REVISTA GUAIAÓ
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[ Uma História ]

A SÉTIMA ONDA – ECOS DISTANTES

Por Soren Knudsen
Fotografias Marcos Piffer

GUAIAÓ 03_UMA HISTóRIA

“São os filhos do deserto
Onde a terra esposa a luz.
Onde voa em campo aberto
A tribo dos homens nus…”.

Castro Alves – Navio Negreiro

Meia-Noite! Fogos coloridos explodem no céu. Ondas de espuma branca neon correm sobre o negro mar em direção à areia para agarrar as canelas da jovem. Nas mãos, uma taça de champanhe e um punhado de rosas brancas. Para não molhá-las, levemente levanta a saia branca expondo a cor da calcinha – rosa. Pula a sexta onda que, atrevidamente, molha mais do que ela esperava. O estrondo das ondas, o estardalhaço dos fogos, a champanhe e o sorriso para o namorado. Pula a sétima onda e exalta Iemanjá, deusa africana do mar. Ora para purificar-se e dar força para vencer os obstáculos do ano que está por vir. Com olhos fixos no horizonte que junta céu e mar em ébano, agradece as bênçãos obtidas durante o ano, pede uma graça e atira as flores no mar. Respeitosamente, retira-se da casa da sua mãe, cujos filhos são peixes – Yéyé Omó Eja -, com as mãos levantadas em louvor.
Do outro lado do canal de navegação, a pequena Praia do Góes é, possivelmente, o primeiro lugar onde essa influência duradoura vinda da África tocou a alma da nova nação. Foi aqui, em janeiro de 1532, que os ingredientes agridoces e explosivos da força motriz que nos faz “brasileiros” semearia a terra fértil de Bartira. No convés da nau capitânia “Nossa Senhora das Candeias”,  de Martim Afonso de Souza, os visionários irmãos Góes: Pero, Luís, Gabriel e Scipião. No porão, mudas de cana de açúcar cuidadosamente zeladas por escravos negros, embarcadas na última escala na Ilha da Madeira e, com elas, um dos segredos tecnológicos mais cobiçados da época – o engenho de açúcar.
O açúcar era um produto de luxo intensamente procurado pela elite europeia, e os mercadores portugueses da Antuérpia, principal praça de comércio e corretagem da Europa, buscavam dominar os seus lucros. Para produzi-lo, eram necessárias vastas áreas de terras aráveis e força d’água para moagem. Para cultivar, cozinhar e refinar o produto, mão-de-obra especializada. Para financiá-lo, extenso capital.
Com os fidalgos e nobres que pretendiam cobrir a Nova Lusitânia de cana, vieram mais de 400 colonos. Entre eles, certamente estavam escravos negros vindos de Portugal e das Ilhas da Madeira e São Tomé para suprir a mão-de-obra e para garantir o retorno do investimento inicial. Junto com os tamoios que lhes acenam boas-vindas da areia, obtêm-se a fórmula que Darcy Ribeiro, no seu livro O Povo Brasileiro, chama das três matrizes do Brasil: o pai luso colonizador, a mãe indígena que o ensina a viver nessa terra e a avó africana cuja mão e coração criam os filhos com jovialidade e imprime neles alegria, descontração, alma e força interior.

