelhando a barba dele, olhar de onça e um papagaio falante sempre junto. As jovens da aldeia riem e cochicham entre si quando Staden passa. É diferente dos outros guerreiros. Estão curiosas e também querem senti-lo em vida antes que o devorem na morte. As grávidas apontam para o seu pênis. “Vou comer você!”, zombavam dele. Para que seus filhos nascessem caçadores, os órgãos sexuais eram comidos por elas no banquete.

Que Staden ia morrer ia. Era questão de tempo e da vontade de Mayara. Mas não se Staden o pudesse evitar. Mercenário, ele não tem fidelidade aos portugueses. Está sozinho contra os seus captores. Para sobreviver, ele tem que se aliar a eles. Procura fazer com que Mayara não perca o interesse nele e o entregue ao sacrifício. Sempre atento, sobrevivente, Staden procura o seu momento de fuga.

Enquanto podem, os dois aproveitam seus dias, um após o outro. Coniventes, perambulam pela aldeia e suas redondezas. Mayara lhe ensina a sua língua, mostra onde os seus deuses moram e os mistérios da selva. Ela ensina como usar arco e flecha, a pescar com rede e imitar o ronco da onça. Ele fala sobre uma terra distante. De altas montanhas brancas, de sua gente e mostra como se navega pelas estrelas. Ensina-a como lutar com lanças e se defender com adagas.

Juntos, permanecem fora todos os dias e, às vezes, as noites também. Nadam nos rios, comem da mata, sobem nas árvores para pegar mel das abelhas e exploram um ao outro no frescor do anoitecer. Ela ensina e aprende. Longe da maloca, a mata ecoa suas risadas e abafa os seus gemidos. Ela percebe que talvez fosse sentir saudades do seu pupilo e mestre.

Staden convive na aldeia. Acompanha o plantio da mandioca e milho nas roças. Participa dos rituais. Dança e canta com os velhos. Caça com os guerreiros. Vai às pescarias oceânicas de canoas-de-um-pau-só. Ipirú-guaçu via que sua filha, o xodó da sua vida, estava aprendendo e se divertindo com esse estrangeiro. Staden, com a mesma idade dos guerreiros iniciados da aldeia e, experiente, não se acanha em dar sua opinião sobre planos de guerra ou investidas contra os inimigos. Ipirú-guaçu passa a confiar no acompanhante da filha e fica curioso sobre o deus que cultiva. Parece muito forte. Embora marcado para morrer, o barba-ruiva não o desagrada. A sua mulher, mãe de Mayara, não se manifesta.

Em expedição de caça junto com os guerreiros, longe da aldeia, Staden e Mayara alcançam uma até então desconhecida borda da mata. Quando antes estiveram aqui, a mata formava um tapete verde até o salto de Itatinga. Observam o fogo e a fumaça da mata incendiada. Na terra sulcada, as mudas de cana-de-açúcar. Não eram escravos tupinambás que lavravam a terra debaixo do sol ardido, mas uma tribo de homens fortes de complexão escura, tapajús. Não falam nheengatu, a língua da costa. Respondem os capatazes em português. Staden explica que são escravos da Guiné que são capturados na terra que fica do outro lado do oceano.

Com mão de obra importada, a produção cresce e o desmatamento acelera. Surpresos com o avanço da derrubada, deram conta de que as tropas de Ramalho já estavam perigosamente perto de Ubatyba. Antes de se retirarem do local, combatem corpo a corpo um grupo de tupiniquins. Todos escapam. Ninguém sai ferido. Mas com o avanço dos canaviais de São Vicente, o perigo é mais iminente do que pensam. Apresentar-se-á na forma mais inesperada, silenciosa e letal.

A Influenza

Poucos dias após o contato perto da nova borda da mata, os primos de Mayara adoecem repentinamente. Tossem, espirram e apresentam inflamação das fossas nasais. Do nariz, um corrimento transparente misturado com sangue. Sentem dores no corpo, nos olhos, um mal estar permanente e queimam de febre. Não conseguem se levantar das redes e nem sair das malocas. O contágio perfeito.

