REVISTA GUAIAÓ
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NAVEGANTES DO VENTO

Por Soren Knudsen
Fotografias atuais Marcos Piffer

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A Saga dos Santistas do SS Windhuk

Deslizando silenciosamente com a maré a favor, o imponente navio, com suas inesquecíveis chaminés duplas, se prepara para fazer a primeira manobra já dentro do estuário no canal de navegação de Santos. Passando o Forte da Barra Grande a seu boreste, o prático pede redução de potência para um quarto. Com isso, o MS Santos Maru deixa para trás os perigos que o perseguiram há semanas em alto-mar. Na casa de máquinas, o alívio. Seus seis turbinados motores a vapor finalmente se aquietam. Esses colossos, únicos no mundo, permitiam ao engenheiro Gustav Heuck uma velocidade de 18 nós e, a mando do capitão Wilhelm Brauer, Heuck os manteve na potência máxima nessas últimas 72 horas, arriscando o último combustível como se o próprio capeta o estivesse perseguindo.

E não por acaso, estava. Uma veloz fragata britânica quase o alcançou na entrada da baía de Santos. Pela luneta do posto da praticagem no alto do Monte Serrat, os atalaiadores de plantão Gerson da Costa Fonseca e Mario de Azevedo acompanhavam o casco cinza do cruzador, provavelmente o HMS Achilles, riscando uma grande circunferência branca na água azul ao dar meia-volta para se juntar ao bloqueio que a esquadra britânica do Force G, sob o comando do almirante inglês Henry Harwood, mantinha no Atlântico Sul.

Há três dias, o capitão inglês tentava interceptar o capitão Brauer antes que chegasse a um porto seguro no Brasil. Mas na entrada da baía de Santos, em plena vista do cobiçado prêmio e ao alcance dos seus canhões, teve que reconhecer a derrota. O mais moderno navio do mundo na época, o alemão SS Windhuk, disfarçado de MS Santos Maru, da armadora japonesa Osaka Shosen Kaisha Line, simplesmente era rápido demais. Da estação de rádio do Windhuk, o 1° oficial transmissor John Lüers escutaria o telegrafista inglês relatando amargamente a perda à nau capitânia HMS Ajax ao passar a Ponta do Itaipu. No canal do estuário, a bandeira japonesa, que até então figurava na popa do Windhuk, é rapidamente substituída pelo pavilhão alemão, o Hakenkruez.

Quando, naquela manhã de quinta-feira, dia sete de dezembro de 1939, o prático-mor Antônio Reis Castanho Filho pulou da escada “quebra-peito” para bordo e só viu loiros de olhos azuis saudando-o em inglês, sabia que faria parte de uma história única. Na ponte, o capitão Brauer e seu primeiro-oficial Reinhold Polh o esperavam. Foi só então que entendeu o porquê do disfarce. Existia uma situação de guerra declarada entre a Alemanha e a Inglaterra desde que as forças de Hitler invadiram a Polônia na manhã de 1° de setembro de 1939 numa épica batalha, onde a heróica cavalaria polonesa foi destroçada pelos modernos tanques nazistas, o que mudou para sempre a hegemonia territorial do país e a história do mundo.


O Engodo

O Windhuk e seu irmão, o Pretoria, os orgulhos da Woermann-Line Deutsche Afrikalinie, sediada em Hamburgo, figuravam como os navios mais luxuosos, modernos e velozes da época. Mediam 176 metros de comprimento, deslocavam 16.622 toneladas, tinham a impressionante velocidade de 18 nós (33,3 km/h), capacidade para 540 passageiros em três classes e uma tripulação de 250 pessoas. Eram puro luxo. Suas máquinas, identicas aos dos cruzadores de bolso da marinha alemã, eram cobiçadas e os navios passaram a ser caçados pelos mares.

