REVISTA GUAIAÓ
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Joinville

Por Marcos Denari
Fotografias Marcos Piffer

Gastronomia revista GUAIAÓ 04 - Foto de Marcos Piffer


Aaahhh, a Joinville! Quantos petiscos…
Não falo de uma das confeitarias mais antigas da cidade, mas da praia. Quando o Marcos Piffer me pediu para falar sobre a Joinville, a praia que mais frequentei em toda minha vida, a praia que é a minha praia, a primeira imagem que me veio à cabeça foram os “petiscos”, os mais belos “petiscos” de Santos… Quanta gente bonita frequentou e ainda frequenta a Joinville. Que point…
E eu, pelas circunstâncias que só o acaso pode explicar, fui colocado ali naquela praia por todos estes longos e bem vividos 50 anos de vida.

Mas indo ao encontro do objetivo da minha coluna, que é outro tipo de petisco, ou seja, o gastronômico, desde que me lembro de ir e comer alguma coisa na praia, só posso falar da Joinville. Sim, porque meu pai e minha mãe frequentavam a barraca de praia da Associação dos Dentistas, que fica bem ali no pedaço de praia que acabou ficando conhecido como Joinville desde os anos 60, década em que nasci. E era ali, naquela barraca, que eu saboreava e até hoje saboreio os amendoinzinhos e os pastéis fritos na hora.

Claro que tem os pastéis dos carrinhos com aquelas filas imensas (aliás, parece que todo mundo combina de comer ao mesmo tempo), mas eu sempre preferi o pastel da Barraca dos Dentistas. Antes porque eu não pagava, colocava na conta do meu pai, e hoje porque, talvez ao entrar debaixo daquela lona, uma sensação gostosa da infância, de aconchego e de segurança, deva ainda me envolver, e aí o pastel desce que é uma maravilha…

Aliás, as barracas de praia de Santos são algo que mereceria um trabalho à parte… Em uma pesquisa rápida, parece que elas começaram a ser erguidas e divididas como agremiações na década de 30 e foram se multiplicando. Quase todo santista, em alguma época da sua vida, frequentou uma dessas barracas e logicamente tem a de sua preferência com seus diversos petiscos, churrascos, festas, Carnaval e até Réveillon. Não sei não se há em alguma outra praia do Brasil tantas agremiações e barracas como em Santos colorindo sua orla. E olha que se passaram todos esses anos, tanta coisa foi mudando e elas estão firmes lá.

Mas vamos aos petiscos de praia.

Comer na praia não é uma tarefa das mais fáceis e saudáveis. Pouco me arrisco, mas a fome bate e aí, para onde correr???

Além do pastel, outra coisa que eu adoro é o amendoim com casca. Aquele que a gente compra de porção e fica ali esbugalhando, comendo aos poucos e batendo papo por um tempão.

Biscoito de polvilho? Sim! “Praiano”!

Salgado ou doce?

De preferência, os dois… Começando com o salgado…

Milho Verde? Nããããooo!!!

Gastronomia revista GUAIAÓ 04 - Foto de Marcos Piffer

“Mas corre e vai lá buscar um daquele senhor ali. Só o dele é bom. E pede um bem molinho, hein!”, ordena a patroa, que adora um milho de praia. Já eu, dispenso. Acho muito trabalho para pouco resultado. Se vier no pratinho então, pior ainda, parece que é menos do que tinha na espiga. Eu precisaria de uns três milhos para uma porção adequada ao meu perfil. Fora que não dá nem pra chupar o caldinho salgadinho do final, pô…

Camarãozinho no espeto? Queijo coalho? Churrasquinho no espeto???  Nããããoooo, essas coisas não são lá muito do cardápio do santista da Joinville.

Sanduíche Natural??? Depende de quem. O da Istael eu não dispensava. Mas agora desconheço os fornecedores…

Então, para comer, não vejo grandes alternativas a não ser os petiscos das barracas (cada um com a sua), pastéis, amendoim, biscoito e ah, os sorvetes, claro!

