REVISTA GUAIAÓ
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Diário de um médico louco – Fragmento do romance

Por Edson Amâncio,
Ilustrações Paulo von Poser

Paulo von Poser_ficção GUAIAÓ 03

1

 ”Que me seja permitido dizer estas palavras, antes de iniciar o diário propriamente dito. Elas farão com que o meu fardo seja mais leve. Vão me dar algum alento e certamente um pouco de paz, mas, sobretudo, coragem e algum calor ao meu coração. Escrevo agora, num momento de absoluta lucidez e tranquilidade. Não sei por quanto tempo ainda poderei desfrutar dessa exceção. Meus últimos dias têm sido simplesmente infernais. Minha mente é varrida constantemente por uma tempestade de ideias desencontradas. Tenho visto, ouvido ou imaginado coisas indescritíveis. Às vezes não estou certo de ser eu mesmo a pessoa que viveu as experiências que pretendo relatar. Muitas vezes falo e me reconheço; em outras, não estou absolutamente convencido disso. A tal ponto esse universo de emoções variadas se digladiam dentro de mim, que me permito, ainda agora, questionar: quem de nós afinal deixa aos leitores essas palavras iniciais?


 2

 Poucos se atreveriam a abrir o próprio peito e mostrar as entranhas como me obrigarei a fazer daqui por diante. Mesmo aqueles momentos nos quais me expus à execração e ao desprezo, serão descritos sem omissão e jamais usarei artifícios com palavras para diluir o insuportável. Quando a insensatez dominar a minha mente e produzir atitudes desastrosas, mesmo assim não serei omisso em descrever tais inconsequências. Faço isso, não na esperança de ser compreendido ou perdoado. Ninguém com um pingo de serenidade deveria esperar compreensão, depois de tudo. Não espero, pois, compreensão alguma e, muito menos, piedade de quem quer que seja.

Quando estas páginas caírem no domínio público, já não estarei no mundo dos vivos. O perdão, portanto, de nada me servirá. E seria ingênuo presumir que serei perdoado por estar morto, como, aliás, é praxe em nosso meio.

Ponderei com honestidade todas as questões que se apresentaram ao meu espírito ao longo dos últimos anos. Reagi muitas vezes no calor da emoção. Outras vezes racionalizei a estranheza, quando tive condições para isso. Se, ao fim de tudo, tomei ou não a decisão anunciada a respeito da minha própria vida, isso é assunto que não pretendo antecipar-lhes. O gentil leitor haverá de entender que o melhor de uma estória se encontra no final. Não há, portanto, razão alguma para antecipações – mesmo se isso fosse possível. Antes de terminar, um pouco da minha estória.

3

Saibam todos que descendo de uma raça praticamente extinta. Meus antepassados, até onde o meu conhecimento pode alcançar, eram pessoas muito impressionáveis e crédulas. Muitos deles foram facilmente tomados por delírios místicos. Segundo soube, entre os de minha ascendência, houve um que se tornou profeta por autodesignação. No entanto, apenas dois primos se tornaram célebres, cada um a sua maneira. Um, por ter sido um exímio domador de leões. Sua celebridade, todavia, não se deveu unicamente à bravura ou habilidade excepcional no trato com as feras no picadeiro, mas por ter tido, ironicamente, um fim melancólico. Morreu em consequência da mordida de um velho leão que lhe arrancou a jugular durante um espetáculo num decadente circo paraguaio. O outro, por ter assassinado o próprio pai e, por isso, foi condenado a 25 anos de prisão.

