REVISTA GUAIAÓ
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LAURINHO CRIOU O VERÃO NAS ESTRELAS…

Por Flávio Viegas Amoreira
Fotografia Ana Carolina Fernandes

Cinecidade revista GUAIAÓ 04 - Fotografia de Ana Carolina Fernandes

O verão é naturalmente praiano, um fenômeno cultural costeiro. Verão no interior de qualquer continente é estio para arar, sem a atmosfera do esplendor gozoso do mar ondeando. O verão nos trópicos torna-se ainda mais essa aura de desenlace, rebeldia e busca pelo tórrido contato hedonista e corporalidade desnuda. O verão só existe diante o Oceano, permitam-me a radicalidade dum suarento boêmio voyeur de quem passa caminho de bronzear.

Os verões dum poeta são a curva entre o bar e uma silhueta ensolarando capaz de voltar. É contemplação etílica de musas e surfistas, gladiadores das vagas com bafejo de todas as maresias. O cinema rima com verão em forma de nostalgia: é a estação para fixar, saudade dum relance, distanciamento em planos amplos. Assim rememoro “Bete Balanço”, não com intelecção, mas como um instantâneo em minhas retinas e epiderme já bem escaldadas. Cinema é mais que reflexão, é “contaminação virtuosa” pela emotividade: daí que cito a polêmica frase de Paulo Emílio Salles Gomes ao vociferar lindamente: “O pior filme brasileiro é melhor que o melhor filme estrangeiro”.

Logicamente que esse nacionalismo dum intelectual cosmopolita só teve condão de levar ao limite a necessidade de um país se reconhecer, se revelar, se identificar visual, plasticamente. “Bete Balanço” expressa esse simbolismo múltiplo para quem nasceu nos anos 60 e já tinha pouca utopia para sonhar, mesmo lutando novos sonhos em tanto “lusco-fusco”. Trata-se duma fita geracional, documento zeitgeist, que tem valor de arqueologia urbana, um rebobinar de evanescências e registro temporal que ainda deita raízes em cultura, atitude e estilo.

Atitude, termo tão batido e aplicável! Os anos 80 me parecem, na superfície, mais remotos que os anos 20, mesmo fortes em cada hábito dessa atual transmodernidade. Uma década não é estanque a um corte de cabelo ou bainha de calça, seus efeitos só são medidos em placas tectônicas muito além da cronologia.

O verão de 1985 foi um eixo, vértice implodindo e reforçando, nos estilhaços, todas as certezas e contestações desde o pós-guerra. A praia era, mais do que nunca, o nirvana para o bode pós-desbunde, estávamos no limiar e desfecho de tantas mutações! O computador pessoal já engatinhava, a produção independente em música e literatura pré-digitalização, proliferavam bandas e edições alternativas de poetas alucinados, surgiam hip hop, techno, de Seattle passando por Katmandu, o som de garagem casava com new age. Tudo era mix: punks, darks e beatniks tardios conviviam com execráveis “figurinhas” do planeta dividido por Reagan/Thatcher com falacioso “neo-liberalismo” e seus “yuppies”. Vivíamos na corda bamba num “clip sem nexo entre bossa-nova e rock´and roll”. Bebíamos freneticamente no primeiro Rock in Rio, embandeirados de verde-amarelo saudando a redemocratização, a vitória “meia-boca” de Tancredo e a derrota das Diretas-já ainda nó na garganta.

Lógico que, aos 18 anos, vendo pela primeira vez “O ultimo tango em Paris”, de Bertolucci, e “Saló”, de Pasolini, sabia que a trilogia de Lael Rodrigues – “Bete Balanço”, “Rock Estrela” e “Rádio Pirata” – já nascia datada, mas era a essência desse verão que permaneceria com seus lugares e rostos: a Cinelândia brizolista ou a Farme de Amoedo “entendida” tinham correspondentes em São Paulo com o Lira Paulistana, e Santos muito mais antenada e cosmopolita com a Heavy Metal e o canto do cisne da velha Boca. “Bete Balanço” faz-nos lembrar que o nosso “Studio 54” eram as praças apinhadas de jovens lindos sem preocupar-se em serem “sarados”: a Beleza era substantiva, estava ali úmida e intumescida, mesmo que espreitada pelo pânico: a Aids! Escrevo esse ensaio como quem saúda os que tombaram órfãos duas vezes: por uma Utopia que não morreu com o muro e pelos tantos amigos e amores que partiram quando nosso amor era um “risco de vida” e nossos “inimigos estavam no poder”. O verão de 85 me leva a um bar na Praça Sezerdelo Correa: ouvíamos Cazuza e este escritor passava tardes nessa Copacabana onde ainda poetas eram célebres e atores buscavam poesia. Meu janeiro com Laurinho Corona e nossas cartas-testemunhas: confesso que sobrevivi! para contar que o verão é jovem porque se repete.

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