REVISTA GUAIAÓ
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[ Entrevista ]

O EFEITO BORBOLETA

A história de um biólogo capaz de enxergar, com fina ironia, a si mesmo e o mundo à sua volta

Por Marcus Vinicius Batista
Fotografias Marcos Piffer

RONALDO FRANCINI_GUAIAÓ 03_FOTO MARCOS PIFFER

O biólogo Ronaldo Bastos Francini tem duas vantagens sobre a maioria das pessoas. A primeira delas é que conheceu o paraíso em vida. Seria petulante não reconhecer que a leitura do Éden varia conforme a subjetividade, mas Ronaldo transformou o paraíso na extensão da própria casa. Aí reside a segunda vantagem: ele já esteve 500 vezes lá, nos últimos 40 anos. Todas as visitas foram catalogadas, com hora, data e resultado da viagem.

O paraíso, para o biólogo, fica a 45 minutos de carro de Santos. Inclui, no final do trajeto, meia dúzia de quilômetros em estrada de terra. “Minha vida é o campo.”  Ronaldo não se refere aos prazeres da vida rural, mas ao campo de pesquisa, o lugar mais próximo do sagrado para alguém que debate qualquer assunto com argumentos científicos, exceto a fé.

De aparência frágil e simpático como a barba branca que ostenta há anos, o biólogo transformou o Vale do Quilombo, na Área Continental de Santos, como se fosse a sala de estar do apartamento onde mora. “Uma ou duas horas lá recarregam todas as minhas baterias.”

Ronaldo é um dos maiores especialistas do mundo em borboletas. Perdeu as contas da quantidade de espécimes coletados em 25 anos de devoção à ciência. As borboletas hoje estão espalhadas pelo laboratório de Biologia da Conservação, a sala 211 na Universidade Católica de Santos, em sua própria casa e no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP). E foi por causa de uma borboleta que Ronaldo alcançou o êxtase em pleno paraíso.

Em 2008, o biólogo seguiu com dois alunos para o Vale do Quilombo. A visita de rotina serviria para mostrar aos estudantes como funcionava a pesquisa em campo. Observar espécies de insetos – Ronaldo já trabalhou com formigas -, sentir o cheiro da Natureza, interagir com os habitantes locais (pessoas, neste caso) e, se possível, coletar novos espécimes de borboletas.

Durante a visita, Ronaldo indicou uma planta para os alunos e se deparou com uma borboleta que jamais tinha visto na vida. Paralisou diante dela e se viu numa encruzilhada. Diante da possibilidade de uma espécie nova, não sabia se a coletava com a rede ou se a deixava ali. Optou por fazer algumas fotos e coletá-la depois. As fotos foram enviadas para colegas, que confirmaram ser uma borboleta “Reynald”, um gênero de origem amazônica. Ronaldo se sentiu aliviado: a borboleta não integrava nenhuma lista de animais em extinção. “Eu talvez nunca mais a veja na minha vida.”

Ronaldo está em constante alerta sobre o Vale do Quilombo. Vibrou com o engavetamento do projeto de exploração urbana do local, na década passada. Mas, pela experiência de quatro décadas, sabe que vigiar o paraíso representa uma missão sem intervalos ou mais algumas centenas de visitas.

RONALDO FRANCINI_GUAIAÓ 03_FOTO MARCOS PIFFER

Guaiaó: Depois de 40 anos no Vale do Quilombo, você conseguiu – voluntária ou involuntariamente – provocar consciência ambiental nos moradores de lá?

Ronaldo Bastos Francini: Consegui com alguns. Outros não querem ter esse contato. Para eles, a Natureza é para ser explorada. A forma como as pessoas usam a terra. Uma forma totalmente destrutiva.

Guaiaó: Qual é a saída para se proteger o Vale do Quilombo?

Ronaldo: Transformá-lo em Unidade de Conservação (UC). É um problema de natureza jurídica complexa. Quando o Governo Federal desapropriou a área, nos anos 70, não deu dinheiro para os donos. Hoje, são dois grandes herdeiros. E eles querem o dinheiro de volta, os tais precatórios. Se a gente pensar que o parque nacional mais antigo do Brasil, o Parque do Itatiaia, tem propriedades particulares porque até hoje a situação fundiária não foi regularizada, o futuro é difícil. Mas, no Itatiaia, por estar em área mais elevada, os moradores – alemães, austríacos e poloneses – tinham uma mentalidade mais conservacionista, diferente da mentalidade colonizadora portuguesa. Mas é preciso pensar em reservas extrativistas. Há exemplos na Amazônia que preservam o sistema natural.

Guaiaó: E o que um biólogo, em um trabalho quase solitário, pode fazer?