Os ingleses mantinham uma esquadra patrulhando os dois lados do Atlântico Sul para neutralizar qualquer ação alemã na área. O Windhuk se refugiou em Lobito, Angola, por dois meses, esperando a chance de furar o bloqueio britânico. No início de novembro, Brauer e o capitão Otto Burfeind do SS Adolf Woermann, também da Deutsche Afrikalinie, decidiram zarpar em direção à costa sul-americana para evitar que os navios caíssem nas mãos dos ingleses acostados no porto. O Adolf Woermann, mais lento do que o Windhuk, foi afundado pela própria tripulação no dia 22 de novembro perto da ilha de Santa Helena, em plena vista do navio de guerra inglês HMS Neptune, que o perseguia e que resgatou seus 163 tripulantes. O capitão Brauer tinha mais máquina à sua disposição e até então conseguira evitar os ingleses enquanto atravessava o Atlântico Sul.

Para aumentar a sua chance de chegar à costa sul-americana, Brauer decidiu disfarçar o navio com as cores dos navios da OSK South American and African Line. Escolheu o Santos Maru pelas suas características físicas, embora o “avatar”  japonês fosse 11 anos mais velho e somente tivesse uma chaminé. A rota do Santos Maru, que incluía Buenos Aires, Santos e Rio de Janeiro, coincidia com a rota de fuga do Windhuk.

Com as ordens de que quem caísse no mar não seria recolhido, dezenas de marinheiros se penduraram nos lados do navio em cordas e pintaram o casco de preto, cobrindo o tradicional cinza, enquanto o navio seguia o seu caminho. Pintaram o casco, a estrutura, as chaminés e até uma bandeira japonesa na piscina. Os chineses que trabalhavam na lavanderia costuraram uma bandeira japonesa, que foi hasteada na popa. Para completar o disfarce, o chefe de transmissão John Lüers, poliglota, transmitia suas coordenadas fictícias em japonês para despistar os caçadores que os procuravam.

Santos representava o porto seguro que o Capitão Brauer procurava para o seu navio. O Brasil de Getúlio Vargas, reconhecidamente simpatizante do Eixo em 1939, garantiria que o navio estaria salvo até que pudesse voltar para a Alemanha. Havia 244 tripulantes a bordo e para eles a fuga havia terminado num paraíso nos trópicos.

No convés superior, a apreensiva Hildegard Lange busca a mão de seu noivo August Braak e, sem que o soubessem, os dois olham o país que seria deles daquele momento em diante. A jovial professorinha de jardim-de-infância e o elegante comissário do navio, vinte anos mais velho, apaixonados, já planejavam o casamento assim que voltassem para Hamburgo. Começava então a primeira página de um futuro inesperado. Do salão da primeira classe, o garçom Karl-Heinz Misfeld, quando o navio dobrava o curvão do Paquetá, talvez se perguntasse como seria viver nesse lugar tão diferente da sua pátria. Não tinha como saber, mas 70 anos depois Heinz, como era chamado pelos colegas, ainda seria conhecido em Santos pela hospitalidade do bar que viria a abrir. O jovem carpinteiro Heinz Lange, debruçado no parapeito, observa as lanchas dos pescadores que seguiam para o mar pela longa linha de armazéns de cor ocre da Companhia de Docas de Santos. Um dos tripulantes mais jovens, não podia saber que iria tentar escapar destas terras seguidas vezes, mas que por fim contribuiria para a sua construção.

Na altura dos silos do Moinho Santista, em frente do Armazém 8, as pesadas âncoras correram ao encontro da água. Ao se agarrarem ao lodo no fundo do lagamar, elas também fixaram a vida das 244 pessoas em solo brasileiro.