Açúcar

Pero de Góes aposta no solo argiloso escuro e pegajoso, rico em calcário, o massapê, para produzir as riquezas que essa terra prometia entregar. Habilmente, escolhe as melhores terras, não na geograficamente limitada e encharcada ilha de São Vicente, mas sim na área continental dos extensos vales férteis. Constrói o que é considerado o primeiro engenho de modelo açoriano movido a água no Brasil, o Engenho Madre de Deus, na Fazenda Sítio das Neves. Os Góes aumentam a extensão e o valor do seu investimento para um grande entreposto comercial com engenho, olaria, capela, moradias e porto. As suas impressionantes ruínas ainda hoje se apresentam a olho nu na Mata Atlântica, em plena vista do centro de Santos, à beira do Largo de Santa Rita. Esse complexo se espalharia pelos Vales do Jurubatuba e do Cabraiaquara, este último hoje conhecido como o Vale do Quilombo, para compor o maior complexo comercial industrial da incipiente Capitania de São Vicente, fagulha que tornaria o Brasil o mais importante centro de açúcar do mundo.
Para concorrer com os Góes, José Adorno constrói o Engenho de São João, próximo ao Morro de São Bento, e o próprio Martim Afonso o Engenho do Governador, aos pés do Morro da Caneleira. Seguiram-se o Engenho dos Aires, da Nossa Senhora da Apresentação e o Engenho de Santo Amaro, assim, como fora planejado, cobrindo a região de cana e iniciando o primeiro capítulo do ciclo do açúcar no Brasil.
O Engenho do Governador se torna a primeira multinacional ao ser adquirido pelo megaempresário da Antuérpia Erasmus Schetz, cuja família distribuía seus produtos, entre eles o lucrativo açúcar, por toda a Europa. Mudou o nome do empreendimento para Engenho de São Jorge dos Erasmos, que permanece até hoje. Embora o ciclo do açúcar alcançasse o seu auge no Nordeste do Brasil nas décadas que se seguiriam, a cana estava aqui para ficar e com ela as influências que perpetuaram essa riqueza nos fundos vales da baixada até se esgotar, no século XIX.
Além dos poucos trabalhadores especializados assalariados, os engenhos precisavam de força braçal. Essa viria a formar a maior imigração forçada para o Mundo Novo. Góes certamente pede permissão ao El Rey D. João III para usar mão-de-obra escrava da Guiné, para desenvolver a atividade no Engenho Madre de Deus. O pedido é concedido com base na bênção papal de 1452, que permitia a escravatura sob o pretexto de resgatar e converter a alma pagã. Outra justificativa se tornaria mais atrativa: aumentar os ganhos das capitanias e seus donatários para encher os sempre vazios cofres reais portugueses.

Infame Comércio

Desde 1482, os portugueses mantinham rotas comerciais com os reis da costa africana.  Há séculos, os governantes do Congo, Guiné, Daomé e Angola lucravam com o tradicional comércio com escravistas árabes. A oportunidade de expandir o comércio para a Europa e por tabela para as Américas tornou-se um negócio imperdível. Lisboa logo se transformaria em um dos maiores entrepostos de escravos na Europa. Em 1533, ano em que Góes pede a primeira remessa de “peças de Guiné”, uma em cada três famílias lisboetas era servida por escravos. O que começa como uma gota d’água, com os primeiros africanos transportados das Ilhas de São Tomé e Príncipe, toma força e borbulha como um tsunami durante os próximos 300 anos, despejando milhões de almas negras sobre as costas brasileiras.
“Apresado aos quinze anos em sua terra, como se fosse uma caça apanhada numa armadilha, ele era arrastado pelo pumbeiro – mercador africano de escravos – para a praia, onde seria resgatado em troca de tabaco, aguardente e bugigangas. (…) Metido num navio, era deitado no meio de cem outros para ocupar o exíguo espaço do seu tamanho, mal comendo, mal cagando ali mesmo, no meio da fedentina mais hedionda. Escapado vivo à travessia, caía no outro mercado, no lado de cá, onde era examinado como um cavalo magro. Avaliado pelos seus dentes, pela grossura dos tornozelos e punhos, era arrematado. Outro comboio o levaria terra adentro, ao senhor das minas ou dos açúcares, …” Descrevendo a vida de milhares, Darcy Ribeiro, sem o conhecer, descreve a vida do angolano Anísio José da Costa, conhecido como Maninho, um desses muitos que aqui chegaram.

