REVISTA GUAIAÓ
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ANTIGO PORTO DOS ESCRAVOS, PONTA DA PRAIA, SANTOS

Por Soren Knudsen
Fotografias Marcos Piffer

02 de fevereiro de  2012;
Lat 23° 59’ 30” S  Long 46° 18’ 21” O

Mãe de todas as cabeças; Nossa Senhora dos Navegantes; Janaína do mar. Passos lentos para trás, perfume na água, saindo do mar sem dar as costas para Iemanjá.  Mãe branca, alcunha do povo negro. Memória viva dos Iorubás. Rio dos Peixes, distante da África, perto no dia-a-dia representando a herança nas Américas.

Na cultura, na alegria, na comida, na fala, na dicção, na música, na umbigada. Na sacanagem. No sexo, no corpo moreno, a mulata com cabelo de índia, a loira com samba no pé. Bateria de escola de samba sobre a música eletrônica no casamento de judeu com libanesa ortodoxa.

Os Reis de Angola, Ekedis, Iyaiyá e Iyaiyos, ecos distantes e profundos da raiz na África e da alma no Brasil. O sagrado e o profano. A vida e a morte. Batom, a pomba gira, o charuto, gaiola com fitas na entrada da mata, cabeça de bode sacríficio, cantigas, rezas. Família. União.  Respeito. O antigo comprovado. Nos olhos da menina do sorriso largo a sabedoria dos milênios.

O batuque que fala conosco das terras do Rio Ogun. A procissão, mãe-de-santo incorporada, o grito e a volta. O sol desce, as cores vibram, oferendas, velas e rosas no mar. Mãe cujos filhos são peixes. A tia da menina dos olhos de ébano sussurra: “Íyá mí nsé owó pélé-pélé nínu omi” - Minha mãe está erguendo as mãos, suavemente, dentro das águas.

Iemanjá_GUAIAÓ 03_Marcos PIfferIemanjá_GUAIAÓ 03_Marcos PIffer

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