REVISTA GUAIAÓ
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LENNY NIEMEYER – UMA CIDADÃ DA PRAIA

Por Reh Theiss
Fotografias Luciana Whitaker

 Enquanto espero a chegada de Lenny Niemeyer ao seu atelier, fico imaginando quantas mulheres no mundo inteiro adorariam estar aqui, vendo “in loco” o espaço de criação de uma das estilistas brasileiras mais festejadas no mundo da moda. Um universo de estampas, cores e formas sofisticadas traduzido em coleções de moda praia, impecavelmente confeccionadas a cada nova estação, que ganham as passarelas da moda em desfiles cenográficos, despertando “desejos de consumo” em seu público fiel e nas “fashionistas” de plantão.

É neste espaço que as mãos de Lenny desenham e tramam linhas, tecidos e adornos, criando contornos atentos à anatomia do corpo feminino, sempre com seu olhar voltado à personalidade da mulher contemporânea, vestindo com elegância mulheres cariocas, paulistas, santistas, brasileiras e estrangeiras na hora de ir à praia e “esticar” para outros lugares.

Ao lado de sua mesa, um “mural de ideias” repleto de fotografias e lembretes, livros despojadamente organizados sob as janelas de vidro, abrindo-se ao horizonte, e um manequim vestido com uma das peças do desfile de Verão 2013. Atrás de sua mesa, uma paisagem emoldurada pelo verde intenso de fragmentos de floresta ainda preservada no Rio de Janeiro. O espaço captura minha atenção com sua aura de mistério, instigando minha curiosidade a buscar detalhes e minúcias sobre o processo de criação de suas coleções, cuja linguagem expressiva única transcende o campo da moda, flertando com os territórios da arte e da arquitetura, trazendo à tona sua formação em Artes Plásticas, sua passagem pela Arquitetura e sua paixão por Botânica e Paisagismo.

Ao chegar, Lenny nos recebe, sentenciando com entusiasmo: “Meu nome é Maria Helena Ortiz, e sou santista com muito orgulho!”. Ela pronuncia estas palavras sorrindo, com altivez e simpatia próprias de quem tem orgulho de seu passado e formação, e começa a falar de sua vida em Santos, com um brilho alegre nos olhos. Ela nos conta que sua infância na cidade, nos anos 50/60, foi um período muito feliz de sua vida, em que morava a uma quadra do Canal 3, ia à praia quase todos os dias com seus pais e adorava passear pelos Jambolões. Além disso, ela nos contou muito mais…

Lenny Niemeyer - revista GUAIAÓ 04 - fotografia de Luciana Whitaker

INFÂNCIA FELIZ EM SANTOS

GUAIAÓ: Como você vê Santos ao se lembrar de sua infância?
LENNY: Eu acho que já não existe mais nada do que eu gostava na cidade… Também sei, por uma grande amiga que ainda mora em Santos, que a cidade mudou muito, está cheia de prédios enormes. Mas eu vejo Santos como a cidade onde eu passei um período muito feliz da minha vida, em que a gente tinha uma qualidade de vida incrível! Com 10 anos de idade, eu tinha uma vida muito independente e podia ir a pé à praia, ao Colégio Stella Maris, onde estudava, e ao Tênis Clube, onde joguei tênis desde pequena. O que eu mais amava era jogar tênis, e lá eu cheguei a ser campeã infanto-juvenil!

GUAIAÓ: Quais as melhores lembranças?
LENNY: Ah! Um doce quadradinho de “Bananada”, que vendiam lá na Ponte Pênsil, embrulhada em papel manteiga e coberta com açúcar; as voltas pelo Boqueirão, onde a gente ia quando “matava aula”; o Bar Gonzaga, na esquina da minha casa, onde a gente ia comprar chiclete quando criança. Também me lembro da Doceria Joinville, que era de uns alemães que faziam uns doces absurdos de bons, e de ir comer Maria-Mole no carrinho da Kibon, que vinha embrulhadinha em papel. Adorava ir à Praia do Gonzaga e a um Parque de Diversões que tinha lá com uns brinquedos incríveis, e também ao Parque Balneário, que era como um palácio pra gente, como era lindo! E o Carnaval de Santos, com o ”Corso” na rua, minha mãe usando aqueles vestidos bem rodados, e a gente dentro do carro vendo todo mundo passar jogando “Sangue do Diabo”, e usando uns óculos pequenos para se proteger do “Lança-Perfume”, que naquela época só se usava para brincar!