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Prima da África

Num final de tarde de maio de 2012, as longas sombras alaranjadas se esticam sobre o pequeno quintal da Dona Helena Monteiro da Costa. Debaixo de uma carregada pitangueira, ela conta como era a vida na Rua da Liberdade, em Santos, antes que essas terras fossem incorporadas ao bairro do Embaré. A casa em que vive foi construída pelo pai por volta de 1920 e foi nela que, junto com seus pais e irmãos, cresceu num imenso sítio, terra cedida pela Prefeitura de Santos, que se estendia desde a Rua Siqueira Campos até a Senador Dantas. Ali, Maninho foi feliz com a sua amada esposa Basília, criou uma grande família, se aposentou como estivador do porto de Santos e veio a falecer em 1940 aos 110 anos.
Do lado de dentro do portão, as cores vivas, o piso de caquinho, as bromélias e orquídeas enfeitando o jardim e o canto do canário no frescor da sombra da pitangueira abrigam a casa de alvenaria com venezianas de madeira abertas de par em par, refúgio de simplicidade rural parado no tempo. As terras, que trabalhadas com suor e vigor para o sustento e liberdade da família por décadas, foram griladas por invasão e pela especulação imobiliária inescrupulosa há muito tempo. Agora só ganham vida na fala de Dona Helena.
Filha de Maninho, Helena é a primeira geração na nossa terra, prima-irmã da África, elo direto para as vozes que nos contam tanto sobre quem somos, é quem nos conta a história do seu pai. Após ser carregado de um dos entrepostos de Angola por um veloz clipper negreiro capaz de furar o bloqueio imposto pelos cruzadores ingleses, seu pai é contrabandeado em algum barracão no litoral, possivelmente na Fazenda do Perequê. Sem esperança, o garoto Anísio é levado para os canaviais dos engenhos de açúcar de Pindamonhangaba. Lá, encontra outros que tiveram a mesma sorte e que o convencem que mesmo na escravidão havia como resistir e sobreviver. Quando é vendido para as lavouras de café perto de São Paulo, ele chega mais próximo do recomeço da vida como um homem livre.
Com passos lentos e o olhar de uma carinhosa avó, Dona Helena mostra o pé de café que cresce à sombra da pitangueira. “Não herdei a mão do meu pai para isso! Até agora não deu nada!”, ela brinca e abre um sorriso. Entre as flores e as árvores frutíferas, ela aponta o comigo-ninguém-pode, a arruda, a guiné e a sempre presente espada-de-são jorge. Alecrim, manjericão e a pimenta também estão presentes no jardim de ervas. “Dizem que protegem contra o mau-olhado.”

Plantas

O quintal de Dona Helena é um microcosmo da imensidão de plantas que nos acompanham no caminho para as ruínas do Engenho das Gayas, no Cabraiaquara. A folha-de-xangô, conhecida como peregum-pupa ou dracena-vermelha, o lírio-do-brejo, quebra-demanda ou folha-de-ogum, gameleira, pau-d’água, aroeira, e o bambu atestam a ocupação centenária desse profundo vale que guarda segredos do desenvolvimento da baixada desde o tempo em que Góes aqui plantou a primeira muda de cana.

No caminho, oferendas para vários orixás, cada qual com as suas comidas, ervas, cores, plantas, flores e oferendas especiais para louvá-los. Observa-se a obra de milhares de mãos que moldaram a natureza com plantas que foram trazidas “nos panos” dos escravos e muitas outras nativas adaptadas ao seu uso. O akokó, o angico, a cajá-manga, a espada-de-santa-bárbara, o malmequer-do-campo, o oripepeu, a liamba, o objericum, a língua-de-sapo e os bredos e carutus chamados tètè gún em ioruba. As plantas possibilitam a ligação com as vibrações dos orixás através da defumação e banho.
No momento em que entra na mata para recolher qualquer folha para uso nos rituais, “o sacerdote, mão de ofá, saúda Ossaim – o orixá das ervas e folhas -, encosta a cabeça no chão pedindo licença, canta três cantigas e coloca dinheiro ou outros objetos de culto no chão como oferenda para a divindade, que assim assegura que a vibração básica da folha permaneça, mesmo depois de ela ter sido afastada da planta e, portanto, do solo que a vitalizava”, explica Carlos Lombardi no seu livro Os Orixás.  “Dependendo da espécie vegetal a ser colhida ou o ritual para que sejam utilizados, deve pedir licença três vezes antes de tirar as folhas, que somente devem ser colhidas às sextas ou domingos, até o meio-dia”, complementa o nosso guia na mata. “Além do alimento para os santos, os negros também buscavam alimentos para suprir as pequenas roças que cultivavam.”