Staden reconhece os sintomas como os da influenza da sua terra natal. Trazida para a capitania pelos marinheiros, a gripe desembarcou junto com eles. Presente na Europa por mais de 300 anos, a população já estava imune. Mas o povo de Mayara não. O vírus avança sem dó sobre uma população indefesa. Staden faz o que pode para amenizar os sintomas. Ele imagina que passarão após poucos dias de repouso. O que ele não sabe é que eles não têm como resistir.  A maioria dos infectados não estará viva em poucos dias.

Em semanas, os familiares de Mayara são dizimados um a um.  Os enterros são diários. Primeiro as crianças e velhos. Depois as grávidas. Por fim, tosse seca ecoando pela maloca vazia, sozinhos, prostrados nas redes, os guerreiros se apagam. É a pneumonia. Incapazes de se defender contra esse mal desconhecido que consideram uma maldição do deus branco, recorrem a Staden para que peça a seu tupã para poupá-los. Staden reza. E reza para que Mayara não seja a próxima vítima.

Por sorte, o primo Nhaêpepô-guaçu e uma das suas mulheres prediletas se recuperam. Se antes Ipirú-guaçu desconfiava que o deus de Staden fosse forte, agora ele está convencido.  Manterá Staden vivo para se precaver contra a maldição que assola uma maloca atrás da outra. Mayara, feliz, não trai os seus sentimentos. Jaguaraçu discorda e argumenta que o culpado de tudo isso é o barba-ruiva.

O que Ramalho não conseguiu fazer em anos de luta sangrenta, a gripe faz em meses. Aldeias inteiras são abandonadas sem poder enterrar seus mortos. O pajé não consegue afastar o mal. O seu tupã parece tê-los abandonado. Não resta gente o suficiente para defender as aldeias e nem para manter o alimento na roça. Expostos, queimam as suas ocas. É insustentável permanecer. Os retirantes migram para as aldeias próximas e se juntam a seus parentes. Luto é o inevitável resultado. Quebra a vontade de lutar dos tupinambás. Ameaça a sua própria existência.

O Combate.

Cunhambebe decide atacar no coração do inimigo. Destruirá Bertioga e ele mesmo matará João Ramalho. Esse “cacique branco” é o maior guerreiro português dessa terra e, ao consumir seu espírito, destruirá o inimigo para sempre. Chama os caciques para o conselho de guerra. O destino é traçado. Na próxima piracema, seguirão para Bertioga para destruir os engenhos e queimar os canaviais que avançam sobre a sua terra, tomando seus recursos, espantando a caça, afastando os peixes e agora matando sua gente na calada da noite. A vingança será deles. O equilíbrio será reestabelecido.

Ipiru-guaçu comparece com três canoas, totalizando 54 guerreiros. Jaguaraçu lidera o batalhão da sua oca. Staden se incorpora como soldado tupinambá. Trinta e oito canoas zarpam na armada de Cunhambebe em direção a Maembipe. São quase 700 homens. Em três dias estarão em Bertioga e tudo que cair na mão deles será destruído.

Sendo “genro” de Ipiru-guaçu, Staden está entre os de confiança de Cunhambebe. Ele tem informação, obtida na costa dos portugueses, de que 25 canoas tupiniquins os esperam para emboscá-los antes que cheguem a Boiçucanga. Pretendem destroçar a incursão antes mesmo que cheguem a Bertioga e assim armar o contra-ataque.

No segundo dia da remada chegam ao estreito de Maembipe. De lá, é só mais um dia por mar até Bertioga. Encontram com um batalhão tupinambá que saíra poucos dias antes das tropas de Cunhambebe. Confirmam a informação de Staden. Contam que mataram muitos inimigos quando foram emboscados em terra. Encorajados pelos reforços, eles se juntam ao exército de Cunhambebe.