Longa Espera

O capitão Brauer tinha a intenção de aguardar pelo momento certo para furar o bloqueio e retornar para o seu país. Isso mudou quando o Brasil acatou o pedido dos países Aliados e deteve o navio no porto sob a responsabilidade da estatal Companhia de Navegação Lloyd Brasileiro. A ordem que vinha de Hamburgo era para que o capitão Brauer e a sua tripulação permanecessem nos seus postos com uma rotina de trabalho normal. Enquanto impedidos de deixar o porto, o governo alemão bancaria os custos e salários. Todos tiveram seus documentos confiscados, foram registrados no consulado alemão e seus salários passaram a ser pagos no escritório da Theodor Wille e Cia., tradicional exportadora santista de origem alemã. O Windhuk passou a ser um grande navio-casa para a tripulação. Faziam as suas tarefas e, em turnos, podiam desfrutar a hospitalidade da cidade que os acolheu. Paulatinamente, os tripulantes passaram a viver em pensões e casas de família em Santos e São Vicente e circulavam livremente pelas duas cidades.

O navio não podia estar mais bem fundeado para os 236 homens da tripulação, dos quais a maioria era jovem e solteira. Saindo pelo Portão 12A do cais, as casas de entretenimento se alinhavam defronte do imponente prédio do Escritório Central da Companhia das Docas. Para gerações de marinheiros de todo o mundo e de santistas de todas as idades, era simplesmente a Boca. Nas famosas casas de shows como o El Morocco, Casa Blanca e Scandinavia, nos tradicionais restaurantes como o Golden Key, nos bares como o American Star Bar e nos cabarés das ruas General Câmara, João Guerra e Xavier Pinheiro, os luminosos de neon, a música, os sons, os shows, números de strip-tease, as luzes e as gargalhadas das gangues de jovens se aventurando pela noite formavam a zona libertina de Santos.

A boemia oferecia cardápios para qualquer gosto e a rapaziada do Windhuk levava vantagem, uma vez que os salários que recebiam era o dobro do que os locais ganhavam. Na concorrência pela atenção das dançarinas que se alinhavam nas paredes das boates e das moças com os corpos para o pecado que flertavam nas esquinas à procura de um braço forte para se apoiarem, os do Windhuk eram os mais procurados.

Se na Boca encontraram um paraíso boêmio, foi na tradicional colônia alemã que a tripulação achou um lar. A colônia, que ainda mantinha a lembrança dos nomes que marcaram presença em Santos, como Palm, Emmerich, Troost, e Kühnen, rapidamente absorveu a tripulação e a incluiu nos seus eventos sociais e recreativos. O ponto de encontro era o decano dos clubes sociais de Santos, o Clube Germânia, fundado em 1865, na sua elegante sede em estilo colonial americano.

Também passaram a frequentar intensamente o vasto clube de campo alemão da Associação de Tiro, Der Schützen-Verein, em São Vicente, conhecido como o Clube do Bugre, que serviu de palco para as mais variadas funções nas quais muitos dos tripulantes vieram a conhecer suas futuras esposas. Lá, o comissário Heinz Spoerl encontrou sua Aracy no Natal de 1940. No clube, se organizavam festas, comemorações e jogos esportivos de todo tipo. Para a surpresa dos times locais, a equipe do Windhuk dificilmente perdia uma partida de futebol. Somente mais tarde se tornou conhecido que, entre os jogadores, cinco deles haviam jogado pela seleção alemã.

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Feliz Enlace

O amor de Hildegard e August urgia e, dada a incerteza da sua volta a Hamburgo, decidiram se casar a bordo no dia 19 de abril de 1940. O salão dos oficiais foi decorado para a ocasião e o cozinheiro-chefe Hans Rock e sua equipe prepararam a festa. Foi a última vez que a bela dama dos mares se enfeitou em grande estilo. Sem que soubessem, seria a despedida antecipada onde todos compareceram de uniforme de gala com suas namoradas para testemunhar o casamento dos queridos Hildegard e August. O Pastor Reichardt, da Igreja Luterana em Santos, foi convocado para oficiar a união na capela protestante, uma das três a bordo. Anos mais tarde, declarou que, de todos os casamentos que oficiou em sua carreira, esse foi o melhor.