GUAIAÓ: Em uma das muitas referências à sua infância, encontrei a seguinte frase: “Anfitriã de festas concorridas, Lenny parece ter herdado de seu pai, santista de coração, aberto e acolhedor, e de sua mãe dedicada, a arte de receber e o ambiente encantador de sua casa, refletindo a forma como foi criada, com açúcar, afeto e temperos”. Você diria que essa frase traduz bem o seu ambiente familiar?
LENNY: Traduz sim! Minha mãe adorava cozinhar, principalmente para reunir a família e manter os filhos sempre por perto, e o meu pai adorava receber. Então, minha casa em Santos tinha almoços festivos todos os domingos. Em São Paulo, continuou a ser assim, e hoje sou eu quem prepara almoços para receber as pessoas em minha casa aos domingos. Eu adoro ficar em casa, o meu lado festivo é “um ser festiva em casa”, recebendo as pessoas de forma descontraída, despretensiosa.

Lenny Niemeyer - revista GUAIAÓ 04 - fotografia de Luciana Whitaker

DO DESENHO À MODA

Você acha que já existia algo lá atrás, em sua infância, que a trouxe até aqui, hoje, como uma estilista de tanto sucesso?
LENNY: Além de jogar tênis, eu sempre gostei de desenhar. Quando eu queria alguma coisa, deixava bilhetes ilustrados para minha mãe e meu pai, com desenhos que pareciam histórias em quadrinhos. Como eu sempre amei desenhar, minha mãe chegou a me colocar em uma escola de pintura, onde eu só fiquei um único dia. Acho que eu era meio tímida, estranhei o curso, mas fui criada sempre no desenho. Depois vieram as cores, com as quais eu sempre associei um estado de espírito e um número: o número 4 é o preto; o 6 é o cinza; o verde é o 5; o 3 é meio rosado, e por aí vai… Minha mãe achava isso uma maluquice!

GUAIAÓ: Como se deu sua mudança de Santos para São Paulo?
LENNY: Nós nos mudamos para São Paulo quando eu tinha 15 anos, o que foi um choque, porque eu estava acostumada com Santos, conhecia todo mundo naquela cidade. Era uma vida muito gostosa, numa cidade que eu amava. Nunca imaginei que me mudaria para São Paulo, uma cidade grande que eu quase não conhecia, toda cinza, onde eu estranhava muito o frio. Foi um trauma… Tive que parar de jogar tênis, pois eram outras distâncias e eu dependia de minha mãe para me levar. Sempre que a gente saía, minha mãe sempre brincava, dizendo que eu ia para o colégio de olhos fechados, e falava: “abre os olhos!”, eu falava “não”. Eu não queria ver aquela cidade. Pra mim, a mudança de Santos para São Paulo foi como “sair da luz e ir para um lugar cinza”. Nessa época, eu também me aproximei cada vez mais do desenho.

GUAIAÓ: Você acha que precisou do desenho como um escape do choque da mudança para São Paulo?
LENNY: Eu precisei, sim. Quando chegou a época de escolher uma faculdade, eu decidi ir para a FAAP fazer Artes Plásticas, onde aprendi um pouco de tudo: pintura, escultura etc. Mas, ao mesmo tempo, eu queria trabalhar, e brincava dizendo: “já que nessa cidade o que mais se faz é trabalhar, então eu preciso encontrar alguma coisa para fazer!”, e tinha que ser alguma coisa com desenho. Embora meus pais tenham sido um pouco contra a minha ideia de trabalhar, eles conseguiram um estágio para mim no escritório de arquitetura de um amigo deles, o Arnaldo Conceição Paiva, também santista, onde trabalhei por uns 5 anos e me encantei com a arquitetura e o desenho técnico, largando um pouco o desenho de imaginação. Eu mergulhei no trabalho, mas sempre sentia falta do mar e de Santos. Milhares de vezes, eu andei por São Paulo imaginando que uma hora eu iria encontrar o mar. Fiquei muito traumatizada com a mudança, tanto que eu fiquei anos sem ir a Santos, porque eu achava que se fosse pra lá, não ia conseguir voltar para São Paulo…

