REVISTA GUAIAÓ
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[ Cinecidade ]

A LENDA DO PIANISTA DO MAR

Por Flávio Viegas Amoreira
Ilustração Paulo von Poser

Paulo von Poser_CINEMA_GUAIAÓ 03

O navio e o porto como pontos de questionamento do mar infindo: partida e remanso, um filme lírico, com enorme poder simbólico, ”A Lenda do Pianista do Mar”, de Giuseppe Tornatore, é um tratado cinematográfico sobre o homem diante do mundo, tendo o Oceano como elemento mítico.

Um bebê encontrado sobre um navio de bordo e acolhido num transatlântico glamoroso na passagem do século XIX, a “Belle Époque”: crescido, feito homem e artista sempre no mesmo ambiente: o navio que traz todas as transformações do Tempo nesse espaço liquefeito entre desencontros de tripulantes eternos e passageiros dum presente que, como as marés, aponta ao sempre ou nunca. Brilhantemente interpretado por Tim Roth, o personagem central leva o nome de 1900,  é um anti-Ulysses sem ter referência para onde voltar, além de ser navegante observador de todos os cantos da Terra com a perspectiva do Mar: ele é tão marítimo que perde mesmo sentido do Oceano por estar nele contido naturalmente. Não defronta o Mar, torna-se contingente de calmarias e intempéries como um pastor num bosque ou transeunte na Quinta Avenida; músico tem no som a contrapartida verbal ao seu insulamento sem paragens ou atracamento, o pianista é um sedentário duma aldeia que zarpa: um nômade da superfície flutuante. A trilha sonora de Ennio Morricone emociona tanto quanto outro clássico do ainda jovem Tornatore: “Cinema Paradiso”; mas o jazz é também um protagonista, tão fugaz em escalas e melodias de improviso irrepetíveis quanto a inevitabilidade despedida das vagas sobre os contrafortes da embarcação. Um homem que vive sempre à margem do conceito de terra firme: um habitante do lugar nenhum contendo todos os lugares que permeia ancorando. Orfandade, signos fluídos, melancolia de um passado inescrito:  o pianista do mar vivencia o mundo negando sem precariedade a realidade pretensamente sólida que nomeamos sociedade.

Imigrantes, forasteiros, clandestinos, marujos: uma convivência sem moldar uma comunidade que deite raízes num “lócus” preciso.  Onde seu paradeiro ancestral? As origens que não sejam a vastidão e um lastro nostálgico entrevisto da proa ou nas cabines labirínticas que fazem da paisagem imenso aquário pelo prisma navegante? Recorro ao imenso poeta neogrego Georgios Seféris: “Não sabemos que somos todos marinheiros sem destino / Não sabemos como o porto é amargo / Quando todos os barcos partiram”. O mar é um símbolo uterino candente: o porto é um não-lugar que convida ao retorno viajante. O pianista do mar não desconhece as teias conexas do mundo firme na superfície apenas: rejeita ser desterrado: é um viandante que tem navegar como companhia “instável” de Arte: entretem aqueles que o munem do mundo dentro das entranhas dum navio. “Por que é que os antigos persas consideravam o mar como sagrado? Por que razão lhe atribuíram os gregos um deus especial? Sim, como todo o mundo sabe, a meditação e a água estão unidas para sempre. Pois a mesma imagem vemos nós em todos os rios e oceanos. É a imagem do inacessível fantasma da vida; é aí que se encontra a chave para tudo”. Esses trechos, da abertura da catedral literária de Melville, “Moby Dick”, ecoam para ilustrar tamanha potência inspiradora de refletir diante o Mar. O supremo adeus dos lenços se dá quando o navio aporta: a negação do continente, o sonho de uma América a ser conquistada não cabe na Alma de quem só tem o Mar como perspectiva. O filme é baseado em belíssima novela de Alessandro Baricco, dos mais talentosos escritores italianos contemporâneos e que também nos deu o sugestivo livro “Oceano-Mar”. Se alguns longas já nascem romances, essa obra-mestra de Tornatore surge pronta como fita-poema. Dá-nos vontade de seguir Mallarmé em seu poema “Brisa Marinha”: “A carne é triste, e eu li todos os livros, todos. Fugir! além! / ouve a canção dos marinheiros!”

Nascer e viver no mar é da parte de quem já vem refletido com o luzir da miríade de estrelas.

A lenda do pIanista do mar_CINEMA_GUAIAÓ 03

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