Comidas

Dona Helena descreve como se faz o pirão que ela serve com o seu “Peixe com Banana”. “Primeiro coloco o caldo do cozimento até o pirão cremoso se formar. Misturo com o resto da salsinha e coentro picado. Boto a panela no fogo sem deixar queimar. Junto farinha de mandioca aos poucos, mexendo para não grudar. Retiro do fogo e coloco sal se precisar. Coloco o pirão no fundo do prato e em cima dele a posta de peixe com o caldo. Pimenta malagueta para temperar.” Um bocadinho mais, um bocadinho mais, continuaria Caymmi.
Embora sem impacto maciço da influência africana que se saboreia no nordeste e no recôncavo baiano, o cardápio caiçara mantém seus elementos decididamente africanos. O pirão, ou angu, à base de farinha de milho ou de mandioca talvez seja o mais clássico. Na África, a palavra agou é dada à papa de inhame sem tempero. Por sua vez,  inhame quer dizer “comida” e ainda é base do cardápio popular da costa ocidental. Aqui, angu geralmente é o preparado com fubá, enquanto o de mandioca é chamado de pirão. O pirão é frequentemente servido com frutos do mar como o “Azul Marinho” e a “Moqueca Caiçara”, enquanto o angu, tradicionalmente, acompanha frango ou carne moída com quiabo ou jiló. Para completar, arroz e banana cozida.
De acordo com Guilherme Radel, no seu livro Cozinha Praiana da Bahia, não foi a cozinha africana que se adaptou à portuguesa, mas sim a portuguesa do Brasil que se adaptou aos preceitos africanos. Modificando os pratos indígenas e portugueses, as cozinheiras-de-dendê substituíram os ingredientes, ensinando a fazer pratos com camarão seco e a usar as panelas de barro e a colher de pau. Fizeram uso do leite de coco-da-bahia, a pimenta malagueta, o feijão preto, o quiabo e incluíram os seus verdes e seus doces. Acrescentaram ao cardápio o vatapá, caruru, mungunzá, acarajé e a pamonha. Aperfeiçoaram os quindins, os papos-de-anjo, cocadas, as ambrosias e os doces cozidos nos tachos. Comida dos santos também é comida dos homens.

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Quilombolas

Se na mata tem comida para o santo e para o homem, foi para lá que em 1780 escravos da Fazenda do Sítio das Neves fugiram do mar-de-cana que os cercava. Somente descansaram quando chegaram ao alto do morro do Itaguaçu. De um lado, tinham uma visão completa do vale que seria conhecido como o do “Rio Quilombo”. De outro, o vale do Rio Itapanhaú até o mar. Ali, estabeleceram o refúgio fortificado que viria a ser destino de muitos negros fugidos da baixada e do planalto.
Por sua localização estratégica, esse quilombo resistiu às investidas armadas dos capitães-do-mato por mais de cinquenta anos. Em 1835, porém, a ordem do governador era de destruir o reduto de uma vez por todas. Por quatro anos não houve trégua até que, em 1838, não havia mais como resistir. Sob a liderança de Felipe, jovem líder quilombola tido como filho de rei africano, os que sobreviveram se enfronharam no mato e desceram a serra. Ocuparam terras na beira do rio que pertenciam ao Engenho das Gayas. Lá ficaram sob a sua liderança pelos próximos 40 anos, até que, em 1880, o então “Pai” Felipe atravessa o estuário e assenta seu povo na encosta sul do Monte Serrat, em Santos.
Por volta dessa época, Dona Helena indica que seu pai escapa das mãos dos seus capatazes numa ousada fuga pela Serra do Paranapiacaba por trilhas estabelecidas e mantidas pelo líder abolicionista António Bento. Escondendo-se na selva e alimentando-se do que esta lhe oferecia, desloca-se à noite para evitar as emboscadas dos homens do capitão-do-mato e se junta ao “Pai” Felipe. Aqui, Maninho, refugiado, mas livre, se reencontra com as vozes, comidas, danças, cantigas e tradições da terra natal donde havia sido arrancado há mais de quatro décadas.

