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“Pet Sounds”, um dos maiores de todos os discos.

Por Julinho Bittencourt
Fotografia Marcos Piffer

Foto de Marcos Piffer

 

Muito mais do que sobre discos, este assunto talvez seja sobre amadurecimento e competição. A coisa toda se deu na década de 60, alguns anos antes do propalado verão do amor, em 1968. Duas das mais influentes bandas de então e, sobretudo, dois dos seus líderes, ao contrário do que todos supunham, faziam seus discos um de olho no outro. Paul McCartney e os seus ingleses Beatles acabavam de lançar o instigante “Rubber Soul”. O americano Brian Wilson, inconformado de ser passado para trás, junto com os seus Beach Boys, da ensolarada Califórnia, se puseram a trabalhar na contrapartida, o inesquecível, lindo e inusitado “Pet Sounds”.

Até hoje, quarenta e tantos anos depois, “Pet Sounds” ganha versões e mais versões, remasterizações, making offs, citações, prêmios de melhor álbum da década, do século, do milênio e, como se não bastasse, ainda provocou um inconformado Paul McCartney a gravar o outro antológico “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”. No final das contas, a saudável competição entre os dois garotos, quase adultos, rendeu uma longa amizade que dura até hoje e, principalmente, alguns dos discos mais lindos e divertidos da história da música pop.

O ponto de partida de toda a história foi Wilson ter percebido em “Rubber Soul” o que viria a ser quase mania no mercado de discos de então, a gravação conceitual: “Eu realmente não estava completamente pronto para a unidade. Parecia que todas (as músicas) eram juntas. ‘Rubber Soul’ era uma coleção de canções que de alguma forma eram juntas como nenhum álbum já feito antes, e fiquei muito impressionado. Eu disse, ‘É isso’. Eu realmente fui desafiado a fazer um grande álbum”, lembra o compositor.

Os Beach Boys haviam saído em turnê enquanto Brian permaneceu no estúdio, compondo e fazendo arranjos. Contratou, para fazer as letras, um publicitário chamado Tony Asher e, para tocar as complicadas partes escritas por ele, chamou músicos de primeira linha, como, por exemplo, o grande guitarrista de jazz Barney Kessel. Quando o grupo voltou, encontrou uma inusitada pasmaceira sonora, completamente diferente de tudo o que haviam feito antes. Experiências com outros instrumentos típicos de orquestra, somados aos tradicionais de uma banda de rock e ainda efeitos sonoros e novidades típicas da época, como o Teremim. Brian estava encantado com a sobreposição de sons, o “Wall of Sounds”, do lendário produtor Phil Spector. Ele chegou a confessar que nomeou o disco com as iniciais de Phil.

O resultado foi uma chiadeira sem precedentes dos outros componentes da banda. Aquilo jamais daria certo, era muito diferente da música ensolarada que faziam desde sempre e que era sucesso absoluto, tanto nos EUA quanto no resto do mundo. Apesar de estar, de fato, a léguas de distância de coisas como “Surfin in USA”, “All Summer Long” ou “Little Deuce Coupe”, o álbum “Pet Sounds” conseguiu a proeza de ser, ao mesmo tempo, extremamente sofisticado e ainda resguardar a alegria e as cores da surf music dos Beach Boys que havia encantado o mundo até então.

O fato foi que, noves fora, todos tinham razão. “Pet Sounds” nunca foi um campeão de vendas, mas é um dos mais prestigiados discos da música pop. O produtor dos Beatles, George Martin, disse que “Sgt. Pepper’s” não existiria sem ele; Elton John e Eric Clapton colocam o disco nas alturas e, por fim, o próprio McCartney diz que a canção “God Only Knows”, que está no álbum, é a mais linda jamais escrita.

Mas “Pet Sounds” não se limita a “God Only Knows”. É o tributo de um gênio, seu canto do cisne. Várias das suas canções, como “Wouldn’t it Be Nice”, “Sloop John B”, “Caroline No”, “I Know There’s and an Answer” se tornaram clássicos e até hoje são usadas em trilhas de filmes e programas de TV, citadas e regravadas por artistas de todas as partes e matizes. Como toda obra-prima, precisou de muitos anos para ser devidamente digerida e só conseguiu disco de ouro e platina em 2000, além de render vários subprodutos, caixas com as diversas versões em mono, estéreo, sobras e ensaios etc.

Logo após a longa e exaustiva gravação de “Pet Sounds”, em 1967, enquanto tentava concluir o álbum “Smiley Smile”, Brian Wilson se afastou de tudo por motivos de saúde. Por conta de uma profunda crise de esquizofrenia, ficou vários anos de cama. Entre o final da década de 80 e o começo dos anos 90, voltou a gravar e até hoje faz discos lindos.

Mas nunca mais, nem ele, nem McCartney e nem ninguém fizeram nada parecido com “Pet Sounds” ou Sgt. Pepper’s”.

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