GUAIAÓ: A gente percebe que o seu trabalho como estilista tem um caráter arquitetônico. Como foi sua trajetória trabalhando com a arquitetura?
LENNY: Depois de trabalhar no escritório do Arnaldo C. P., fui convidada para trabalhar em uma construtora que estava iniciando suas atividades em São Paulo, onde aprendi a desenvolver mais ainda a técnica em desenho de arquitetura. Nessa época, decidi fazer uma faculdade de arquitetura, tamanho era meu encantamento com a profissão, mas não cheguei a concluir o curso porque o ritmo era muito puxado. Eu trabalhava o dia inteiro, precisava “bater o ponto”, e a faculdade era do outro lado da cidade.
Também trabalhei com a paisagista Chinha Dorei, com a qual cheguei a me associar e abrimos um escritório juntas. No início, como eu não conhecia muito sobre técnicas de representação em paisagismo, pesquisava em livros indicações sobre como fazer para ilustrar os projetos paisagísticos dela, coisa que, na época, quase não havia quem fizesse, e ilustrava as plantas baixas misturando a técnica que eu tinha aprendido nos escritórios de arquitetura com o meu conhecimento em cores, criando a minha própria maneira de fazer plantas paisagísticas.
Nesta época, eu conheci o meu primeiro marido, com quem namorei e casei em 7 meses. E foi assim que aconteceu minha vinda para o Rio, tudo foi muito rápido.

GUAIAÓ: Sua vinda para o Rio de Janeiro te ajudou a superar o trauma da separação de Santos?
LENNY: É engraçado, mas eu não fiz a associação, em nenhum momento, entre a praia de Santos, que eu adorava, e as praias do Rio. Minha referência de praia era Santos. Eu nunca pensei “que bom que eu vou morar de novo em uma cidade de praia e voltar às minhas raízes”. Eu não pensava, na época, no Rio como “minha praia”. É como se uma coisa não pudesse competir com a outra… Com o passar do tempo e a vida caminhando, essa mudança acabou sendo um presente, eu me encantei com a cidade, e acabei indo muito pouco a São Paulo, apenas para ver a família, como faço até hoje.

GUAIAÓ: Como foi lidar com essa nova mudança?
LENNY: Quando cheguei aqui, fiquei perdida. Precisei sair do escritório de paisagismo, do qual continuei apenas como sócia por algum tempo, pois, aqui não havia mercado para o paisagismo. Eu não tinha amigos, não conhecia nada da cidade, não tinha trabalho. Fiquei dois meses sem saber o que fazer, o meu prazer era ir pra beira do mar, sentar na areia e ficar olhando o mar, e acabei percebendo que “o mar é sempre o mesmo”. Eu nunca tinha me visto sem trabalho, aí eu comecei a pintar telas. Foi impressionante ver como um processo, que havia se perdido ao longo dos anos, voltou por causa da minha necessidade de trabalhar com as mãos.

GUAIAÓ: Como aconteceu o seu “insight” para começar a fazer biquínis?
LENNY: Foi totalmente por acaso! Minhas amigas paulistas amavam os biquínis cariocas, mas como eles eram muito pequenos e a gente não estava acostumada, acabava comprando um tamanho maior. Então, como eu estava sem nada pra fazer, desmanchei um biquíni e vi que era apenas um triângulo. Na faculdade de artes plásticas, aprendi a fazer trabalhos manuais, e por isso, mais a minha vivência em arquitetura, pude enxergar as formas e redesenhei o biquíni para as minhas amigas, o que aproveitei pra mim também.
Nessa época, não existia “moda praia”. Existiam pessoas que faziam biquínis e não eram consideradas estilistas. A moda era muito temática e limitada para quem queria se vestir para ir à praia. Eu me lembro de uma loja de lycra, em que só havia estampas de âncoras e peixinhos, sem muitas variações, poucas cores, tudo muito “sem graça” e difícil até para comprar aviamentos, não existia a riqueza de materiais de hoje em dia. A moda praia era um “submundo da moda”.