No dia seguinte, quase quarenta canoas saem em direção a Bertioga. É a ultima etapa antes do conflito. Os guerreiros estão ansiosos por enfrentar o inimigo e, o que é mais importante, capturar prisioneiros. Nenhuma mãe deixaria suas filhas deitarem com um homem que não tivesse feito pelo menos um ou dois prisioneiros. Disso jamais sairia bons frutos. Os filhos seriam medrosos e fracos.

Jaguaraçu também quer capturar o seu prisioneiro. Quanto mais inimigos ele capturar e sacrificar, mais influência terá. Poderá escolher mais de uma esposa e, por meio do trabalho delas, melhorar o seu status e situação econômica. Ele quer impressionar Mayara. Quer seguir os passos de Ipiru-guaçu. Será cacique.

Ao passarem pela Ilha das Cabras, surpreendem cinco canoas com aproximadamente 100 tupiniquins. Quando o inimigo percebe que não terá como combater os mais de 700 guerreiros que se aproximam, apostam na destreza e velocidade das suas canoas e disparam para o sul em direção a Boiçucanga. Por quatro horas remam pelas suas vidas. Mas as canoas de Jaguaraçu alcançam os tupiniquins em plena vista da Praia Brava, um pouco antes de alcançarem seu porto seguro.

Staden reconhece os guerreiros inimigos. São todos de Bertioga. Dois dos cinco filhos mamelucos do capitão Braga, Domingos e Diogo, com quem Staden servira, lideram o grupo. Os Bragas defendem a entrada do canal de Bertioga contra os inimigos tupinambás há anos.  Domingos e Diogo não têm intenção nenhuma de cair nas mãos de Jaguaraçu. Conhecem as consequências mortais. Contra quase 40 canoas de arqueiros, os Braga defendem-se por duas horas com uma espingarda e arco e flechas. Mas para eles o jogo está prestes a terminar. Sua munição termina, assim como suas flechas. São capturados pelo inimigo.

Os Braga sobrevivem ilesos, mas muitos dos sobreviventes tupiniquins estão gravemente feridos. Com os prisioneiros amarrados no fundo das canoas, não é prudente continuar até Bertioga. Decidem voltar para Maembipe e acampar lá. Jaguaraçu tem seu cobiçado prisioneiro. Tem carne para todos e a aguardente está pronta para ser bebida. O banquete está armado e as fogueiras já estão em brasas. Num gesto de compaixão, Staden secretamente facilita a fuga dos Braga, que se enfronham na mata antes da matança começar.

 

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O Adeus

Após o retorno de Maembipe, Ipiru-guaçu tem uma decisão difícil a tomar. O prisioneiro demonstrou sua lealdade a Cunhambebe e lutou com valentia contra o inimigo. A cada semana que passava, sua vontade de sacrificar o prisioneiro era menor. Mayara e Staden já vivem como um casal há quase nove meses. Parecem felizes. O pai, porém, não tem como formalizar esse relacionamento e, o que é mais importante, a mãe o proíbe. Não pode quebrar as regras que preservam seu povo por gerações.

Staden não é um deles, é prisioneiro de guerra. Ele não passou pelos rituais de iniciação da tribo e não capturou guerreiros inimigos. Ele não consome a carne e o espírito dos vencidos junto aos velhos. Diz que seu tupã o proíbe. Nem furo no lábio inferior para colocar um enfeite, símbolo de masculinidade, Staden quer fazer. Era diferente demais e reza para um deus que joga pragas mortais na tribo. O barba-ruiva não irá casar-se com Mayara.