No lugar do pai da noiva o Capitão Brauer certamente discursou primeiro, seguido pelos amigos, que fizeram votos e piadas sobre a felicidade que todos desejavam ao casal, os filhos que teriam e como essa grande família sempre estaria junta para apoiá-los. Regadas a chope para dar mais ânimo, as conhecidas canções de festa foram cantadas em voz alta. Depois do jantar, os confeiteiros certamente apresentaram o tradicional bolo de casamento, Baumkuchen, para o deleite de todos.

Depois da valsa dos noivos, a banda do maestro Otto Engels seguramente entrou com força e caprichou nos populares foxtrot e jitterbug, nunca se esquecendo de incluir uma rodada de polca para esquentar a pista de dança. Ao sair do salão como marido e mulher, o arroz que os amigos jogaram como despedida fixou-se no cabelo da agora senhora Braak. A tradição diz que a noiva terá tantos filhos quanto os grãos de arroz que ficarem presos no seu cabelo até a manhã seguinte. Naquela madrugada de sábado, tudo estava bem. Não havia guerra e o futuro era promissor. Os sons da festa enchiam a noite e o navio iluminado refletia sobre as águas calmas do estuário. Era uma ilha de paz.

Sabotagem

Os ventos de guerra pairavam e, nos meses que se seguiram, os boatos começaram a preocupar o capitão Brauer. O conflito na Europa se alastrava e, exatamente dois anos após a chegada do Windhuk a Santos, os japoneses bombardearam Pearl Harbor, forçando os Estados Unidos a entrar na guerra. As chances de o Windhuk sair sob a bandeira do Reich ficaram cada vez mais remotas.

Mesmo que a tripulação usufruísse da liberdade de ir e vir, para Brauer era questão de tempo até que algo acontecesse com sua tripulação, como acontecera às tripulações alemãs em 1917, quando foram internadas na Estação Quarentenária do Lazareto da Ilha Grande, no Rio de Janeiro, por motivo de segurança nacional. Junto com o Reinholt, Heuck e o segundo oficial Arnulf Shüpfer, ele começou a planejar uma fuga ambiciosa. Num estaleiro em São Vicente, obtiveram uma baleeira de 12 metros: a Santa Fé. O plano era atravessar o Atlântico para Dacar, Senegal, aproveitando as correntes marítimas e ventos que por séculos foram usados para navegar entre os continentes, e de lá seguir para um porto em mãos alemãs. Escolheram uma equipe de 11, entre eles o Lange, e equiparam o pequeno barco de pesca com tudo que seria necessário para a travessia.

A preparação foi interrompida quando se ouviu que o navio havia sido vendido para a marinha americana por U$ 5 milhões e que seria levado para os Estados Unidos para ser reformado como transporte de tropas. Depois de tanto trabalho para evitar que a tecnologia do Windhuk caísse nas mãos do inimigo, o capitão colocou outro plano em ação. Se eles não fossem sair de Santos com o navio, ninguém sairia. Para tanto, eles sabotariam as tão cobiçadas máquinas que os permitiram chegar a esse porto seguro que, para eles, infelizmente cada vez mais começava a parecer uma jaula dourada. Decidiram colocar concreto nas máquinas enquanto a hélice rodava. Na calada da noite fundiram o motor, esmagaram a turbina e destruíram o eixo para que o Windhuk só saísse rebocado.

E foi exatamente o que aconteceu. No dia 15 de janeiro de 1942, o Windhuk foi nacionalizado. A reportagem de A Tribuna do dia seguinte relata que Brauer tinha os olhos cheios de lágrimas durante a descida do pavilhão alemão. O navio pelo qual ele e a tripulação tanto lutaram, o lar da grande família de 244 amigos sobre a qual era responsável, já não era mais deles. Quando o capitão John T. Bottom, Jr. e a sua tripulação americana vieram buscar o navio, descobriram a artimanha do Brauer e seus oficiais. Brauer, Reinhold, Shüpfer, Polh e Heuck foram detidos após admitirem responsabilidade por terem destruído as máquinas. O navio foi rebocado para o Rio de Janeiro, onde repararam os motores e depois partiram para o estaleiro naval da marinha americana em Norfolk, Virginia. Foi reequipado, perdendo uma das suas características chaminés, rebatizado e comissionado no ano seguinte como o Liberty Ship USS Lejeune.