GUAIAÓ: E como você fez para driblar as dificuldades?
LENNY: Eu inventava! Um dia, encontrei uma lycra em tom esverdeado no estoque de uma loja, e com ela fiz meu primeiro biquíni com umas argolas de osso, que eu mandava serrar e assar em um açougue perto de casa. Como eu tinha todo o tempo do mundo para desenvolver minhas ideias, pesquisava sobre técnicas e visitava lojas no centro da cidade. Quando vi que não existia uma estamparia legal, decidi desenvolver minhas próprias estampas. Pesquisei nas referências de tudo o que eu já estudava, em livros de Botânica, e outros temas. A primeira estampa que fiz tinha flores bem grandes de Hibiscus meio bordadas, em linguagem estilo havaiana. Muitas pessoas criticaram, pois achavam que as estampas tinham que ser pequenas, com flores miúdas, e eu estava fazendo justamente o contrário. Como saía muito caro fazer as estampas com tudo impresso por meio de telas, eu comecei a fazer roupas “pós-praia”, e levei essa proposta para São Paulo, pois as paulistas erravam muito na forma de se vestir para ir à praia, ao contrário das cariocas, acostumadas com uma vida ligada à praia.      

ALTA COSTURA À BEIRA-MAR

Na Coleção Moda Brasileira (Cosac & Naif 2010), série que apresenta o trabalho de 10 importantes estilistas brasileiros, o trabalho de Lenny, considerada a estilista que inaugurou a moda praia chic no País, é destacado em volume escrito por Camila Perlingero, que mergulha em sua história e estilo, e apresenta uma análise do histórico dos trajes de banho, desde sua chegada ao Brasil até o sucesso da estilista neste segmento. Segundo a autora, “valendo-se de modelagens da alta-costura, Lenny inovou ao utilizar estampas com grafismos gigantes, aquarelas do Brasil setecentista e a inesquecível coleção estampada com as ondas de Burle Marx para o calçadão de Copacabana, sugerindo que, “se houvesse alta costura em moda praia, Lenny seria eleita sua rainha absoluta”.

GUAIAÓ: Como os primeiros modelos de biquínis foram comercializados?
LENNY: Eu mandei alguns para uma amiga santista, a Maysinha Rocha Leite, que morava em São Paulo, e ela vendeu todos os meus biquínis. Como não existiam lojas específicas de biquínis, vendia-se tudo em casa, e foi assim que tudo começou!
Nos anos 90, criei coragem e montei a minha primeira loja, mas eu falava “não, eu não vou partir para abrir lojas porque não sou eu”, e até hoje eu não consigo ir muito às lojas e ter um contato direto com o consumidor, porque isso é muito diferente do processo pelo qual nascem as coisas que eu faço. Eu gosto é do processo de idealizar uma coleção, um desfile, uma passarela e a forma de apresentar tudo o que fazemos.

GUAIAÓ: Como foi de fato o início da profissionalização?
LENNY: Comecei muito devagar, não tinha dinheiro, não tinha um conceito, nem marca. Coloquei o nome de Lenny, instintivamente, porque era como as pessoas em São Paulo me conheciam. Tudo era, literalmente, feito em “fundo de garagem”, garagem que depois inundou, mas eu nunca pensei em desistir. Todo mundo falava “Lenny, desiste, como pode uma paulista fazer biquíni?”, e eu falava “eu não sou paulista de São Paulo, sou paulista de Santos, convivi com o mar!”.
Eu sempre gostei de desafios, e sinto que minha vontade ganhou força com as referências que eu trazia do desenho e da arquitetura. Diante de cada dificuldade, fui encontrando alguma solução criativa, depois vieram os primeiros eventos de moda, resolveram incluir a moda praia, e isso chamou a atenção dos jornalistas. Passamos a ter um registro do que já estava sendo feito e, aos poucos, a moda praia foi deixando de ser vista como um “submundo da moda”.

