REVISTA GUAIAÓ
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A FABRICAÇÃO DA MENTE


Por Fernanda Pires

Fotografias de Marcos Piffer 

 

 Histórias de um mineiro muito caiçara

Edson Amâncio_GUAIAÓ 02_entrevista_foto Marcos Piffer

Batiam precisas 22 horas quando Edson Amâncio chegou em Zurique. Era domingo e só começaria o estágio no hospital no dia seguinte, às matutinas 7 horas. Como o professor do curso talvez fosse exigente, decidiu-se pela prudência. Fez o caminho antes para evitar se atrasar na hora H. O problema é que só teria hospedagem no alojamento do hospital a partir de segunda-feira. De modo que – anteviu – teria pela frente a gelada e silenciosa madrugada suíça como companheira. Ao espreitar a entrada do hospital, foi abordado pelo porteiro. Afinal, lembra, o que poderia querer alguém às 10 da noite de um domingo em Zurique, sem vivalma nas ruas? Convinha manter ceticismo na terra que popularizou a medida do tempo – o relógio.
“O que o sr. deseja?”, perguntou o porteiro a Edson, então um jovem médico formado há seis anos que sequer imaginava ser um dia acometido pela calvície. O mineiro de Sacramento limitou-se a explicar que começaria um estágio quando o dia raiasse e estava ali para reconhecer o local. “Ele perguntou meu nome, foi lá dentro e voltou com as chaves do meu quarto. Fiquei empolgado e assustado”, rememora.

Passados 20 dias do episódio, Edson recebeu uma carta do amigo Irineu Sanches, médico que se tornou sua grande referência humana. Sem mais nem menos, pedia que o pupilo anotasse exatamente a hora em que havia chegado em Zurique. “Eu não precisava anotar nada. Nunca esqueceria o horário. Eram 10 da noite de um domingo. Fui ao hospital e um sujeito entregou a chave do meu quarto”.

Tempos depois, já de volta ao Brasil, Irineu comentou: “Lembra que te pedi para anotar a hora que chegou à Suíça?”.

-Sim.

Irineu pegou um pedaço de papel, fez as conversões de fuso horário e disse: “Você chegou às 22 horas. O Tibiriçá falou para mim: ‘Ele acabou de chegar. Está tudo resolvido’, lembra, referindo-se ao fato de que Tibiriçá soube quando o jovem médico estava, finalmente, instalado no alojamento do hospital.

Tibiriçá é a entidade indígena que acompanhava Irineu, figura que conseguia ser a um só tempo comunista, espírita e médico, no que constituía uma aparente contradição. A essa altura, o cético Edson já estava familiarizado com o expediente transcendental de Irineu. “Ele não tinha patologia alguma”, estava convencido.

Edson evoca o caso ao ser questionado sobre o que considera ser a grande fronteira da neurociência. Não se trata, em hipótese nenhuma, de apelar para o além. Mas, antes, de admitir que também o imaterial pode ser científico. Atualmente ele ensaia começar a escrever um livro a quatro mãos com Ulisses Capozzoli, editor da revista Scientific American Brasil, que dê uma abordagem não materialista à mente. “É muito complicado. Eu já li uns 20 livros e não cheguei a lugar algum. Não tem como provar que o cérebro produz a mente. Como um monte de neurônios, que conectam com acetilcolina e noradrenalina, produz um Dostoiévski, um Tchaikovsky?”, indaga. O que nos remete à pergunta que ensejou o relato de Zurique.

Edson Amâncio_GUAIAÓ 02_entrevista_foto Marcos Piffer

Guaiaó – Levando em consideração que não há como provar que um conjunto de reações físico-químicas fabrica a mente, isso impõe uma questão metafísica?

Edson Amâncio – Completamente. Eu procuro ficar com o pé fincado no chão. Não quero abrir mão disso. Mas se eu não expandir um pouco, não saio do lugar-comum. Porque a ciência não consegue chegar lá. Os neurocientistas mais agressivos falam que a coisa está no nível quântico, mas a própria física clássica questiona muito a questão quântica. O quântico é o micro do micro, é o menor do menor.

Guaiaó – Uma das coisas que saltam aos olhos no seu livro “O Homem que Fazia Chover” é que, diferentemente da família do paciente, você acredita quando ele diz conseguir parar a onda com o pensamento. É necessário acreditar porque não é possível provar o contrário, não é?

Edson – Eu acho que consigo esse grau de intimidade com o paciente porque, de verdade, estou acreditando.

Edson Amâncio_GUAIAÓ 02_entrevista_foto Marcos Piffer

Missia querida

 Edson Amâncio nasceu em 1948, na cidade de Sacramento, onde “tudo passa perto, mas nada chega lá”. Fica próxima, por exemplo, de Uberaba, para onde a família mudou-se depois da morte do pai. De origem humilde, sempre soube que faria medicina. Só não tinha ideia como. A mãe ficou viúva quando Edson tinha 10 anos. Ele é o filho mais velho de três. Trabalhou em uma farmácia, depois como datilógrafo. Estudava à noite no pior colégio da cidade. Foi o único na história da escola a passar no vestibular de uma federal. Entrou em medicina na Universidade Federal do Triângulo Mineiro.