Vozes

Tanto angu como quilombo, moleque, bagunça, calunga, cachaça, fubá, fuxico, cabaço, corcunda, lengalenga, cafundó, beleléu, macaco, tanga, titica, quiabo e quitutes são palavras que todos nós usamos diariamente sem nos darmos conta de sua origem banta. Vindos principalmente da costa ocidental africana, os escravos eram diferentes nas línguas, na identificação étnica e nas políticas tribais. Longe de tudo que conheciam, em condição servil  tiveram que aprender a língua do capataz para se comunicar e sobreviver. E essa língua era o português. Embora a língua corriqueira no litoral e no interior Sudoeste fosse o nheengatu, tupi-guarani com sotaque português, esse luso-tropical que inclui palavras desde o nhenhenhém do nheengatu até a sacanagem do banto foi força unificadora entre os milhares de negros que aqui chegaram. Quando o movimento dos latifúndios açucareiros do litoral para o centro-oeste tomou força, foi o português dos engenhos que veio junto com o africano escravizado. Com a língua vieram todos os elementos culturais do povo que o difundiu.
O negro imprimiu na fala algo muito mais parecido com a de Luanda do que a de Lisboa em ritmo, tonalidade, sonoridade, dicção e nos presenteou o vocabulário culinário, musical, afetivo, religioso e sexual que usamos diariamente.  Emprestando de António Risério, A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros,  “… a palavra bunda, por exemplo, com a qual as línguas bantas enriqueceram o português do Brasil. (…) A bunda brasileira, formada graças à herança genética – designada graças à herança linguística – dos africanos é nossa carne rebolante. (…) A nossa alegria mestiça, em algumas das suas manifestações mais originais, é de base negro-africana. O corpo em “violão” de nossas mestiças tropicais não é o corpo quadrado de índias e nórdicas… É com ele que o Brasil requebra em suas festas…”.

Danças

“Mulatinhas ainda novas e crioulos robustos requebram e bamboleiam o corpo, mexem e rebolam as cadeiras, picam com o pé, fazendo um círculo vagaroso até encontrarem-se os pares que se esbarravam numa proposital umbigada certeira, cheia, fazendo o corpo dar meia volta…”.  É assim que Carlos Victorino, no livro Santos (Reminiscências) 1905-15, descreve o batuque que “Pai” Felipe, o “Rei Batuqueiro”, comandava no seu acampamento ao redor da fonte da Vila Mathias. “O ‘tambaque’ para, a dança cessa e o ‘quentão’ é distribuído entre os participantes. (…) recomeçam a dança com os mesmos jogos, com as mesmas cantigas, prolongando-se este divertimento noite adentro, principalmente se houver luar. Essa dança selvagem é acompanhada de cânticos nos quais a última sílaba da rima prolonga-se muito, repercutindo na mata.”
José Ramos Tinhorão explica, em Os Sons dos Negros no Brasil, que os movimentos dessa batucada são os jogos do m’lemba – o preço da virgindade - do sul de Angola. A origem da dança é a cerimônia de casamento, o alembamento, na qual, ao som do atabaque, o coro descreve o que aguarda a noiva na noite de núpcias, dançarinos insinuam o que é cantado com movimentos lascivos e explícitos.
Os batuques, herdeiros das rodas de danças africanas, deixaram de ser dança de terreiro quando entram no cotidiano como simples diversão chamada lundu. É difícil dizer quando passou definitivamente a ser chamada de samba, mas o que é certo é que manteve a sua característica umbigada, a insinuada aproximação frontal do corpo pelos pares na roda.