Mãos inquietas, disciplina e foco

GUAIAÓ: Observando sua trajetória, você se vê como uma artista plástica fazendo “moda praia”?
LENNY: Eu sempre me vi assim nos momentos de criação, mergulhando em ideias e insights de algo que queria realizar, mas que, muitas vezes, eu não sabia como realizar. Há alguns anos, não existiam as possibilidades técnicas do mundo atual. Hoje em dia, eu me vejo mais como uma artista plástica frustrada. Quando acabo de criar uma coleção, tenho que me desapegar dela, pois preciso acompanhar o cronograma das coleções. É tudo muito efêmero e rápido, não posso ter apego ao processo criativo que me encanta, tenho que esquecer e partir para outra coleção, outro conceito, outro processo de criação. E isso, a cada nova coleção, a cada novo desafio. Essa é a grande diferença de quando se faz um trabalho só de arte.

GUAIAÓ: Como é o processo para criar cada coleção?
LENNY: Eu viajo muito, e a cada viagem vou a livrarias, lojas, museus e lugares interessantes, o que me ajuda a me desligar de uma coleção finalizada, e a buscar inspiração para criar novas coleções. A sensação que eu tenho é a de que estou absorvendo de alguma maneira tudo o que estou vendo e que isso aparece de alguma maneira em meu processo de criação. Isso se dá de forma muito aleatória, eu nunca sei qual será a minha inspiração para a próxima coleção. Eu sempre penso que nada vai acontecer e que eu não vou conseguir criar uma nova coleção…

GUAIAÓ: Então você vivencia o mesmo drama da “página em branco” para um escritor?
LENNY: Página em branco total! Esse ano, eu nem sabia por onde começar… Cheguei a ligar para o stylist, que colabora comigo quando o tema da coleção já está definido, dizendo a ele que eu achava que nem poderia fazer um desfile. Ele me sugeriu pesquisar sobre os “Papangus”, uma manifestação cultural do interior do Pernambuco, em que as pessoas se mascaram. Num primeiro momento, eu não conseguia imaginar como fazer moda praia tendo como referência as máscaras dos “Papangus”. Pesquisei tudo sobre o assunto, relacionei com meus livros de várias outras culturas, e compreendi que estas pessoas, na verdade, usam o corpo como expressão de arte. Achei a ideia interessante, e tive a intuição de que teria que “radicalizar” no processo de criação da nova coleção se eu quisesse me inspirar nesse tema.

GUAIAÓ: Como se deu a passagem da pesquisa sobre os “Papangus” e a criação das peças da coleção Verão 2013?
LENNY: Primeiro, eu defini o uso de sobreposições fazendo referência às máscaras sobre o corpo, mergulhei nesse universo e fui extraindo texturas, tramas, estampas e ornamentos. Na segunda etapa do processo de criação, comecei a pesquisa por materiais que pudessem ser integrados às peças da coleção: da referência aos crochês tribais, fiz os trançados em lycra; das peles de animais usadas em vestimentas, criei estampas que remetem às pelagens, depois sobrepus telas e redes. Daí minha imaginação foi para o grafite, e para referências barrocas e suas manifestações na arte. Também quis “desconstruir” o uso da cor na sequência das peças desfiladas, começando com muitas cores e terminando em preto e branco. O meu maior cuidado, ao iniciar uma coleção, refere-se sempre à coerência, ela tem que estar presente ao longo de todo o processo. O meu conceito tem que estar muito bem amarrado e definido em termos de cor, estamparia, construções e desconstruções a partir do tema escolhido, daí começa a parte mais gostosa e desafiadora, onde eu posso trabalhar com as formas e elaborar à vontade, dar vazão à minha criatividade, começando por modelar as peças sobre o corpo das modelos.

A mulher para a qual cria

Lenny considera que fazer modelagem é sempre um desafio, pois não basta criar modelos que vistam apenas corpos esculturais, é preciso poder atender a todo tipo de público, e vestir corpos diferentes. Ela faz um trabalho milimétrico de construção e acabamento, no qual o mais importante é a modelagem e a construção interna de cada peça, para valorizar o conforto e a anatomia feminina.