Antes, porém, tivera frustrado o sonho de estudar na Rússia, na Universidade Patrice Lumumba. Também chamada de Universidade Amizade dos Povos, a instituição selecionava jovens dos então chamados países do terceiro mundo e os levava para estudar em Moscou. Ouviu na rádio um tal de Irineu Sanches comentando a oportunidade. Edson gravou o nome do médico e enviou uma carta só com o nome e a cidade, São José do Rio Preto. O médico era um ilustre conhecido na terra que tempos depois catapultaria Amaury Jr. ao colunismo social. E a carta chegou ao destino.


Guaiaó – E a resposta?

Edson – Foi um jorro de água fria. Ele falou “você não pode fazer isso porque sua mãe é viúva e você é o mais velho. Você vai embora e aí? Segundo, se você for realmente estudar medicina na Rússia, a probabilidade de você voltar para o Brasil e exercer aqui é zero. A Rússia é um país comunista. Estamos diante de uma revolução militarista, de direita”. Eu baixei a bola, entendi o recado, e continuei estudando. E passei a corresponder com ele sem nunca conhecê-lo. Ele me mandava livros para estudar. Prestei vestibular e só quando estava no segundo ano apareceu uma carona para Rio Preto. Fui sem avisar. Ali começou uma amizade que durou até a morte dele, há uns 10 anos. Era uma pessoa admirável, boa, honesta, fantástica. Todas as férias eu passava em Rio Preto na casa dele. Lia tudo o que podia na biblioteca dele.

 

Guaiaó – E como se dá sua vinda para Santos?

Edson - Quando me formei, havia um grupo instalado na Santa Casa que estava precisando de residente e eu fui chamado. Fiquei um mês em Santos. A Santa Casa, naquela altura, era um caos total e eu não me senti nada seguro. Tinha prestado concurso em Campinas e Ribeirão Preto e tinha passado nos dois, mas eu tinha optado por Santos porque achei mais prático, havia pessoas conhecidas e achei que poderia começar a vida aqui. Mas para minha surpresa e decepção, um mês depois eu estava mudando. Corri para Campinas. Quando acabei a residência, aquele mesmo grupo que tinha me atraído para Santos estava em uma situação um pouco melhor e me propôs entrar já como membro da equipe. Então eu vim começar a vida aqui. Aí houve outros desdobramentos. Meu casamento se desfez, eu conheci a minha mulher atual, a Mara, e toquei a vida aqui. Mas aí teve outro desenlace que foi não conseguir utilizar a tecnologia nova que eu queria aprimorar de cirurgia de hipófise. Na França, aprendi uma técnica por meio da qual se opera o crânio sem abrir a cabeça, pelo nariz. O professor francês Gerard Guiot criou essa metodologia de abordar pela boca, por meio de uma incisão debaixo dos lábios. É possível fazer rapidamente uma cirurgia de 45 minutos, com pós-operatório tranquilo.


Guaiaó – O médico é, por excelência, um sujeito mais frio?

Edson – Não acho não. Acho que existe um autocontrole que você já tem e aprimora ao longo do curso. Pelo contrário. Por exemplo, eu nunca fui a um velório de um paciente meu. Eu não consigo. Tenho medo de dar vexame, de chorar, de me emocionar, essas coisas. Então às vezes tive problema, porque tive uma relação tão próxima, durante tanto tempo, o paciente de repente morre e eu não consigo. Essa frieza não é uma coisa que corresponda à realidade.

 

Guaiaó – Então essa história de assepsia médica não existe com você.

Edson – Pelo contrário, meu envolvimento com o paciente é absolutamente total. Não existe assepsia alguma. Eu acho que isso é um erro, inclusive. O meu contato com o paciente é físico, total, de abraçar, grudar, pegar, isso é uma característica minha. Não é uma coisa estudada, é espontânea. Num certo aspecto eu me coloco um pouco do lado de lá, eu gostaria de ser atendido assim. Dei aula na faculdade de medicina durante 19 anos e dizia para os alunos “vocês não se iludam, o paciente sabe se você está envolvido com ele ou não”. O doente sabe se você está interessado em resolver o problema dele ou se está ali cumprindo horário, apenas faturando ou querendo ir embora. Eu disse isso como um clichê durante 19 anos. Não tem coisa mais cara do que a saúde, né? Quando você procura alguém e coloca sua saúde, sua vida na mão do outro, você tem de ter essa consciência.

 

Alma roubada

A criação literária Edson não sabe dizer exatamente como começou. Mas foi como leitor, está certo. Ele se auto-intitula um leitor voraz. “Voraz é uma expressão pobre até. Fui fanático desde criança”. A casa da família em Minas Gerais não tinha tradição de literatura. Os pais são descendentes da zona rural e o primeiro livro que entrou no lar dos Amâncio foi Edson quem levou.

Edson Amâncio_GUAIAÓ 02_entrevista_foto Marcos Piffer

Guaiaó – Qual foi?

