REVISTA GUAIAÓ
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[ Uma História ]

Paixão pelo Mar – Amor sobre as ondas

Por Soren Knudsen
Fotografias Marcos Piffer

 Foto de Marcos Piffer - Revista GUAIAÓ 04

“A sereia me chama, eu não resisto…
A sereia me chama, eu viajo por isso…”

Surfista solitário – Gabriel o Pensador

 

É verão. É praia. O sol junta as tribos na beira d’água. Barracas decididamente santistas, a moldura multicolorida no acesso à areia. Mesas de dominó, quadras após quadras de redes esticadas, campos de futebol riscados na areia dura, o cheiro de camarão frito e a cerveja gelada. Guarda-sóis cercam os carrinhos de praia, demarcando território, onde jovens relatam as suas conquistas. Uma canoa havaiana desliza no puxar do remo trocado ao comando de “hip hoe”.  Corpos trabalhados desfilam no delicioso ritual anual de praias do mundo inteiro. A energia vibra. Todos os olhares procuram seus amores de verão no brilhar do meio-dia. A Joinville ferve…

Todas as Tribos
A longa corrente de gente caminhando “pé-na-água” une a Ponta da Praia à Ilha Porchat. No meio, a preciosa pérola santista, a Ilha de Urubuqueçaba, enfeita o mar como um elegante pingente de um colar. Cada pedaço de praia é ocupado por tribos não mutuamente exclusivas, mas zelosas defensoras de seu espaço. Canoas havaianas, stand-ups, jet-skis, futevôlei, o santista tamboréu, bochas, futebol americano, frescobol, beach-tennis, kite-surf, o todo aglutinador futebol e, é claro, o surfe.

Essas tribos, cada qual com seus modismos e suas tendências, formam o grande mosaico que cresce com a chegada do verão e diminui quando os relógios eletrônicos da avenida da praia anunciam a chegada do outono. Exploram as modas, os penteados, as roupas, as melhores baladas, bebidas, músicas e uns aos outros, numa explosão retida de alegria, exuberância e vontade durante os longos dias de verão. Musas… Cada tribo tem a sua.

Foto de Marcos Piffer - Revista GUAIAÓ 04

As Musas
Quando Zezé Leone venceu o primeiro concurso de Miss Brasil, em 1922, ela nada mais fez do que reafirmar o que os santistas de todos os tempos já sabiam. Santos é terra de mulheres maravilhosas. Das piscinas olímpicas dos saudosos clubes de regatas, das academias de lendários personal trainers, do “pó-de-saibro” das quadras do Tênis, do murinho do Caiçara, da rampa do Clube XV e as “gringuinhas” dos Ingleses. Meninas-moças com sorrisos perfeitos invadem a praia e fazem dela o seu playground por três meses, mais seu lar do que a própria casa. É pura liberdade, como se a distante linha do horizonte também fosse o limite do possível.

Marta Rocha perdeu o título de Miss Universo de 1954 no seu impecável maiô preto, mas o Brasil ganhou fama mundial pelas “duas polegadas a mais nos quadris”. Dois anos depois, Brigitte Bardot não perdoou quando surgiu num bombástico biquíni adornado com babadinhos no filme “E Deus Criou a Mulher”. O maiô estava de saída e não tinha mais como segurar a vocação da mulher para o biquíni.

Do “engana-mamãe” à famosa tanga, a referência que colocou o Brasil no mapa, musas inesquecíveis, as Reginas, Marions, Roselis, Lydias, Lennys, Nisas, Cristinas, Jennifers, Cláudias, Sandras, Carlas e tantas outras esbanjavam saúde em todos os verões com modelos cada vez menores. O provocante enroladinho, o asa-delta, o de lacinho nas laterais e o charmoso sutiã cortininha. E aí a Monique Evans surgiu do mar com o impecável fio-dental “mata-papai”, até hoje o preferido entre as jovens.

Amigos na Paz
Foi nesse pedaço de céu que dois jovens combatentes, um de cada lado das trincheiras caíram após a Primeira Guerra Mundial. Quando a Europa acordou do pesadelo de lama, sangue e morte, Tom Simonsen e Victor Rainer decidiram tentar a sorte longe das lembranças que os assombravam. Conheceram-se durante os intermináveis “cessar-fogo”, onde feridos, sujos e cansados, soldados inimigos confraternizavam enquanto generais de fardas impecáveis negociavam o fim da carnificina. Sem que soubessem, ao virem para o Brasil, fariam parte de uma história única de pioneirismo que os colocaria junto à história dos watermen, os guerreiros do mar, de Santos.

Filho de pais ingleses, Tom nasceu no Guarujá em 1899, mas passou a juventude na Inglaterra. Ao voltar para Santos, ele foi acolhido como um filho pelas famílias do Santos Athletic Club – o Clube dos Ingleses – que o conheciam desde menino. Tom e Victor se enturmaram com os jovens que trabalhavam no café, na ferrovia, na navegação, no comércio, estaleiros navais e bancos de capital inglês.

