REVISTA GUAIAÓ
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As Curvas de Santos

Por Gino Caldatto
Foto Marcos Piffer

Patrimônio revista GUAIAÓ 04 - Foto de Marcos Piffer

Inaugurada em 1957, como parte das comemorações do aniversário da cidade de Santos, a Fonte Vicente de Carvalho, na praia do Boqueirão, compunha o elenco de modernizações idealizadas pelo prefeito Antônio Feliciano para a avenida beira-mar. Na urbanização desse trecho, os componentes arquitetônicos filiados à obra da Pampulha, do arquiteto Oscar Niemeyer, se manifestam livremente – caminhos ondulantes entremeando jardins, fontes luminosas e, claro, graciosas marquises sinuosas revestidas em cerâmica policromada. A volumetria compacta e horizontal das coberturas confere sensível controle da escala na transição entre a paisagem urbana e a praia.

As semelhanças construtivas com o vizinho Edifício Verde-Mar, de João Artacho Jurado, trouxeram muita confusão quanto à autoria do criativo projeto urbanístico. Equívocos à parte, coube a Eduardo Costa Macedo, profissional radicado nos quadros da administração pública, a responsabilidade por toda concepção arquitetônica da fonte do Boqueirão. Macedo era carioca e trabalhou na prefeitura entre os anos de 1948 e 1985, aproximadamente, sendo os “ossos do ofício” os responsáveis pela sua ascensão profissional. Desenhista talentoso, adquiriu status de “projetista” em face dos crescentes encargos que recebia. Elaborou escolas, equipamentos urbanos – alguns conhecidos do público local, como os abrigos de bonde e as fachadas dos túneis -, entre tantos trabalhos produzidos pelos quatro cantos da cidade. Autodidata, nutria amizade por arquitetos do quilate de Oswaldo Corrêa Gonçalves e Aníbal Martins Clemente, criadores da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de Santos.

Na fonte do Boqueirão, certos maneirismos do autor se sobressaem às linhas inovadoras do modernismo brasileiro ainda nascente na região. O emprego abusivo das curvas, com evidente despreocupação geométrica na configuração dos equipamentos, denuncia o repertório formal vinculado às obras de Niemeyer e Afonso Eduardo Reidy, referências arquitetônicas que tanto admirava, recordou seu filho, o arquiteto Adilson Costa Macedo. Os elementos construtivos de grande força gestual, somados às figuras marinhas criadas no piso pelo cenógrafo Newton Souza Telles, atribuem juízo espontâneo e lúdico a toda composição.

Mas isso tudo não faz o menor sentido para o Gabrielzinho, que cotidianamente invade o local transpirando alegria entre tortuosos caminhos repletos de peixes e estrelas do mar, pilotis de creme, águas luminosas e, acima da cabeça, o teto recortado por nuvens. Para ele, tudo aquilo é apenas um espaço de magia, efeitos colaterais da boa arquitetura que deixou saudades.

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