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[ A praia e eu ]

JOHN WOLTHERS – UM VIKING TROPICAL

Por Gisela Kodja
Fotografias Marcos Piffer

John Wolthers - Fotografia de Marcos Piffer

Ele é mais do que um cara do bem. John Wolthers é um homem honrado. Dizendo assim, a frase parece careta e antiquada para definir um surfista radical reconhecido. Mas, em meia hora de conversa, ele une as duas pontas da vida com respeito e gratidão, o que só conseguem as pessoas com essa qualidade.

Sobre o pai, fala com admiração.  Alto, claro e forte, como imaginamos todos os dinamarqueses, Johnaage faleceu cedo, deixando de herança um forte compromisso com a ética, o trabalho e a honestidade. É uma referência que entra e sai de qualquer assunto, como se ainda estivesse por perto.

Quando o tema é a mulher e os quatro filhos, o sorriso se enche de luz. Sempre surfam juntos na véspera de Natal. No dia 24 de dezembro, todos chegam à praia de manhã e ficam no mar até o final da tarde. “É um momento de consagração, de comunhão. Eu rezo, peço proteção para a minha família e agradeço a chance de ainda estar ali”.  John é o primeiro dos Wolthers a passar dos 52 anos de idade, “graças ao esporte”.

Apaixonado pelo surf, ele se refere ao oceano como “minha catedral” e, diariamente, desliza sobre a água em pranchas que fabrica desde a adolescência. A primeira nasceu inspirada em um filme sobre as impressionantes manobras dos havaianos em tubos gigantes e cristalinos. Fascinado pelas cenas, John desmontou a tábua de passar roupas da mãe, improvisou uma quilha e mergulhou na sua definitiva aventura.

“O meu pai quase morreu de susto quando me viu com aquele pedaço de madeira no meio da rebentação. Ele tentava me controlar com um apito de escoteiro. Ficava na beirada, apavorado. Depois, desistiu de me convencer do perigo e mandou vir do Rio a minha primeira prancha de verdade”.

Logo, o irmão Christian também entrou na água e o pai achou que a brincadeira estava cara demais. Anunciou que quem quisesse surfar ia ter que se virar. Àquela altura, o surf para eles já era uma religião e, se tivessem que bancar as próprias pranchas, “tranquilo”.  Em 1974, os dois montaram uma oficina no quintal de casa e fundaram a Viking Surfboards, empresa que hoje tem sede em Santos e Fort Lauderdale, na Flórida (EUA).

John nasceu em Copenhagen e com 5 meses veio para o Brasil. O pai queria aprender sobre o comércio de café “e Santos era a maior escola sobre o assunto”. Cresceu na Rua Barão de Penedo e, dos 19 aos 40 anos, circulou por aí. Virou médico em Niterói, mas não quis exercer a profissão. Para decidir o que fazer da vida, se deu férias.  Foi para a Dinamarca, passou pela Noruega e pelo Rio de Janeiro. Abraçou o ofício do pai e começou a trabalhar com exportação de café. Cansado do mundo, um dia John quis voltar pra casa. “Santos é, definitivamente, a melhor cidade para se viver”.

Nas praias emblemáticas para os surfistas do litoral paulista, John encontra o pessoal da antiga. Sempre que pode, pega onda no canal 1, em Santos, e na praia do Itararé, em São Vicente. “Gosto de estar entre os amigos que me serviram de inspiração no esporte”, diz modestamente. Justo ele que marcou época e se tornou uma referência para o surf nacional. Ainda hoje, quando atravessa as areias do Brasil, John Wolthers é apontado pelos atletas do mar: lá vai o Viking.

John Wolthers - Fotografia de Marcos Piffer

 

GISELA KODJA Colaboradora GUAIAÓ 01

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