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Fuga frustrada

A baleeira Santa Fé ainda aguardava as suas ordens para zarpar. Com a prisão de todos os envolvidos na sabotagem, foi decidido que o oficial de bagagem Wilhelm Doblinger substituiria Polh como comandante e o terceiro-oficial Gerhard Böhm tomaria o lugar de Shüpfer como segundo em comando. Sob a lua nova de domingo de carnaval partiram da Praia das Vacas, em São Vicente, e seguiram costeando o litoral sul até a Ilha Queimada a motor. Ao amanhecer, içaram as velas e apontaram a proa para o mar aberto rumo à África.

Depois de dois dias de viagem, uma grande tempestade caiu sobre o barco. Ondas enormes passavam por cima dele, ameaçando levá-lo a pique a cada vagalhão. Navegaram de vela reduzida para que a força do vento não arrebentasse o mastro e rasgasse a lona. Para quem já havia escapado dos navios de guerra ingleses, isto parecia fácil. Seguiram o rumo determinados a chegar à costa africana em poucos dias. Mas na troca de plantão de quatro sinos da meia-noite, a tragédia foi anunciada. Uma onda varreu o convés e Doblinger foi levado pelas águas. Na escuridão, a gritaria. Uma bóia foi atirada em direção ao comandante, que acenava freneticamente. Enquanto davam a volta para apanhá-lo, outra massa de água preta o engoliu. Sem esperança de encontrá-lo, seguiram em frente agora com Böhm no comando.

Na manhã seguinte, perceberam, pela posição do sol, que Böhm havia mudado o rumo, de volta à costa brasileira. Ele alegou que o motor havia quebrado. Era verdade, mas a realidade é que ele não queria fugir. Estava envolvido com uma namorada em Santos e só embarcou porque fora escalado pelo capitão Brauer. “Se soubéssemos, teríamos matado ele”, comentou Lange anos depois ao descrever a aventura, soltando uma risada. Conseguiram voltar à Praia Grande e por pouco não afundaram em plena vista da baía de Santos. Ainda esperançosos, voltaram para o estaleiro em São Vicente para conseguir outro motor. Ali, qualquer fagulha de esperança foi apagada. A guarda costeira e a polícia os aguardavam e os levaram para a cadeia pública de Santos.

Prisioneiros em Pinda

Embora o Brasil ainda não tivesse entrado na guerra, o governo rompeu relações com a Alemanha e, por tabela, com as nações do Eixo Roma-Berlim-Tóquio. Para evitar que uma quinta-coluna se formasse nas áreas militarmente estratégicas, foi emitido mandato de segurança nacional para retirar todos os alemães, italianos e japoneses da costa brasileira e, em particular de Santos, por ser o porto de maior importância do País. Caçaram os tripulantes nas pensões, nos clubes, nos botecos, em casas de família e até em pleno dia nas calçadas. Santistas de origem alemã, italiana e japonesa tiveram o mesmo destino. Desta vez, não seriam levados para o Lazareto da Ilha Comprida, como em 1917. Foram levados para a Hospedaria dos Imigrantes, em São Paulo, onde ficariam internados sob a supervisão do DOPS até a que o governo decidisse o que fazer com eles.

Em agosto de 1942, os Estados Unidos fizeram um acordo econômico com o Brasil para que entrasse na guerra ao lado dos Aliados. O Presidente Roosevelt garantiu a recuperação das jazidas de ferro de Minas Gerais e da Ferrovia do Vale Doce e o financiamento à Companhia Siderúrgica Nacional. Em troca, o Brasil acabou sendo o único país da América do Sul a participar do conflito mundial. Mandou 25 mil pracinhas para a guerra, onde lutaram ao lado do 5° Exército Americano e se destacaram com honra na tomada de Monte Castello. Por força do destino, parte das forças expedicionárias brasileiras foi transportada de volta ao Brasil pelo USS Lejeune em 1945.

