REVISTA GUAIAÓ
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[ Ficção ]

MARÍTIMA – MAR, BELO MAR SELVAGEM

Por Natalia Barros
Fotografias Marcos Piffer

Literatura revista GUAIAÓ 04 - Foto de Marcos Piffer

Do quarto onde eu dormia dava para escutar o som do apito dos navios. Grave quase subcutâneo, ressoava diretamente no plexo solar. A cama parecia pequena para tanta história. Os navios sempre em movimento entre os países e continentes, sem trégua, num contínuo ir e vir. Pareciam sinalizar que assim era para ser. Sempre ouvia esse chamado na madrugada, entre sonhos. Esse som precisava de silêncio. Meu pai, nessa época, viajava muito a São Paulo, e quando eu acordava no meio da noite, lembrava de rezar para que tudo estivesse bem. Rezar, de alguma maneira, era apenas pensar coisas boas e agradecer. Viajar ficou para sempre com esse gosto noturno e desconhecido, do qual reconheço na memória o eco.

O resto era o mar.
No caminho para escola, pelo calçadão da praia, o jardim impecável. Tão bem cuidado que parecia ser assim natural, de origem. Como se o paraíso fosse um clássico jardim, francês-tropical: gardênias, lantanas, palmeiras-leques, cicas perfumadas, lírios, amarílis, roseiras cor-de-rosa, e uma espécie roxa, que nunca mais eu vi tão bem agrupada, as dracenas, nome que levei anos ainda para aprender. Uma fileira majestosa de chapéus-de-sol, com suas folhas grandes e rubras, ia salpicando o caminho. Eram também conhecidas como amendoeiras, palavra de especial beleza, por suas sementes grandes, duras e ovaladas, que davam vontade de comer. Um jardim aberto e público.
O piso de pedra portuguesa das calçadas propunha desenhos novos. Pisava sempre no preto, sempre no branco, entre as formas de peixes, baleias, golfinhos. Uma enorme estátua de leão, em que dava para subir e que parecia imensa, era a guardiã da orla. O mar esteve sempre ali.
A cidade tinha seu mapa exato: os canais. Cada um dividindo os bairros com seus pequenos conceitos e significados: uns mais comerciais, uns tradicionais, uns modernos, uns muito longe. Numa cidade pequena e plana, o muito longe é compreendido por todos e as fronteiras estão sempre presentes. O único limite real estava na frente de tudo, aquele mar que como todos sabiam ia dali até a África.

Mar incontinente.
O porto apesar de ser no outro extremo, dava ritmo à cidade. Os navios cargueiros, de toda parte do mundo, apareciam com seus contêineres cheios de sabe-se lá que especiarias. Nuns dias dominicais, a orla ficava povoada por marinheiros trajados com seus uniformes brancos, sempre em bandos. Sorridentes e belos.

Mar aberto.
Aprendi a nadar de tanto ir à praia, aos poucos e sempre. Desde então, nadar transformou-se numa meditação. Aos poucos fui percebendo que o segredo era não me afobar, que podia aproveitar aquele imenso silêncio denso de debaixo d’água. Aprendi também a olhar para o mar no presente. Cada momento muda, existem as correntezas que nos desviam do ponto de referência, os buracos no raso e as marés. Quando a onda vem grande, o jeito é mergulhar, colar o corpo na areia cinza e sentir aquele volume cúbico passando por cima, com calma dá para retomar o fôlego. Foi com naturalidade, apesar do medo, que percebi essa maravilha, que agora seria um tesouro particular: o fundo.

Literatura revista GUAIAÓ 04 - Foto de Marcos Piffer

Mar selvagem.
O apartamento da minha avó ficava em frente à praia. Seus janelões generosos e um binóculo pesado preencheram horas e horas da minha infância. Se o dia estava chuvoso e mesmo assim tinha gente nadando, com certeza eram da capital. Num tempo cinzento, para entrar naquele mar gelado que dói, só mesmo para quem é desprovido dessa regalia no dia a dia, não eu, que não precisava disso, e podia até me dar ao luxo de esquecer o que não esquecia.

Mar português.
Meu avô tinha sido campeão de canoagem e atravessara várias vezes o canal, onde passavam as balsas. Quando o conheci, ele já mais velho, parecia um sábio japonês desses que impõe sua presença gentil com uma força exata. Foi ele quem me mostrou as novidades. O centro, a bolsa de café, o cheiro do café, as pombas nas janelas dos prédios que tinham argolas nas patas para serem catalogadas. Os bichos-preguiça soltos na praça em frente à rodoviária, os passeios de barco para as outras praias, a escada rolante, o misto quente da loja de departamentos, e também a flexibilidade das regras que permitiam doces e batatinhas fritas, em ordens variadas e deliciosas, antes da seriíssima hora do almoço.

O mar era meu.
Nos fins de semana, o dia era todo de ficar na praia. A toalha vermelha estendida na janela do prédio em frente indicava que estava na hora de voltar. A pele esticada de sol. O sal tão bom no braço que dava para lamber. Dava pena tomar banho.