Aos domingos, a praia do Gonzaga era o lugar mais procurado pelas famílias santistas para passar a tarde e para os jovens se encontrarem para namorar. O Hotel e Cassino Parque Balneário, com as suas cabines de madeira na praia para uso dos banhistas, ostentava luxo para a sociedade santista. Passear na praia e depois dar uma volta nos jardins do hotel era programa para qualquer casal de jovens apaixonados. Foi aqui, à beira-mar, que os dois amigos encontraram a merecida paz pela qual lutaram tanto. E também os amores de suas vidas.

 As Belas Irmãs
Thereza e Carmen Cochrane Suplicy eram duas dos oito filhos de Luiz Suplicy. Charmosas, esportistas, bem-educadas e de família estabelecida, eram musas de verão cobiçadas pelos jovens da sociedade santista. Suplicy estabelecera a corretora de café e algodão, Escritório Suplicy, em Santos, em 1879. A Rua XV de Novembro, sede dos escritórios de café, era tão movimentada quanto a Wall Street de Nova Iorque. O porto de Santos era onde as notícias, novidades e tendências desembarcavam do exterior para se expandir pelo Brasil.

Nos anos vinte, a elite do café começou a construir casas abertas e arejadas em estilo art nouveau, que ocupavam quarteirões inteiros irradiando da Praça da Independência. As modestas chácaras, que até então haviam servido de refúgio de verão, agora davam lugar aos suntuosos palácios de prazer nos quais se organizavam festas black-tie para a borbulhante sociedade que compunha Santos. Inglês, francês e alemão se misturavam ao ritmo do Charleston e do Jazz. Nesse meio, os jovens Tom e Victor conheceram Thereza e Carmen. Foi tiro e queda. Apaixonados, Tom casou-se com Thereza e Victor com a irmã Carmen.

Foto de Marcos Piffer - Revista GUAIAÓ 04

 Tom Blake
Enquanto Tom construía a vida junto à sua amada Thereza e Victor com Carmem, outro Tom, esse Blake, construía o que seria o futuro do surfe no lado oposto do planeta. Tom Blake – waterman extraordinário –, nadador olímpico americano, conheceu Duke Kahanamoku – o pai do surfe moderno  – em competições de natação. Impressionado pela destreza do havaiano, acompanhou-o para o Havaí, onde começou a surfar.

Enquanto no Havaí, estudou, reformou e aperfeiçoou as pranchas dos antigos havaianos, replicando e melhorando os designs e, assim, se tornando o primeiro designer de pranchas da era moderna do surfe. Inventou a prancha de windsurfe, desenvolveu muitas das técnicas e equipamento de salvamento no mar que os salva-vidas usam até hoje e escreveu o primeiro livro sobre o surfe – Hawaiian Surfboard.

Blake construiu a primeira máquina fotográfica à prova d’água para uso no surfe. Com as suas fotografias inéditas, começou a divulgar o esporte por meio de artigos que apareceram na National Geographic e no Los Angeles Times e, em 1931, passou a fabricar as suas pranchas patenteadas “Tom Blake Approved”.

Duke e Blake fizeram com que o esporte se espalhasse pelo mundo. Duke como o eterno embaixador do surfe e Blake como o inovador técnico. É Blake quem define tudo que conhecemos da vida de surfista, pelo seu estilo, seus designs de pranchas, sua maneira de vestir e de surfar.


 Os Surfistas
Para acompanhar esse interesse pelas paradisíacas ilhas dos Mares do Sul e seus destemidos watermen, revistas como a Popular Science, Modern Mechanix and Inventions e Popular Mechanics publicaram os famosos artigos DIY – do it yourself. Neles, explicavam em detalhes como se construía a prancha de Blake e, com isso, praias no mundo inteiro viraram espelho do estilo de vida dos beach-boys de Waikiki. Não demorou muito para que os filhos do café de Santos também tivessem acesso aos planos de Blake por meio das revistas que os seus pais traziam dos Estados Unidos quando viajavam a negócios.

A primeira tribo de surfistas em Santos e no Brasil foi composta pelos amigos Thomas e Margot Ritscher, Osmar Gonçalves, Sylvio Malzoni e Jua Hafers.  Jua era sobrinho de Tom Simonsen. Sua mãe Helena era irmã de Thereza Suplicy Simonsen. O seu tio Tom, que cultivava a marcenaria como hobby, mantinha uma carpintaria completa nos fundos de sua confortável casa na Ana Costa para satisfazer os mais minuciosos detalhes de suas criações. E foi lá, durante os finais de semana, que a turma se instalou junto ao tio Tom e seu amigo Júlio Pulz para adequar a prancha de Blake para o mar de Santos. Como Blake, acrescentaram quilhas e adaptaram as dimensões e shapes para seus gostos e estilos.

Com essas pranchas, os jovens pioneiros, esses primeiros watermen Thomas, Osmar, Jua e a primeira waterwoman Margot, iniciaram a história do surfe no Brasil, “andando sobre as ondas” nas tranquilas águas da praia do Gonzaga. Nos descontraídos verões, surfaram juntos por vários anos, até que a vida os levou a direções diferentes. Mesmo afastados um do outro, nunca perderam a amizade construída no mar e nunca ficaram longe da água.

