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[ A praia e eu ]

A MUSA DO TAMBORÉU

Por Marcus Vinicius Batista
Foto Marcos Piffer

 perfil revista GUAIAÓ 04 - Foto Marcos Piffer

O tamboréu respira hipóteses. A primeira diz que o esporte, trazido por italianos no pós-guerra, é terreno masculino. A suposição seguinte nos aponta para um jogo de ex-atletas, muitos com vitórias também acumuladas na região abdominal. O tamboréu também costuma ser visto como recreação, em que competitividade é coadjuvante. E a quarta hipótese se constitui no que você, leitor, manifestou até agora: paciência. Longas trocas de bola marcam as partidas à beira da praia ou no saibro (terra batida) dos clubes.

A moça ao lado está em seu habitat. Ali, ela vem demolindo – há três anos e meio – adversários de ambos os sexos, assim como derruba na areia as premissas do tamboréu. Wanessa Alonso Teixeira Simons, de 39 anos, é uma dona-de-casa que descobriu o esporte numa academia. Convidada por uma amiga, resolveu conhecer o mundo dos tambores, que mal prestava atenção enquanto corria. No primeiro dia, o desastre. “Não acertava uma bola, mas mostrei aptidão por jogar com os dois braços”.

Em duas semanas, ficou em segundo lugar no primeiro torneio. “No começo, era difícil. Chorava de raiva, em casa, quando perdia”.

Hoje, é uma das melhores jogadoras da região. Em 2010, fechou o ano como líder do ranking da categoria B. Na temporada seguinte, na categoria A, também ficou no topo da lista. A partir de 2013, ela e a parceira Simone Almeida devem disputar as categorias D e C, no masculino. “É mais fácil lidar com homens. Não tenho a mesma paciência com elas”.

Paciência é palavra-chave para entender Wanessa. Ela é fundista, quem cadencia a partida. Wan, como é chamada, se tornou “fundista atacante”, pela força e velocidade com que conclui pontos. “Se pudesse ganhar só no saque, estaria bom”. A performance a levou à França, para participar do Mundial, em 2011. O Brasil venceu na categoria B. Na França, as quadras têm o dobro do tamanho da versão brasileira. O tamboréu é de nylon e com alça. “Não gostei. Não houve tempo de adaptação”.

Wanessa é perfeccionista. Joga até machucada. Numa partida recente, jogando com homens, machucou o tornozelo e foi até o final. “Reclamar de dor, entre eles? Não quero ser meia-boca. Quero ser a boca inteira”.

Os exercícios diários cobraram o preço. Temendo por lesões, Wanessa procurou um profissional há três meses.  A vida mudou. Ganhou mais equilíbrio e paciência na quadra. Reduziu a carga de treinos, que incluíam corridas e duas horas de academia.

O tamboréu significa a extensão de casa. A filha Gabriela, de 12 anos, e o sobrinho Victor, de 13, praticam o esporte. O marido Paul se tornou jogador e o pior adversário. “Paul acerta bolas impossíveis quando joga contra mim. Na quadra, não há casamento”. Em 2011, os dois se enfrentaram, em duplas, no Ipê Open, em São Paulo. A partida valia vaga para a semifinal. “Quadra lotada. Todo mundo quer ver marido e mulher como adversários”.

Até hoje, não se conforma que, após vencer o primeiro set, e com 8 a 6 no segundo, ela e Simone permitiram que o marido e o parceiro virassem a disputa. A indignação aumentou porque eles caíram na fase seguinte.

Wanessa, com o novo ritmo de treino, está em metamorfose. Mas ainda cultiva hábitos, como o tradicional tamboréu de madeira, mais pesado e que exige mais força do que os tambores de rede. E ainda adora decidir os pontos no fundo. É o recado de quem se recusa a matar a fera dentro de si. “Jogo como um ogro. Sou a Fiona desse esporte”.

 

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