Mar de calmaria.
Minha mãe com sua presença doce, tranquila, de poucos nãos, só os necessários. Ensinava valores humanos, fraternos, éticos. Delicadezas: dias de gripe pode tomar sorvete, mas devagar. Tudo passava por ali. A independência, a praça, a bicicleta, muitos primos, os amigos, os namorados e as primeiras e inúmeras vezes.

Mar bravio.
Numa tarde, num lugar onde diversas ocasiões já tinha nadado, apesar da aparente calma do sol escaldante do verão, escondida, a correnteza puxava para o fundo. Tão forte que se eu brigasse, perderia. Fiquei ali temerosa e atenta. Fui resgatada por um banhista que, por sorte, passava por ali.
Algumas vezes o mar não estava mesmo para peixe. Só de olhar dava medo.
Batia no calçadão, invadia a avenida. Deixava na tarde uma auréola ancestral. Sete ondas se formavam na imaginação. Mar que tudo pede de volta. Mar de náufragos. Mar que traz à tona sedimentos abissais. Mar que cobra o preço e quebra a canoa. Mar de ressaca. Força que atrai para trás. Inverte sentidos.

Mar épico.
Mar de sereias de quem ouvi as vozes, muitas vezes me deixando levar sem amarras no mastro, sem saber como ir ou como voltar. Outras vezes nas pedras, na rebentação entoando os cânticos. Odisseias em alto-amar.
Brisa marinha. Céu de gaivotas. Pássaros de arribação. Deitada na areia via os voos geométricos. Urubus solitários deslizando espirais sem mover as asas, nas térmicas ascendentes. Dava vontade de ir junto.
Era tão natural que, quando os anos passaram e fui morar em outra cidade, procurava nem pensar muito no mar para que a saudade me deixasse ir atrás do futuro que agora inventava para mim. Cidade nova, grande, sem linha de horizonte, sem mar, sem mãe, mas encantadora. Era só não pensar no mar. Quando vamos encontrar um grande amor, é melhor nem lembrar muito, para que os dias possam passar cheios de horas e de possibilidades. Para que o tempo não seja feito cartas enfileiradas e, sim, segundos, minutos, dúvidas, passeios, realizações e mistérios. Às vezes é preciso prosseguir sem pensar.
Aos poucos consegui amortecer a falta do oceano. Estudei, parei de estudar, voltei, trabalhei e viajei por lugares em que meu trabalho me levou. Sempre que me senti em casa, estava à beira-mar. Cheiro de maresia, umidade grudada na pele, baixa pressão que tira a pressa. Ralentava os passos enquanto ia voltando a ser eu mesma. Um retorno ondular.
Ainda hoje, caminhar na beira do mar parece com caminhar no mundo. Parece eterno esse caminhar entre conchas, sambaquis e castelos de areia desfeitos.

Carta náutica.
Vieram as minhas filhas e as férias à beira-mar. Dias de praia bem cedo para o sol ser leve na pele, praia bem vazia, parecia só nossa. Escalar as pedras quentes, ásperas, cinzas, marrons, negras, cheias de baratinhas, mariscos e algas. Pés gordos e lisos de criança pequena escolhendo o caminho a cada passo. Atenção constante. Passava meus segredos devagar. Alguns inevitáveis caldos com o cuidado de não assustar demais, para não perder o gosto, nem de menos para não perder o respeito.

Mar esmeralda.
Com o tempo convivi bem na outra cidade, no planalto. Aprendi inclusive a cultivar meu próprio jardim — exuberante até. No começo chamava terra de areia, mas fui aprendendo com as plantas, outras formas de natureza e de oração. Para uma caiçara fui longe. Cultivo, colho, adubo, faço mudas, alporquias, jardins para outras pessoas, horta, pomar, lago com carpas e flores perfumadas que se alternam com as estações.
Um dia percebi que o mar estava dentro, que podia seguir sua pulsação aonde quer que eu fosse, numa intimidade líquida que a outros olhos podia parecer doidice oceânica.
Vendo que minha alma vagava entre as ondas e o cais, falaram: Que loucura, você não se interessa pela vida real? Jornal, política, sociedade, o lixão que querem fazer no bairro e que todos comentam no mercado? É preciso saber do dia a dia, da confusão das horas, do suor do trabalho, do pão, do pré-sal, da copa. É preciso saber do concreto, da vida moderna, do petróleo etc. e tal. Você pensa que a poesia virá com força sempre, de dentro do tão dentro do mais dentro desse profundo e caudaloso mar, seu mar vermelho, seu maremoto, sua maré interna, seu porto só com portas que dão para janelas e mais janelas do seu céu? Com tanto sentimento gravitacional, como ondas, que vem e vão, uma após outra, atraídas pela densidade do luar?

— Tem dias que só mar adentro, respondi.

Literatura revista GUAIAÓ 04 - Foto de Marcos Piffer

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