Ronaldo: Não adianta querer segurar o mundo. Tenho que estudar o que precisa ser estudado, fornecer embasamento técnico e contribuir com outros projetos científicos. Preocupa-me a Área Continental, que já foi vista com olhos de industrialização no passado. Três eleições atrás, um candidato a prefeito falou em explorar o local como a nova Santos. Muitos sítios se instalaram ali por conta dessa propaganda.

O sonho do óleo negro

            Ronaldo Bastos é um ambientalista cauteloso. Não é adepto de ações radicais. Acredita na diplomacia e na capacidade de negociação com empresas e governos. Mas ser diplomata não significa amenizar o olhar sobre o cenário que se desenha à sua volta. Nesse sentido, o biólogo é implacável com o caminho que a Baixada Santista deseja tomar para queimar etapas de desenvolvimento. Um dos delírios seria o sonho do óleo negro, a ansiedade em enriquecer com a exploração da camada de pré-sal. “Nossa tecnologia ainda é muito primitiva.”

Ronaldo também não poupa o fascínio da humanidade pelo consumo e pela tecnologia. “Em casos de catástrofes, as consequências serão menores para quem possui menos tecnologia.”

Guaiaó: A Baixada Santista fala demais em pré-sal. Mas, há três anos, o discurso dominante era de revisão da matriz energética. Por que o assunto saiu da agenda pública?

Ronaldo: Quais são as matrizes energéticas viáveis para mantermos a industrialização que achamos que queremos? A industrialização hoje requer muita energia elétrica. As opções para a Europa e o Japão vêm de queima de combustível fóssil – as termelétricas – e, inclusive, de exploração de usinas atômicas. Nós temos a opção hidroelétrica. É melhor? Depende. O Estado de São Paulo não tem mais nenhum grande rio onde a fauna aquática não foi eliminada ou substituída. O lago de uma usina hidroelétrica provoca enorme evaporação de água, que altera o clima local, regional e global. As implicações são inúmeras, não apenas relacionadas à biologia de curto prazo, os efeitos no bioma. A janela de condições climáticas ideais está se fechando. Até os políticos sabem disso. E nossa tecnologia não consegue fazer previsões. Já a energia solar e a energia eólica são ainda inviáveis. Quem acredita nisso hoje precisa rever os conceitos de física.

Guaiaó: Santos atravessa uma fase de especulação imobiliária fortíssima. Mais de 60 edifícios em construção e outros tantos projetos aprovados pela Prefeitura. A cidade está entre as três maiores frotas de carros; aliás, veículos cada vez maiores. Quais serão as consequências ambientais desta visão de progresso? E por que a cidade não discute as implicações dessa perspectiva?

Ronaldo: Santos é uma ilha em todos os sentidos. Somos a Dubai, uma cidade que não é auto-sustentável, mas com a diferença que tem o petróleo para se manter. Estamos investindo em um futuro, o pré-sal, que ainda não é viável. Tudo isso não vai ruir? Podemos levar 70 anos para extrair petróleo. Não sou contra extrair petróleo. Sou contra extraí-lo para queimá-lo. É uma burrice tão grande quanto insistir em queimar florestas para fazer pastagens. Queimamos porque, entre outras coisas, somos dependentes do plástico. A sociedade de hoje não depende somente de energia. O que nos faz assim hoje é o plástico (aponta para o microscópio no laboratório).

Guaiaó: Você nasceu em Santos, esteve fora e voltou para trabalhar aqui. O que você vê quando olha para a cidade?

Ronaldo: Prédios!!! Sou do tempo em que a cidade era repleta de ruas de terra e terrenos baldios. O saneamento básico chegou em casa no início da década de 60. Meus filhos conheceram a Natureza porque saía com eles para longe da cidade. Santos é uma ilha. A gente só olha para o nosso umbigo. Achamos que é o melhor lugar do mundo. Tem coisas bonitas, mas tenho dúvidas. As paisagens foram um dos fatores que me fizeram voltar. Você ainda vê verde, mesmo meio descolorido.  Repito: precisamos olhar para o mundo, mas também conversar com ele. Estamos atrasados em questões educacionais e tecnológicas. Achamos melhor ir para São Paulo. Viramos uma cidade-dormitório. A percepção que tenho é que paramos no tempo.

Guaiaó: Qual é o principal problema ambiental de Santos?