Para confinar cidadãos que poderiam representar uma ameaça interna, seguiu-se o modelo usado em solo norte-americano: o campo de concentração. Nos Estados Unidos, foram detidas mais de 120 mil pessoas. No Brasil, não se sabe com exatidão quantos foram internados, mas que Braaks, Misfeld, Lange, Engels e todos do Windhuk foram para os campos.

Esses campos de concentração não eram campos de extermínio nazistas, nem prisões, mas sim instalações provisórias que seguiam as regras da Convenção de Guerra de Genebra, com capacidade para abrigar grande quantidade de homens, mulheres e crianças, civis ou militares, que permaneceria presa até a resolução do conflito. Nesses locais se encontravam, organizadamente, barracões para dormitórios, refeitórios, escritórios, escolas e campos para a prática de esportes.

No Estado de São Paulo foram criados cinco campos no Interior e foi pra lá que os tripulantes foram transferidos. Localizavam-se em Pindamonhangaba, Guaratinguetá, Ribeirão Preto, Bauru e Pirassununga. Os três últimos seriam desativados pouco tempo depois e os presos encaminhados para os dois primeiros.

August, Hildegard e a maioria dos tripulantes do Windhuk foram transferidos para o campo em Pindamonhangaba, localizado na então Estação Experimental de Produção Animal do Estado. Para acomodar os internos, um grande estábulo foi transformado em dormitório. Durante o dia, trabalhavam na cozinha, nas oficinas mecânicas, na carpintaria, e cuidavam do gado. Nas suas horas de folga, cultivavam pequenas hortas e jardins, Kleingartens, seguindo uma tradição européia que vinha desde a Idade Média. Nessas hortas, construíram suas casinhas de lazer, para os finais de semana, que lembravam os tradicionais Gartenlauber da Alemanha. Eles cultivavam frutas, flores e produziam hortaliças de todo tipo para suplementar o que era servido pela fazenda e até chegaram a produzir um vinho artesanal para as ocasiões especiais.

Pelos próximos três anos, o Campo de Pinda serviria de lar para os internos e, apesar das condições espartanas, foram anos felizes. A vida era boa, com liberdade condicional para todos e direito a visitas nos finais de semana. Jogavam futebol contra os times locais, e a banda, sob a batuta do maestro Engel, animava as festas que as moças de Pindamonhangaba frequentavam, muito a contragosto dos jovens locais. Desses encontros não foram poucos os casais que se formaram.

Casados, Hildegard e August se alojaram em uma casa separada do estábulo para que pudessem ter privacidade. Não se sabe quantos grãos de arroz permaneceram no cabelo da Hildegard naquela manhã de sábado quando partiu de Santos para a sua lua-de-mel, mas em março de 1944 ela deu à luz ao único filho dos cinco que os Braaks sonhavam em ter. O chamaram de Carl com “C” e não o costumeiro “K”, pois achavam que assim ficaria diferente de todos os outros Karls com os quais ele cresceria na Alemanha. Carl era o xodó do campo e para os muitos tios e tias era o símbolo da alegria que os esperava depois que voltassem para casa.

Em 1945, a guerra terminou. Da noite para o dia, os internos foram libertados sem sua documentação e sem dinheiro no bolso. Simplesmente foram chamados para a Delegacia de Ordem Política e Social e informados que estavam livres.

Liberdade sob o Cruzeiro do Sul

Para a tripulação, era de conhecimento comum que um alemão chamado Hans Hillebrecht era dono do Grande Hotel em Campos do Jordão, a pouca distância de Pindamonhangaba. Hans, um dos pioneiros da hotelaria na cidade, contratou mais de 50 dos tripulantes do Windhuk, entre garçons cozinheiros e até a orquestra inteira do maestro Engel. Juntos, ajudaram a construir a cidade turística que Campos do Jordão é hoje.