Foto de Marcos Piffer - Revista GUAIAÓ 04 

De Alma
Tarde de terça-feira. Horário de verão. O sol já terminando o seu expediente. Com a prancha debaixo do braço, atravesso a avenida da praia, lotada de ônibus, carros e motos que fazem malabarismo entre o trânsito apertado. Na ciclovia, garotas de piercings, rebeldes, testam o limite da sua liberdade nos seus skates estilo long. O relógio digital na avenida marca 29 graus e 18h30 horas. Peço proteção à Iemanjá, entro no mar e remo em direção ao Posto 2.

Mesmo antes de chegar, acompanho as linhas fluídas desenhadas por um dos mestres da arte do pranchão. Me encaixo no “pico” para esperar a primeira onda. Logo, um dos maiores legados dos watermen santistas se junta a mim, Cisco Araña, surfista de alma. É ele quem me conta a história dos “pioneiros”.

Cisco é filho de ilhéu e nascido ilhéu. Tem água do mar nas veias. Vem de uma longa linha de surfistas da Rua Maranhão, liderada pela família Hirano, tradicionais pioneiros e mestres do judô. Para satisfazer a vontade dos filhos Cisco e Tato, sua mãe Dona Iris comprou uma prancha de Jo Hirano. Sob a tutela do seu primo Fausto Osny, Cisco entrou no mar do Canal 1 em 1968 e não saiu dele até hoje.

Uma vez batizado com a água salgada, nunca mais parou de surfar. Participou dos surf-safaris pelo nosso Litoral Norte quando ainda era de difícil acesso e antes que a Rio-Santos o mudasse para sempre. “Era uma aventura mesmo” sorri. “Quem não pegou a serrinha de Boiçucanga em dia de chuva não sabe. Era estrada de terra e praia para chegar até Maresias”. Surfou no Havaí, Peru, França, Califórnia e desfrutou das longas ondas do point break de Aguineguim, num retorno triunfal para terra natal de seu pai, o Sr. Francisco, nas Ilhas Canárias.

Mas foi em Santos que realizou o sonho de muitas pessoas quando assumiu a coordenação da primeira escola de surfe pública do Brasil – a Escola Radical de Surfe de Santos. “Tenho muito orgulho pelo que a escola representa e pelo que faz há vinte anos para as pessoas com necessidades especiais”. Cisco também foi um dos responsáveis por introduzir a disciplina surfe em universidades no Brasil e desenvolveu a primeira prancha de surfe para cegos do mundo. “Aprendi o surfe com grandes mestres e tento passar os seus ensinamentos para aqueles que me rodeiam”. Como Tom Blake, Cisco vive no mar e vive do mar.

“Foi aqui, na praia em frente à Rua Maranhão que, muitos anos mais tarde, eu conheci a minha esposa Paula. Para mim, a vida recomeçou. Por ela, recebi o melhor presente da minha vida, a minha filha Nicole. Realmente, tenho sorte de estar perto daquilo que mais amo. A minha família, o mar e o surfe. O surfe é, sem dúvida, a melhor forma de expressar o amor que existe em mim. Através dele, tento levar a vida e é por ele que imagino um mundo melhor para a Nicole”.

Os refletores da praia acendem e os surfistas começam a sair da água. Escolhemos uma série para servir de saideira. Já na areia, olho para o mesmo mar que Thomas, Margot, Osmar e Jua desbravaram há tantos anos atrás naquelas calmas tardes de verão. Os casarões alegres já se foram, como também as cabines de banhistas. Em 1976, o mítico Parque Balneário foi derrubado. Muitos consideram isso como o marco do fim da era de luxo da praia do Gonzaga.

Mas, para os watermen de Santos, a história do mar não tem fim. O legado daquela primeira tribo de Osmar é testemunhado pelas canoas na Ponta da Praia nos fins de tarde de sábado, pelas dezenas de stand-ups explorando as entradas do costão rochoso além da Ilha das Palmas, pelas centenas de surfistas aproveitando ondas no horário de verão e pelos kite-surfers correndo frente ao vento em dias de ressaca. Somente existem novos capítulos a serem escritos.

Acompanho o Cisco em direção à Escola Radical. Aos últimos raios de sol a garota, pranchinha debaixo do braço, caminha em direção ao canal 1, e lança um olhar caprichoso. Ali, frente ao mar, encostado no seu pranchão, Osmar Gonçalves nos espera com um sorriso satisfeito. Ao Cisco pergunto como descreveria o surfe. Ele, que se criou e que, junto com a sua querida Paula, também cria a sua filha Nicole sobre as ondas, olha para o espetáculo que se desdobra ao nosso redor. Profundo conhecedor do mar e waterman nato, aperta os olhos e sem pensar abre um sorriso: “Paixão!!!”.        

Foto de Marcos Piffer - Revista GUAIAÓ 04

 Let’s go surfing now,
Everyone is learning how,
Come on a safari with me.
Surfing Safari, Surfing Safari… with me.

Surfing Safari – The Beach Boys

 

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