Ronaldo: A densidade populacional. Isso acarreta muitas outras coisas, como o trânsito. Cada prédio de 40 andares, cada um com dois, três carros na garagem. A cidade vai crescer, além da população flutuante de final de semana. O ecólogo não está interessado no tamanho da população, mas o tamanho dela em relação à área ocupada. Os efeitos da densidade já foram vistos em várias espécies e agora atingem a nossa. O aumento da densidade pode ser resolvido com políticas públicas que, de alguma maneira, podem cercear as causas. A densidade pode não ser um problema visível de curto prazo, mas é o pior.

Guaiaó: Por que o discurso ambiental não consegue a mesma penetração em certas camadas da sociedade quando comparado ao discurso político, impregnado de promessas de riqueza e desenvolvimento econômico?

Ronaldo: Dos anos 60 para cá, as grandes empresas e os políticos se apropriaram da palavra ecologia e hoje vendem produtos que não têm o menor significado ecológico. Ao mesmo tempo em que houve a apropriação desse contexto da ecologia, os ambientalistas ficaram com a imagem de xiitas. Até porque muitos deles o são. Muitas pessoas têm boas ideias, mas falta a elas base científica. A visão se torna poética, mas não convencerá as pessoas se não houver argumento sólido da ciência. O movimento ambientalista, hoje, está meio de escanteio, como malucos. E muitas das ações radicais colocam em risco a vida deles e de outras pessoas. Hoje, eu tomo muito mais cuidado com o que falo. Os ambientalistas são muito jovens ou muito velhos. O homem maduro está no mercado de trabalho.

Guaiaó: E o ambientalismo de boutique? Onde entram os consumidores que acreditam preservar o meio ambiente quando compram um produto no shopping?

Ronaldo: Alguns dos institutos que certificam os produtos nem existem de fato. É virtual. Há empresas que financiam projetos para compensar os grandes impactos ambientais. O planeta passou por problemas em larga escala. A última que conhecemos foi há 60 milhões de anos e destruiu cerca de 70% da vida. O que sobrou somos nós e outros organismos que evoluíram. Todas as espécies são egoístas, desejam apenas se reproduzir. Nós também. O que nos resta é nos educarmos. Todas as sociedades têm essa força egoísta. Será que sobreviveremos mais dez mil anos? Temos tecnologia para montar uma colônia em Marte? Conseguimos reproduzir microorganismos e algas em ambientes fechados. Mas todas as tentativas – e a Nasa investe nisso – de reproduzir a sociedade humana em ambientes fechados fracassaram.

O outro paraíso

Ronaldo viaja com frequência para a Amazônia. Ele defende que é preciso estar lá para se compreender e absorver melhor o tamanho do patrimônio e as dimensões dos problemas políticos e ambientais que machucam a região. O biólogo esteve por dois meses, em 1997 e 1999, numa reserva extrativista no Acre, local que considera exemplar na preservação da floresta.

Guaiaó:  Por que a Amazônia te encanta tanto?

Ronaldo: É outro mundo. É outra experiência. Muitos moradores de lá têm mais consciência ecológica do que eu. Você anda, anda, anda e só vê florestas, ainda que muitas áreas tenham sido impactadas pela ação do homem. O Acre possui a melhor experiência de conservação ambiental que eu conheço.

Guaiaó: Por que o Acre?

Ronaldo: Por causa do Chico Mendes. Ele e seus seguidores conseguiram mudanças políticas no Estado do Acre. Proporcionalmente, é o que possui o maior número de Unidades de Conservação, mais do que o Amazonas. Essas coisas me fizeram olhar para Santos. Precisamos olhar para o mundo.

 

“A ciência é destrutiva”

            Como qualquer sujeito na modernidade, Ronaldo depende da tecnologia para trabalhar. Em seu laboratório, microscópios com estrutura de plástico e outros recursos de análise científica. Em sua mesa, um laptop que o permite conversar com cientistas do mundo todo. “Trabalhei com muitos que sequer conheço fisicamente.” Quando está em campo, o biólogo carrega consigo variações tecnológicas, desde a rede para a coleta de insetos até a máquina fotográfica capaz de captar imagens em alta resolução.

Mas Ronaldo não se rendeu à dependência. Pelo contrário, critica com veemência o estilo de vida do homem atual. “Temos coisas demais. Estendemos nosso corpo com os carros, as casas e o que guardamos dentro delas.” Nesse sentido, a ciência não colaborou para uma mentalidade auto-sustentável. Apaixonado pela matemática, Ronaldo reforça que extraímos mais do que o planeta pode nos oferecer. A conta não fecha.

Guaiaó: Você respira ciência e fala dela com paixão. Como você a enxerga?

Ronaldo: A ciência é destrutiva. Muitos cientistas se especializaram de tal maneira que não conseguem falar de outros assuntos em um nível minimamente razoável. Isso limita as pessoas. E a contribuição delas é prejudicada para o nosso futuro. Fora as influências econômicas na produção científica.