Consciente, Ipiru-guaçu apresenta a chance de fuga para Staden. Sabe que os franceses negociam em Taquaruçutiba, não longe da sua aldeia. Ele decide presentear o cacique da aldeia, seu amigo Abati-poçanga, oferecendo seu prisioneiro Staden. Para Ipiru-guaçu, é o único jeito honrável de se desfazer dele sem ter que matá-lo. Avisa o amigo que esse prisioneiro é diferente. Pode confiar no que diz e mantê-lo entre os seus, porém não deve sacrificá-lo. O seu deus é poderoso e lhe causará desgraça. Mayara aceita a decisão do pai. Matar Staden também não é da sua vontade.

Quando chegam a Taquaruçutiba, Mayara entrega Staden ao seu novo dono. Ele não mais é da sua responsabilidade. Ela ri em voz alta. Os tupinambás não choram na hora de partir. Para eles, as partidas são alegres. Alegria pelas novas aventuras e novas experiências. Alegria pelo que já foi vivido e as memórias que permanecem. São os retornos que merecem lágrimas. As mulheres choram e lamentam pelos perigos e dificuldades que passaram e agradecem a coragem que tiveram. Choram pela saudade. Mayara suspeita que não derramará lágrimas por Staden.

Antes de partir, carinhosamente toma as mãos de Staden nas suas e cochicha algo no ouvido dele. Ele acena um último adeus. Ela vira as costas e desaparece na selva. Não olha para trás.  Jaguaraçu terá a sua cobiçada esposa, sua temericô.

Para Abati-poçanga, Staden tem pouco valor. Não gosta dele e, se é que joga pragas, quer se ver livre. Na primeira oportunidade que tem, troca o prisioneiro por umas caixas de bugigangas com um capitão francês que se diz irmão de Staden. Vela içada, a terra desaparece no horizonte. Para Staden, o suplício termina. Para Mayara e seu povo, o martírio está prestes a começar.

O Impacto

A primeira coisa que destrói uma cultura é a mudança de religião. Uma vez que você tira os deuses do povo, aqueles que mantinham contato com as divindades, os caciques e pajés perdem a sua autoridade e assim o seu mandato para governar. Desestabiliza a sociedade. A segunda é a língua. A partir do momento em que a sua língua-mãe não mais é a língua do poder, você, necessariamente, tem que aprender uma língua nova que traz consigo toda uma cultura que não é a sua.

Quando os filhos não mais seguem a religião dos anciãos e não mais falam a língua dos seus antepassados, eles já não se sentem parte da tribo. O sistema entra em colapso e a perda é irreversível. Com Tomé de Sousa desembarcaram dois jesuítas, Manuel da Nóbrega e José de Anchieta. Para eles, soldados de Deus, a alma silvícola somente passará pelos portões do paraíso falando português. Com eles, a destruição começa.

Cunhambebe pondera as suas opções. Não se submeterá a uma aliança na condição de escravo e, com a experiência que teve até agora, não acredita que possa manter a autonomia tribal por meios pacíficos. Os portugueses querem tudo. Seus guerreiros, suas terras, seus deuses, sua língua e suas mulheres. Arrisca tudo e constrói uma aliança que virá a ser a Confederação dos Tamoios. Uma aliança de tribos até então inimigas que, junto aos franceses de Villegagnon, mudam o aspecto da guerra com os portugueses. É viver ou morrer.

Cunhambebe morre. Não pelas mãos dos inimigos, mas por um vírus muito mais potente que a gripe, a catapora – “o fogo que salta” –, contraída dos próprios franceses. Durante o próximo século, a catapora segue matando noventa por cento da população do Mundo Novo. Os tupinambás perdem a sua liderança e o seu poder de fogo. Enfraquecidos, não têm outra opção a não ser negociar a paz. Giuseppe Doria, Anchieta e Nóbrega representam os interesses comerciais da capitania e negociam os termos do Tratado de Paz de Iperoig. Com a assinatura do primeiro tratado de paz nas Américas, em 1563, finda a guerra que lhes causou tanto estrago. Os tupinambás viajam para casa, esperançosos e satisfeitos com os termos.