Terreiros

Quando tudo lhes foi tirado, somente sobraram os orixás que carregavam consigo para poder resistir. Na visão do africano, o sobrenatural regia todos os atos do dia-a-dia. Os rituais, cantigas e danças associadas ao trabalho, aos afazeres cotidianos e de ocasiões especiais que marcavam a vida das pessoas eram essenciais para a sua sobrevivência. Os orixás que os acompanharam no porão do navio negreiro acharam novas maneiras de se fazer presentes aos seus filhos quando desembarcarem nessa terra.
Ainda de acordo com Risério, por meio do candomblé africanizaram o catolicismo e o terreiro assumiu o lugar do culto dos orixás, onde a língua dos iorubas, o maior grupo linguístico entre os negros que aqui chegaram, seria usada na liturgia. Reinterpretaram santos católicos escolhidos a dedo, trazendo-os para o universo das forças vitais onipresentes, estruturadoras da vida e do cosmo. Assim, mais do que uma cristianização de orixás, o que tivemos foi uma africanização dos santos.

Do candomblé e da umbanda vem um dos Orixás mais difundidos entre todas as camadas sociais e econômicas e, possivelmente, a mais querida entre todos os brasileiros: Iemanjá, senhora da calunga grande, rainha do mar, fecunda e resoluta. Sincretizada como Nossa Senhora da Glória e Nossa Senhora dos Navegantes, ela é considerada a mãe de toda vida na Terra. Em sua homenagem, velas, flores, champanhe, batom e colônia são oferecidos ao mar em pequenos barcos artesanais após passar ou “pular” sete ondas. Sete, o número da sorte para ter saúde e vida longa como o gato de sete vidas, para passar por cima dos sete pecados capitais e superar os desafios por vir. E rosas e palmas, sempre brancas, a cor de Iemanjá.
Dona Helena não é nem do candomblé nem da umbanda. Ela respeita as tradições do povo de seu pai com as quais vive no seio da sua família até hoje. Diz que Maninho foi pagão a vida toda e ri quando informa que o escrivão que registrou o seu nome se recusou a registrá-la como Serena, o nome dado por seu pai, pois esse não era nome cristão e assim ficou Helena.
Hoje, aos 87 anos de idade, levanta da cama, como fez a vida toda, às quatro e meia da manhã, para levar o seu cachorrinho a passear. Almoça no Restaurante do Povo e canta com o Coral da Terceira Idade da Prefeitura. Não casou, mas criou filhos de várias famílias para as quais trabalhou durante a vida. “São meus filhos do coração”, sorri. Aos 50 anos, aprendeu a ler e escrever e, aos 60 anos, se juntou à igreja evangélica. De acordo com a sua sobrinha Elizabete, sentada ao seu lado, Dona Helena dá o sentido de família aos mais de 130 sobrinhos, sobrinhos-netos e sobrinhos-bisnetos descendentes de Maninho que se congregam no pequeno reduto de paz. Generosa e acolhedora, Helena possui a força que transforma a sua família estendida em um grupo coeso. Essa característica das filhas de Iemanjá talvez seu pai “pagão” já reconhecesse na filha ao lhe dar o nome de Serena. Da cozinha flutua o aroma de café-de-bule fresco invadindo a varanda. “Açúcar, filho?”

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Oxalá

O eco distante da onda que correu sobre as areias no momento da concepção do nosso povo volta à origem e a modifica.
No outro lado do oceano, outra jovem cor de ébano vestida festivamente de branco fecha os olhos, pede bênção ao Senhor do Bonfim, sorri, beija as figas que carrega junto aos seios e oferece a rosa ao santo. Rosa branca, cor de Oxalá. Prima distante de Dona Helena, africana do Benin, o antigo Daomé, descende dos “brasileiros baianos” levados para a costa africana para trabalhar no comércio de escravos pelos seus senhores no fim do século XVIII. Legado dos negros baianos, abrasileirados e cristianizados, os ainda filhos de Oxalá não largaram por nada os seus santos católicos soteropolitanos quando foram para a terra dos seus antepassados. Mais de um século depois, seus descendentes ainda mantêm vivas as formas e crenças que cultivaram no Brasil.

 ”La Nature est um temple oú de vivants pillers
Laissent parfois sortir de confuses paroles;
L’homme y passe à travers des forêts de symboles
Qui l’observent avec regards familiers”.

Charles Baudelaire, Correspondences, Spleen et Idéal, de Les Fleurs du Mal

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