Guaiaó: Por que a ciência é destrutiva?

Ronaldo: Porque trabalha com processo analítico. Vamos desmatar, por exemplo, para ver como funciona. Pode ser que, no futuro, um biólogo esteja em um ambiente e, com um computador, consiga determinar o número de espécies. Mas a mesma tecnologia dita limpa tem origens no ambiente. De onde vieram as substâncias químicas que compõem o computador? Hoje, somos 7 bilhões de pessoas. Quantas o planeta pode suportar? Crescemos exponencialmente e todas as espécies que passaram por isso caíram a zero ou a níveis baixos para recomeçar.

Guaiaó: Por que, mesmo em nível global, não ocorre uma discussão científica integrada? Os problemas não costumam ser vistos isoladamente?

Ronaldo: Isso passa pela má educação. A própria ecologia tem problemas. Os ecologistas viam os ecossistemas como sistemas fechados. Hoje, sabemos que são abertos. Ou seja: tudo o que acontece dentro dele provoca efeitos fora. A Teoria Gaia, por exemplo, tem uma qualidade poética, mas nunca foi provada cientificamente. Se o planeta (Gaia) é um organismo vivo funcionando, você pode tirar um braço que continuará vivo. Quais partes você pode tirar para que ele continue vivo? Qual é o cérebro? Qual é o coração de Gaia?

Guaiaó: A tecnologia é uma necessidade humana, desde o início da História. Mas a tecnologia, no contexto de consumo, provoca dependência. A tecnologia é também destrutiva?

Ronaldo: Muitos acham que a tecnologia é capaz de salvar o mundo de seus problemas. Se você pegar os dez alimentos mais consumidos do mundo (arroz, batata, soja etc.) e produzí-los de maneira artesanal, não dá para alimentar as 7 bilhões de pessoas. É matemática! Por outro lado, as concentrações humanas dão poder para alguém plantar longe sem sabermos como, com qual tipo de tecnologia. Os custos são cada vez maiores. E os alimentos orgânicos são cada vez mais caros e, portanto, acessíveis a um grupo pequeno de pessoas. A taxa de crescimento humano e de uso dos recursos é maior do que a tecnologia para a reposição do consumo. A produção por hectare de milho é maior do que há 30 anos. Mas, na África, as pessoas ainda morrem de fome. É um problema também político. Nós somos escravos da tecnologia, como usuários de crack e cocaína. A sociedade de hoje entrou em um parafuso de consumo e tecnologia que não consegue sair mais. Só vamos retroceder se houver uma catástrofe. Quanto mais longe o País estiver desse centro de consumo e tecnologia, mais chance terá de sobreviver.

RONALDO FRANCINI_GUAIAÓ 03_FOTO MARCOS PIFFER

Ronaldo, atualmente, enfrenta um problema em seu próprio ecossistema. A rotina solitária do laboratório e das pesquisas de campo se estendeu para sua própria casa. A esposa Isaura e os dois filhos, Ronaldo e Léo, também são biólogos. E, por conta da ciência, espalharam-se pelo País. Isaura, após se aposentar depois de 30 anos como professora darede pública, mergulhou na academia. Hoje, faz doutorado em Manaus. O casal fica até três meses sem se encontrar.

Um dos filhos, Ronaldo, reside na Paraíba. É professor na Universidade Federal, na capital João Pessoa, e especialista em corais. Léo é mergulhador profissional, especializado em navios de prospecção. Residiu cinco anos em Fernando de Noronha e, recentemente, trabalhou em plataformas de petróleo.

Os quatro só se encontram esporadicamente. Aniversários, férias escolares, Natal e final de ano. Para ele, é uma amostragem perfeitamente aceitável para quem abraçou a biologia como metáfora da vida. “Na biologia, você tem que estudar aquilo que é perene. Na biologia, você tem que estudar o que acontece segundo a segundo, o que se repete. As exceções são exceções.”

 

O que não precisa ser dito

Ronaldo Bastos Francini tem 61 anos. Formou-se em Biologia aos 35, na Universidade Católica de Santos (UNISANTOS). Antes, trabalhou como técnico de laboratório na própria universidade, entre outras atividades. Em 1986, recém-formado, ingressou no Mestrado em Ecologia, na UNICAMP, onde também se tornou doutor na mesma área. Possui pós-doutorado pelo Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP). É professor-titular na UNISANTOS desde 1997. Publicou dezenas de artigos científicos em revistas nacionais e estrangeiras, além de oito livros. Nos últimos anos, viciou-se em fotografia, seu único deslize de consumo. Em casa, são seis máquinas fotográficas.

 

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