REVISTA GUAIAÓ
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[ Cinecidade ]

ORFEU DA CONCEIÇÃO, TESTAMENTO DE POETA

Por Flávio Viegas Amoreira
Ilustração Paulo von Poser

Paulo von Poser_CINEMA_GUAIAÓ 03

O Brasil não é mais tão verde, mas ainda ‘amarela’ em ser uma civilização original: e original em ‘brasileiro’ é ser fantasticamente transcultural! O final dos anos 50 foi nosso século V esteticamente: quando, sem pretensões de nova Roma, acalentávamos o sonho grego da ética pela estética, o bom pelo virtuoso apimentado com dionisíaco ‘bossa-novismo’. Imaginem uma peça baseada em Orfeu e Eurídice, uma tragédia do amor interdito escrita por Vinícius de Morais com cenografia de Oscar Niemeyer e revelando ao Brasil o jovem Tom Jobim ? 1956, ainda antes do primeiro LP de João Gilberto, a subida ao morro era o encontro da burguesia progressista com as nossas raízes de ancestralidade deliciosamente miscigenada. Topografia é um bom destino moldando o caráter de uma comunhão de homens: e aquele Rio de Janeiro era tão Santos também entrecortada de morros mirando o Oceano entre barracos evanescentes. A peça de sofisticadíssima afirmação de nossa negritude adaptada ao cinema deu-nos a “Palma de Ouro” e o Oscar de filme estrangeiro: ok! o diretor francês Marcel Camus e produção internacional, mas nada mais samba, tropicalidade exultante, com nossa tragicidade solar e os delírios de Darcy Ribeiro por uma visão brasileira do mundo, que “Orfeu Negro”! Vinícius faria 100 anos e ninguém representou o poeta como bardo agregador de mitos e encantamentos coletivos que o compositor que fez desse “Orfeu” o laboratório de todas as inovações que iriam desaguar na tropicália e no ‘socialismo moreno’. Não um Brasil paternal, melosamente generoso: sim uma potência do Espírito antes de colocar-se como matriz energética e sonho de consumo do mundo! Tom Jobim, muitos anos depois, conta ter assistido numa madrugada nova-iorquina e sentir um banzo de suprema melancolia: a tal saudade tão nossa de brasileiro distante, nunca distanciado da Eurídice aqui no paraíso…

O filme e o mito são metáforas prontas para um herói que resgate a Beleza sem olhar para trás no mundo dos mortos por falta de sonho: Orfeu encarna nossas dicotomias de rejeição e complexos de colonialismo mental, ao que Vinícius criou “Se todos fossem iguais a você” e “Lamento do morro” com atores que ampliassem nosso arco de gozoso delírio. “Orfeu” mostra um Brasil que não se via, se negava por mimetismo europeizante. A encenação do “Orfeu” começa com no gênio de Vinícius ouvindo batuques do morro na casa de Carlos Leão e imaginando uma Hélade carioca. A peça representa para mim uma “Semana de 22” sociológica: a primeira vez que um negro se apresenta no Teatro Municipal de uma capital brasileira. A partir da luta de Abdias Nascimento, Ruth de Souza, do espírito de “Vina” e Lúcio Rangel, o magistral ator Haroldo Barbosa e Lea Garcia sobem a ribalta sem paternalismo ou concessão: era o Brasil real auto-criado e não feito para exportação! Sem nacionalismo, mas com telurismo de quem se sente estranho num Brasil neo-pentencostal, com sertanejo fake urbano e tanto consumismo americanizante, sinto falta duma potência da alma com seus terreiros, ritos xamânicos, uma bossa agora ao som de Marisa Monte tendo Vinícius de Moraes como mestre arcano. Cultivar o “Orfeu” não é buscar o ‘retrô’, é reencontrar um Brasil de Glauber que poderia ser e não foi: um Bric criativo com um pré-sal cultural. Escrevi rebobinando cordas do meu violão de dentro ouvindo “Samba em prelúdio”: como um Luis Bonfá saudoso de Eurídice aos alaridos dos atabaques e pandeiros. Um poeta que via filmes como quem lia, Vinícius foi um dos nossos primeiros críticos (verdadeiros!) da sétima-arte. Viu por ‘dentro’ o que era fazer cinema como dizia do “Orfeu”, uma fita que fosse para justificar seu tesão em estar numa matinê tranquila: “Vou ao cinema da mesma forma que ando, como, respiro e durmo. Tenho com a imagem cinematográfica uma velha familiaridade , que me assegura direitos inalienáveis.”

Vinícius sabia tudo, porque sentia demais…

Orfeu_Negro,_1959

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