Não sabem que esses termos não serão respeitados pelos portugueses. São traídos. Poucos anos depois, Mem de Sá, Governador Geral do Brasil, volta atrás e rechaça os poderes que os tupinambás obtiveram diplomaticamente. A chacina retoma sua fúria. Por ordem Del Rey, todos os indígenas aliados aos franceses são eliminados sem trégua onde encontrados. Com eles, o sonho de um Brasil francês também termina. Ramalho tem novas ordens. Segue para o planalto paulista e vira a casaca contra os tupiniquins. Com seus ainda fiéis Guaianases, ele abre caça aos seus antigos aliados. Não restarão nem tupiniquins e nem guaianases nessa cilada.

Para salvar o seu povo desse calvário, Jaguaraçu, agora cacique, foge junto com sua tribo mata a dentro e seguem para o norte, de onde “os primeiros” vieram tantos anos atrás. Com os demais que sobraram das tribos dizimadas, formam a maior migração interna da América do Sul em tempos pós-colombianos. O sudeste é abandonado. Ao açúcar, o espaço por qual lutou.

Por mais de duas gerações andam pelo sertão até chegarem ao extremo norte do Brasil. Ironicamente, chegando lá, participam da fundação da cidade de Belém do Pará e lutam ao lado dos portugueses contra os franceses, consolidando assim a posse da Coroa Portuguesa. Viram para o oeste e continuam Amazonas adentro. O mais longe possível dos inimigos.  Desaparecem na imensidão da selva.

Mas Mayara não segue Jaguaraçu. Ela se lembra das histórias contadas por Staden sobre a peste negra que assolou sua terra natal. A catapora lhe parece igual. Desconfia que caminhar pelo sertão desconhecido será o fim do seu povo. Separa-se do marido e parte em direção ao mar com os que sobraram da maloca de Ipiru-guaçu. Talvez Staden ainda estivesse por lá. No litoral, ela se junta ao crescente número de negros fugidos dos engenhos, brancos sem-terra e outros de tribos vizinhas que, desesperadamente, se escondem na costa. Ali, longe das doenças do invasor, eles constroem sua caiçara, um refúgio à perseguição dos soldados de João Ramalho e dos de Deus, os jesuítas.

Hoje, a presença dos tupinambás ecoa nos nomes sonoros do litoral norte. Cambaquara na praia da “areia que canta” – Juquehy – é um deles. Em tupi, camba quara é o “lugar de resistência”. Nesses núcleos, a cultura caiçara tem seu início. Os “caiçaras” fixam-se no litoral e constroem uma nova vida emprestando o melhor das três culturas que se juntaram na hora da necessidade: o indígena, o africano e o europeu. Carregam o último sangue tupinambá do nosso litoral. Neles, Mayara continua lutando pela sua sobrevivência.

No relato sobre as suas experiências entre os tupinambás, Viagem ao Brasil, publicado em 1557, Staden conta que todo prisioneiro vive com uma mulher até ser sacrificado. Ele, porém, não conta nada sobre a mulher com a qual certamente viveu durante o que deve ter parecido uma vida. Confessar que teve relações carnais sem a bênção da Santa Igreja seria pecado mortal. Para quem escapou de ser assado em nome dos deuses tupinambás, não lhe convinha ser queimado na fúria da fogueira da Inquisição.

Mas Staden, com certeza, não se esquecera dos cheiros, gostos e sabores de tantos anos atrás. No bolso, talvez carregasse um búzio, tingido de urucum que, naquele distante dia do adeus, Mayara apertara em sua mão sussurrando “lembre-se de mim abàiba tinoába-piranga”. Para o resto de sua vida, Staden, certamente, manteve um lugar especial no seu coração para a sua amada dominadora tupinambá.

Terão medo e pavor de vós todo animal da terra, toda ave do céu,
tudo o que se move sobre a terra e todos os peixes do mar;
nas vossas mãos são entregues.
Gênesis 9.2

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