REVISTA GUAIAÓ
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O amplo mundo dentro da Refavela

Por Julinho Bittencourt
Fotografia Maurício Adinolfi

Maurício Adinolfi_Música Revista GUAIAÓ 03

Aula de física na calorenta manhã de um verão santista, em 1978. Em cima de uma das carteiras, a curiosa capa do LP chamou a atenção da jovem professora. Nela, uma foto do cantor com curtas trancinhas jamaicanas dreadlocks – uma novidade para a época – com um fundo escuro. Acima, à esquerda, letras brancas traziam o nome do artista: Gilberto Gil, sobre bandeirinhas coloridas que lembravam quadros do pintor Volpe. Dentro de cada uma das bandeirinhas, outras letras em cores alternadas escreviam a palavra Refavela, mais uma enigmática novidade.

Depois de olhar duas ou três vezes, a professora não resiste e interrompe o exercício. “Me deixa ver”, diz para o assustado aluno, um dos vários cabeludos da classe, que tentava resolver o complicado problema com o caderno sobre a perna. Um pesado silêncio impregnou toda a sala. A mesma sensação de que o disco seria confiscado correu a espinha de todos. Vivíamos ainda sob a ditadura e o heterodoxo artista, com certeza, não agradaria a professora, direção e tantos mais.

Ao contrário do amplamente esperado, a mestra jogou o giz no parapeito do quadro, sentou sobre a própria mesa e exclamou: “Eu já ouvi algumas vezes, mas ainda não o necessário. É seu?”.  O aluno, ainda incrédulo, responde afirmativamente com a cabeça. Daí em diante, na medida em que olhava o encarte, discorria rapidamente sobre a amplidão de assuntos de que tratava o disco. Gil, e ela observava acertadamente, partia da renovação estética e cultural por que passavam as populações das favelas dos grandes centros urbanos do Brasil na canção título e chegava até grandes questões filosóficas de tempo e espaço, em “Aqui e Agora” e “Nova Era”. Dentre elas, a grande herança africana e os blocos afros, com “Balafon”, “Patuscada de Ghandi” e “Ilê Ayê” e a absorção disso tudo pela classe média, através de uma regravação funk do “Samba do Avião”, de Tom Jobim.

Estas três ou quatro pinceladas deram início à ampla discussão que interrompeu definitivamente a aula prática de física. Com aquelas pequenas observações, ouvimos falar pela primeira vez de algo que ganharia as próximas décadas e, muito provavelmente, ainda nem tinha nome certo: a interdisciplinaridade. Aquela pequena aula marcou de forma definitiva os alunos daquela sala. A partir dela, mesmo confinados naquele espaço e tempo calorentos, graças a Gil e a ela, ganhamos outra dimensão do mundo.

“Refavela” é uma intersecção na carreira de Gil. Pode-se dizer, sem muito medo de errar, que há um Gil antes e outro depois do álbum. Nele, o artista resume de forma clara e sucinta as reflexões que fazia até então e, a partir delas, constrói seus próximos passos. Não sem muita surpresa, o próprio Gil diz que é um dos seus discos preferidos. Não à toa, na sua discografia ele está entre “Refazenda” e “Realce”, na sua famosa e controversa trilogia do Re. Entre o Brasil rural, ancestral e o elétrico e tecnológico, Gil aporta o seu navio negreiro transformador, sua mãe África, a sua gente, sua semente.

Talvez inadvertidamente, é em “Refavela” também que está a canção “Sandra”, feita para a sua mulher na época. Nela, Gil aborda de forma direta e corajosa dois temas até então completamente tabus: o amor livre e, de tabela, a descriminalização das drogas. A canção descreve vários episódios acontecidos durante a sua internação num manicômio judiciário, quando foi condenado por porte de maconha, na turnê dos Doces Bárbaros, dois anos antes. Ele talvez tenha sido a primeira pessoa pública no Brasil a discutir de forma honesta e aberta a questão, que hoje é tratada até por pessoas insuspeitas, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Por muitos anos confundi as coisas. Ouvir uma obra ampla com 16 anos nos abre portas e janelas, seja qual for esta obra. “Refavela”, no entanto, vai muito além das descobertas de um adolescente. O disco abriu as cortinas de todos para um novo Brasil. Um país feito de si próprio e de suas misturas, antenado com o mundo. Um lugar que constrói do barro de suas mazelas a própria felicidade.

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