REVISTA GUAIAÓ
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FEIJOADA DA TIA ANTONIA

Por Marcos Denari
Foto Marcos Piffer

GASTRONOMIA_GUAIAÓ 03_MARCOS DENARI

Lá se vão mais de vinte anos, mas lembro como se fosse hoje…  Mal entrei na sala da minha prima Mônica, apontando para a cadeira da sua auxiliar ela falou:
“Senta aí. Sabe quem é ele, não sabe?”, falando do seu paciente…
“Sim, conheço de vista, é o famoso Betinho, né? Dono daquela loja de roupa?”
“Isso mesmo, da Stick, ali do lado do Shopping Balneário. Ele está falando que aqui no Gonzaga tem um lugar que faz a melhor feijoada de Santos, a ‘Tia Antônia’, já ouviu falar?”
“Não, não. É boa então? Porque está difícil achar uma feijoada daquelas de verdade… Agora todo mundo só quer fazer feijoada light ou então com tudo separado, fica aquele negócio sem gosto, com o feijão boiando numa aguinha rala… Aonde é?”
“Se você gosta de comer, vai adorar. No começo da Marechal Deodoro, passando a Trapo, tem um portãozinho. Entra ali e vai lá pro fundo. Todo sábado tem feijoada. Mas vai cedo, porque acaba..”,  falou o Betinho, com um brilho nos olhos que me fez salivar só de imaginar…
E não deu outra. Sábado lá estava eu. Neste e em muitos outros. Virou ponto de encontro dos amigos e da família. Não foi muito fácil achar, passei pela frente umas três vezes indo e vindo, até descobrir um portãozinho verde, baixo, que se abria para um corredor estreito cheio de folhagens, com uns trinta metros de comprimento… Encarei e fui… “Deve ser aqui mesmo.”
Todos que iam pela primeira vez ficavam meio desconfiados e certos de que estavam no lugar errado. Mas quando chegavam lá no fundo, a surpresa e o sorriso eram imediatos.
Um quintalzão, com um galpão meio que adaptado, nos dava a impressão de que estávamos entrando na casa de alguém, e não em um restaurante. Mesas e cadeiras de diversos estilos, tamanhos e origens diferentes.  Do lado direito, alguns cômodos com gente entrando e saindo freneticamente, e do primeiro deles uma fumacinha cheirosa me carregou flutuando…  E não deu outra: ali, de frente para a janela, uma paisagem inesquecível do fogão a todo vapor comandado por uma senhora negra concentrada, com cara de poucos amigos, mas certa do que estava fazendo…  Só podia ser ela, a Tia Antônia.
“Feijoada para quantos?” disparou a elétrica e sorridente Kátia.
“Somos oito, o resto deve estar chegando. Tem uma caipirinha para ir abrindo o apetite?”
“É pra já. Pode ir sentando…”
Que coisa doida.  Será que eu estava em outra cidade? Em outro país? No meio do Gonzaga, um quintal desse tamanho, plantas, árvores, passarinhos e esse galpão… Que sensação boa, descontração total… Me senti  em casa… Aliás, na casa da Tia Antônia…
“O pagode só começa mais tarde…”, cantou a bola a Kátia, deixando a caipirinha mais forte que eu tomei na minha vida na mesa… Aliás, só uma caipirinha deixava uma meia dúzia no fogo… E durava até o fim da feijoada… E que feijoada!!!
Borbulhando como lava vulcânica, servida em uma cumbuca enorme de barro, com tudo o que tinha direito dentro: linguiça, paio, orelha, pé, mão, joelho, rabo, costela, língua, sobrancelha, tudo… E aquele feijão grosso, do jeito que a minha avó fazia… Hummmm…
“Se precisar de mais alguma coisa é só chamar”, passou voando a Kátia, colocando na mesa a deliciosa couve, o arroz e aquela farinhazinha para arrematar e matar a bateria.
Vinte e tantos anos depois, consigo reencontrar a Tia Antônia e sua filha Kátia para um bom bate-papo, durante o qual me contaram como começou esse negócio da Feijoada. Desconfiada como sempre, só aceitou a entrevista depois de consultar seu amigo e conselheiro Cacá, o vice-prefeito de Santos. Muito mais sorridente do que de costume, foi contando que trabalhou 18 anos na casa de uma família de portugueses, onde aprendeu a cozinhar e a usar coisas boas e de qualidade. De lá, foi cozinhar no Cassino do Hotel Atlântico, onde conheceu muita gente importante e exigente. Depois surgiu a oportunidade de montar seu próprio negócio. Começou fazendo e entregando marmitas, até surgir a casa na rua Marechal Deodoro, onde  podia morar, fazer as marmitas e começar a servir almoços…. Aí a coisa foi crescendo…
“Chegávamos a servir 600 feijoadas no sábado. Começava deixando as carnes de molho na quinta. Na sexta, cozinhava até a uma da manhã. No sábado, era só esquentar e servir. E acabava tudo, antes mesmo do pagode começar… E no domingo, o pagode enchia de novo, umas quatrocentas pessoas… mas aí a gente só servia petisco.”
“Vinha gente de São Paulo. A feijoada e o pagode eram o maior sucesso”, reforçou seu ex-genro Jorge, que comandava a apresentação dos grupos e chegou cheio de ginga.
Essa ligação com o Samba só entendi agora, quando fiquei sabendo que Tia Antônia foi esposa e Kátia a filha do Grande Mestre do Samba Santista Dráuzio da Cruz, que hoje dá o nome para a nossa passarela na Zona Noroeste.
“E agora, onde podemos comer a sua feijoada, Tia Antônia?.”
“ Todo mundo pergunta da minha feijoada, mas não tenho mais lugar pra fazer… Só tenho feito para a família.”
“A gente precisa de um lugar para fazer a feijoada e o pagode”, mandou o Jorge.
Ah, se eu tivesse um restaurante, pensei… Levava a Tia Antônia agora…  E assim foi o papo…
Só fiquei meio sem jeito de dizer que nunca fiquei para ver o pagode… Mas também, como é que eu ia conseguir ficar em pé depois daquela caipirinha com nitroglicerina e daquele tanto de feijoada que eu não conseguia parar de comer??? Só pensava no sofá da minha casa…

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