Os que não foram para Campos se espalharam pelo Estado e pelo Sul, apadrinhados por membros da colônia alemã. Muitos se destacaram nas diversas carreiras em que investiram e contribuíram para a grandeza do Brasil. Lange casado com Júlia Nogueira, a enfermeira que cuidou dele quando teve tifo depois de tentar escapar da Casa de Detenção, fez a vida como mestre-de-obras na Praia Grande, não muito distante de onde quase naufragou com a baleeira Santa Fé. Spoerl trabalhou na Rede Brasileira de Televisão, em Santos, e foi pioneiro na instalação de transmissores de televisão no Brasil, inclusive instalando uma torre na Ilha Porchat que retransmitia o canal 5, antiga TV Paulista. Hildegard, August e o pequeno Carl foram para o ABC Paulista, onde Hildegard foi pioneira de Ortóptica no Brasil. Carlos, como prefere ser chamado desde menino para não destoar dos seus amigos, é engenheiro e vive lá até hoje. O seu pai faleceu em 1963 e a sua mãe há poucos anos. Ela, de todos, foi a que voltou mais para a Alemanha, sempre a passeio. Desde aquela manhã de dezembro de 1939, o Brasil seria onde ela, August e Carlos cultivariam as suas raízes.

O Legado do Prazer

Em 1948, o garçom Otto Rückert abriu o Bar Windhuk, no bairro de Moema, em São Paulo. Ele aproveitou o cardápio que conhecia tão bem do navio e construiu a base em que anos mais tarde os irmãos Kreiger – Walfrido, Reimar e Francisco – solidificariam numa das mais tradicionais cozinhas alemãs da capital, o Restaurante Windhuk. É com Francisco que hoje encontramos o maior acervo de material sobre a história do navio. Desde 1989, a tripulação e suas famílias têm se reunido todos os anos no dia 7 de dezembro para relembrar o passado, contar do presente e sonhar com o futuro.

Quando voltou a São Vicente, Martin Jess, caldeireiro do Windhuk, e sua esposa Martha compraram o Restaurante Hirondelle de três irmãos franceses na praia do Gonzaguinha. Para gerações de santistas e vicentinos, o Hirondelle, com as andorinhas voando sobre os três fios na parede e o peixe de cachecol, continua sendo o ponto de encontro. Seja uma boa pizza ou um saboroso prato de eisbein, nenhuma refeição está completa sem um pedaço de ”apfelstrudel”, cuja receita veio da mão de Dona Martha. De acordo com o Chico, o atual dono, que foi empregado de D. Marta e Seu Martin por mais de 30 anos, é a melhor casa francesa que serve comida alemã, cujo dono é do Rio Grande do Norte e o cozinheiro é sergipano.

Em 1960, vinte e um anos após a sua chegada a Santos, a uma quadra da baía que lhe estendeu seus braços naquela manhã de dezembro, Karl-Heinz Misfeld e seu amigo José Anastácio dos Santos abriram um bar numa esquina onde sopram os ventos do mar. Com muita garra, dificuldade e inovação, construíram uma tradição que se apoiou naquele mesmo chope que foi servido na última gloriosa festa a bordo do SS Windhuk, nome que significa o Lugar do Vento em afrikaans. Pelas hábeis mãos de Darcy Mercki Heinz, nora do Heinz, essa tradição santista está mais forte do que nunca, e o Bar Heinz é por muitos considerado o melhor bar da região.

No burburinho alegre, saboreando um prato de Kassler com chucrute e desfrutando das sempre bem-vindas rodadas de chope da bandeja do Seu Zé, talvez seja aqui que encontramos a melhor memória viva daqueles que navegaram o vento. A paz de viver com prazer.

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“O meu sonho era visitar paraísos tropicais. Jamais imaginei que o destino me levaria a passar o resto da minha vida em um lugar assim.”
Heinz Spoerl, santista, ex-tripulante do “Windhuk”. 

 

 

 

 

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