E para beber?
Antes era raspadinha. Eu adorava raspadinha de groselha. Aliás, quem não gostava???  Mas agora é anti-higiênico, antiecológico, antipedagógico, sei lá, é antitudo. Decretaram que é proibido tomar raspadinha. Parece que é uma determinação da ONU. Deve ter matado milhares de pessoas, parece que é algo muito, muito perigoso mesmo.

Depois veio a época do mate e do abacaxi. Eu gostava do abacaxi. Até conhecer o chá-mate do Paraná. E o Paraná???
Mais uma coincidência que a Joinville me fez viver… Eu adorava jogar futebol. Nas férias, e cá entre nós, durante os bons anos de Faculdade, era futebol quase todo dia de manhã ali na beira do canal 3. Depois ia ver os “petiscos” na Joinville e tomar um mate no Paraná. E de tanto ir ao Paraná, acabei fazendo amizade com o pessoal que jogava bola no final da tarde, nas travinhas do Paraná, ali, bem em frente à Joinville. E por lá joguei e zanzei por um bom tempo, até o dia que vieram nos convidar para jogar no campo do Náutico, do outro lado do canal, para completar os times. E lá fomos nós, toda a molecada e o Paraná junto.

Até que, lá pelo meio de um jogo, com o Paraná no meu time me pedindo bola, me pedindo bola, me enchi, chutei a bola pra longe e mandei o velho para aquele lugar… O quê?

O Paraná ficou doido, pegou uma marreta atrás do gol e saiu correndo atrás de mim até cansar. E assim, me despedi do “mate” e das “travinhas” para entrar no Náutico Praia Clube, onde joguei por longos 26 anos, só voltando ao Paraná depois de um bom tempo, quando ele já nem se lembrava mais de mim. Vai que lembrasse!!!

E com o tempo, conforme fui trocando o abacaxi e o mate por algo mais forte para beber, vieram os carrinhos de praia. Antes eram só as barracas das associações e os ambulantes, mas sei lá como, de repente, os ambulantes viraram barraquinhas com ponto fixo, máquina de cartão, cadeiras, guarda-sóis, patrocinadores, garçons, enfim, um luxo… Achei ótimo. E qual não foi a coincidência de encontrar bem ali na praia da Joinville a “barraca do Arnaldo”.

O Arnaldo é aquele do carrinho com o toldo laranja que fica exatamente em frente à estátua de Vicente de Carvalho. Ele trabalha ali há 19 anos. Não é dos que chega mais cedo, mas é dos que sai mais tarde. Isso porque durante dez destes anos ele ainda trabalhava de porteiro noturno em um edifício em São Vicente. Chegar muito cedo era difícil…
E a sua barraca bomba. Para conseguir tomar sua caipiroska é preciso enfrentar uma lista enorme controlada rigorosamente pela sua filha Stefani. E sem suborno. Ele ainda conta com a ajuda do filho Matheus e mais uma molecada para tocar toda a função do carrinho. Durante um domingo de sol no verão chegam a preparar e servir mais de 100 caipirinhas, que consomem quase 50 quilos de frutas, e mais de 240 latinhas de cerveja.  Latinhas, porque garrafa agora também não pode. Me parece que é antiético no caso de uma briga.

Mas enfrentar esta lista de espera vale a pena! O Arnaldo é algo incrível. Ele dá um colorido, um capricho e um visual sem igual à sua bebida. E no ponto que você desejar. Fora a simpatia e o astral que o ambiente proporciona. Sem contar a sombra. Além disso, a mistura de frutas e depois o uso do gengibre deram o toque final na que hoje, para mim, é a melhor caipira e a melhor barraca de praia de Santos.

Claro, afinal ali é o meu point… De onde ainda posso desfrutar, na sombra, com os amigos e uma bela caipirinha, o desfile dos “petiscos” da Joinville…

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