Edson – Não lembro qual foi. Fui autodidata em literatura, mas tive uma sorte enorme. Eu não devia ter 16 anos quando entrei na biblioteca do Sesi em Uberaba e peguei o “Recordação da Casa dos Mortos”, um dos primeiros livros que caíram na minha mão. A minha vida ficou completamente diferente, eu nunca mais fui a mesma pessoa. Não foi o primeiro livro que eu li, mas foi o primeiro que me atracou de um jeito que eu nunca mais me libertei do Dostoiévski. Entrei na faculdade de medicina com 19 anos já um leitor contumaz, já tinha lido Machado de Assis, José de Alencar. Mas como o curso de medicina era integral, refreei um pouco a leitura. No quarto ano, na aula de neurologia, eu venho de novo com Dostoiévski na minha cabeça, quando, então, tomo conhecimento de que ele tinha essa forma rara de epilepsia. Eu fiquei muito atracado a essa coisa da epilepsia do Dostoiévski porque a epilepsia dele é uma coisa muito extraordinária. O sujeito tem prazer na aura (os minutos que antecedem a crise). Ele diz que daria a vida por aquele instante. Isso me chamou a atenção de um jeito que eu nunca me libertei. Acho até que a escolha da minha especialidade vem em função disso. Engraçado. Ao contrário do que até hoje a gente vê, que as pessoas têm preconceito ou se sentem excluídas por causa da doença, Dostoiévski nunca sentiu isso. Ele falava abertamente que tinha a doença. Teve cerca de 400 crises convulsivas ao longo da vida. Quando eu tinha um minuto, mergulhava de novo nos livros dele. A coisa tomou um vulto tão grande que eu acho que o Dostoiévski acabou passando na minha vida como uma sombra permanente.

 

Guaiaó – Qual seu livro preferido dele?

Edson – “O Idiota”.

 

Guaiaó – “Crime e Castigo” me parece uma obra total. Só que o fim decepciona um pouco. Arrancaria as duas últimas páginas.

Esdon – É verdade. A Sibéria fez isso com Dostoiévski. Acho que ali ele teve uma conversão. No começo não se pode dizer isso porque ele foi condenado por ser socialista. Aos 23 anos ele era um proto-socialista. Da Sibéria ele volta cristão total. A ponto de decepcionar. Todo mundo esperava que ele voltasse um grande revolucionário. Tanto é que no “Idiota” tem uma coisa muito curiosa. É a descrição que ele faz do quadro que aparece na parede no quarto de Rogójin, o assassino de Nastássia. É um quadro da figura do Cristo completamente destituída de qualquer divindade. É um judeu morto. Eu tenho esse quadro na minha casa em São Paulo. Não tenho coragem de colocá-lo na sala, coloquei no corredor. Quando Dostoiévski viu esse quadro ele ficou profundamente emocionado. É um Cristo descido da cruz, um cadáver com as faces arroxeadas, os pés meio necrosados, nada a ver com essa iconografia ocidental que a gente conhece do Cristo. Quando ele viu esse quadro, teve uma coisa que inclusive gerou um artigo meu e está na imprensa internacional. Ele teve um mal- estar. E disse a célebre frase: “Diante de um quadro desse um homem pode perder a fé”.

 

Guaiaó – Como se dá sua produção literária?

Edson – Eu gosto muito de ficção, tenho essa ambivalência, porque gosto muito de neurociência também. Depois de “O Homem que Fazia Chover”, de 2006, dei um tempo. Mas publico muito nas revistas Scientific American Brasil e Mente e Cérebro. Agora, meu primeiro texto literário foi publicado quando eu ainda era estudante de medicina, foi numa revista que existia no Rio chamada Ficção. O conto chamava-se “O professor”. Era uma alusão ao professor que eu tive no segundo ano da faculdade, uma figura emblemática que todo mundo conhecia. Quando esse texto saiu todo mundo reconheceu.

Atualmente, Edson está de mudança para São Paulo. Manterá o consultório em Santos, onde continuará atendendo alguns dias da semana. Mas, dada a demanda de seu consultório na capital e o que considera como sucateadas condições dos hospitais em Santos, decidiu-se por fixar base por lá. Contribuiu para o aumento da procura em São Paulo uma entrevista que deu ao programa do Jô Soares, na Globo, para divulgar o livro “O Homem que Fazia Chover”, editado pela Barcarolla. O tanto de “deputado e pessoal do Nordeste” que foi se consultar com ele por conta da entrevista não está escrito, diz.

 

O que não precisa ser dito

Além de graduado pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro, Edson tem mestrado e doutorado em Neurocirurgia pela Universidade Federal de São Paulo. Entre os livros de ficção, escreveu “Minha Cara Impune”, ”Em pleno delito”, “Pergunte ao mineiro” e “Memórias de um quase suicida”; e o livro de divulgação científica “O Homem Que Fazia Chover e outras histórias inventadas pela mente”, Ed. Barcarolla, e lança em 2012 o romance “Diário De Um Médico Louco”, pela editora Letra Selvagem.

 

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