GUAIAÓ: Podemos dizer que você faz “desenhos expandidos”, ao modelar direto no corpo das modelos, ao invés de desenhar as peças apenas no papel?
LENNY: É isso mesmo, o desenho no papel não me dá a noção exata das formas e da anatomia, nem do comportamento dos materiais. Como eu não sou uma “pessoa de computador”, eu preciso ver cada peça materializada no plano real para poder editar. Por isso, eu não recorro a aplicativos digitais no meu trabalho. Os croquis que são feitos por minha equipe são usados apenas para definir a sequência de looks e os esquemas de cada peça em cada desfile.

GUAIAÓ: Você poderia definir como é a mulher para quem você cria suas peças?
LENNY: Ela é uma mulher superativa, que ama a praia, mas que não gosta de ficar largada numa piscina ou num barco. É uma mulher que vai pra areia, mergulha, pratica algum esporte, depois se veste, pega o filho, a bicicleta e vai ao mercado. Ela tem uma vida corrida como a minha, e procura estar sempre impecável. O chapéu, a bolsa, as sandálias têm que ser bonitos para ela poder seguir em frente o seu dia, sem ficar perua! Atualmente, as pessoas não vão à praia com roupas sem estilo, elas se produzem e, muitas vezes, esticam a praia em um restaurante ou casa de amigos. Por isso, a coerência é fundamental em todas as linhas que desenvolvemos, formando o mix de produtos oferecidos em nossas lojas para complementar as peças de moda praia.

GUAIAÓ: Você acha que o seu estilo influencia o seu trabalho, ou é o contrário?
LENNY: Acho que não, eu separo bem os meus universos, até porque eu sempre fui muito clássica, não uso estampas, nem mesmo as minhas estampas, que é para não dar a impressão de que estou fazendo propaganda da minha marca, eu fico meio constrangida…

GUAIAÓ: Quando você vai à praia, aqui no Rio ou no Exterior, você observa as diferenças de estilo e o comportamento das mulheres para inspirar o seu trabalho?
LENNY: Ir à praia pra mim é para o lazer. É claro que, mesmo sem ter a intenção, quando vou à praia em outros países acabo fazendo alguma pesquisa sobre como as pessoas se vestem, quais são os tecidos preferidos etc. Mas é aqui no Rio o meu melhor laboratório, porque, ao observar a mulher carioca, percebo que ela é muito criativa, e aqui as pessoas têm uma vida urbana, vão à praia e de lá ao supermercado.

GUAIAÓ: Você se considera uma cidadã do mundo?
LENNY: Eu sou uma “cidadã da praia”! Eu amo o Brasil, adoro o Rio, eu moraria aqui mesmo, ou em Santos, ou talvez no Sul da Bahia. Nunca passou pela minha cabeça morar fora do Brasil. Eu só não tenho vontade de morar em uma cidade que não tenha o mar. Acho que o mar traz luz para as pessoas, que natureza é muito inspiradora. Inclusive, agradeço a Santos por ter sido minha inspiração e minha alegria para a vida toda!

Lenny Niemeyer - revista GUAIAÓ 04 - fotografia de Luciana Whitaker

O QUE NÃO PRECISARIA SER DITO

Segundo a ABEST (Associação Brasileira de Estilistas), a marca “Lenny Niemeyer” produz, além de biquínis, bolsas, sapatos, acessórios e uma coleção de roupas e malhas que já representam 30% do seu faturamento. Possui mais de 15 lojas em cidades brasileiras e pode ser encontrada em vários outros países, em lojas como Sacks Fifth Avenue, Le Printemps, Barney’s e muitas outras. Lenny Niemeyer formou-se em Artes Plásticas pela FAAP, e iniciou uma faculdade de Arquitetura, mas não pode concluir o curso. Ela tem outra paixão além do mundo da moda: as plantas e as flores. O gosto pela natureza está sempre presente em suas criações.

 

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