Quanto a mim, já na minha infância fui tomado por estranhos pressentimentos e muitas vezes chamado de habitante “do mundo da lua”. De tal forma era envolvido por êxtases e arrebatamento da alma que me perguntava se não estaria vivendo um sonho. Que tipo de sortilégio me dominava o espírito ainda na minha mais tenra infância! Meus pais, cujo equilíbrio mental está exageradamente distante de exemplar, levaram-me aos curandeiros da vizinhança e um deles me fez passar a mais terrível experiência que uma criança é capaz de suportar. Colocaram-me nu, sentado no chão coberto de folhas de bananeira de uma cabana e despejaram sobre a minha cabeça o sangue ainda quente de uma galinha esgorjada. Senti o sangue escorrer na minha face e no meu pescoço, enquanto uma negra se contorcia diante de mim, emitindo gritos lancinantes ou falando uma língua absolutamente incompreensível aos meus ouvidos. Nunca mais pude esquecer essa experiência e, durante três meses, delirei como um alucinado, enquanto, à minha volta, velas eram acendidas e orações e cânticos proferidos. Ainda hoje posso distinguir todos os detalhes desse triste episódio. Com o passar do tempo, ao contrário do que previam médicos e curandeiros, esses sinais premonitórios, essas esquisitices não me abandonaram, fizeram-se cada vez mais presentes. Muito cedo, já na minha juventude, aprendi que faria melhor se omitisse da minha família tudo o que se passava comigo. Foi um recurso deliberadamente escolhido; pelo menos me livrava de exorcismo e crendices a que meus pais me submetiam de tempos em tempos. Deve ter sido por isso que me tornei uma criatura arredia, isolada, macambúzia e de poucos amigos. Ainda na adolescência usei como recurso estratégico ser voluntarioso e muito cedo já era dono do meu próprio nariz. Fui tido e havido como pessoa estranha, avesso ao convívio social e aos assim chamados bons costumes. Embora isolado e desacreditado, tinha os meus planos e tratei de estudar com afinco para consegui-los. Contrariando a todos que vislumbravam o meu futuro escalavrando as mãos no trabalho braçal, tomei o caminho dos livros com tal determinação que ninguém se atrevia a bloquear o meu caminho. E foi assim também que me dediquei ao curso de medicina. Acreditava que uma vez metido da cabeça aos pés nessa ciência, eu poderia pôr um fim aos meus demônios, às minhas ideias extravagantes e às minhas alucinações. Interessei-me, portanto, pelos mistérios da vida e, antes disso, pelos da morte. Dediquei-me com afinco ao estudo da anatomia. Cumpria minhas tarefas do curso, mas sempre fui muito além das minhas obrigações quotidianas. E, muitas vezes, permaneci até altas horas da noite escarafunchando nervos e artérias com uma curiosidade e interesse que ultrapassavam de muito a média dos meus colegas. Depois tinha delírios noturnos. Durante noites intermináveis mantive diálogos imaginários com o cadáver que me servia de mestre. Muitas vezes fui despertado no meio da noite por ele a me agarrar o pé, ou a fazer saltar o meu cobertor, questionando minha atitude ao ter-lhe esfacelado a traqueia, ou cortado de maneira atabalhoada um nervo da virilha.

Para coroar minhas pesquisas e estimular ainda mais minha curiosidade, tive um professor de anatomia verdadeiramente único e – hoje o afirmo com segurança – desprovido de qualquer traço de sanidade. Num determinado momento do curso apregoou que o aluno que melhor se distinguisse na sua matéria teria um cadáver fresco para retalhar. Prêmio que muitos entre nós recusaríamos de bom grado. Alegava que a tal aluno estaria destinada a carreira de cirurgia. Que ninguém esperasse um dia ser capaz de operar alguém, sem antes aprender a lidar com um morto recente, em tudo diferente dos corpos há longos meses conservados em formol. Não demorou muito para que eu tivesse a minha primeira e definitiva experiência. E, estou certo disso, devo a ela o fato de jamais ter me enveredado pelos caminhos incertos da cirurgia. Ao contrário do que alegava o desditoso professor, fiquei distante de qualquer atividade cirúrgica daí em diante, e foi com grande sacrifício que cumpri as matérias do curso que me obrigavam a participar de atos operatórios. Mas eis a primeira noite, o primeiro momento em que o meu cérebro ainda jovem e cheio de curiosidade e devoção teve o impacto de uma experiência que marcaria toda a minha vida!

Foi-me designado um cadáver obeso, deitado sobre a laje de cimento, ainda vestido como saíra da enfermaria. Apalpei o seu braço roliço e ainda estava quente. Por mais estranho que possa parecer, tinha o aspecto de um gordo saudável. Ou seja: não parecia doente e muito menos morto! Certamente tivera morte súbita e, como em todos os demais casos, jamais sabíamos a causa mortis de quem quer que fosse. Aquilo era propositado. Não devíamos nos envolver com a estória de cada cliente. O cadáver era o mestre desconhecido a quem devíamos tributos eternos, não havia, portanto, razão alguma para envolvimentos com estória pessoal, ou qualquer outro dado revelador de uma antiga identidade. Devíamos vê-lo como o nosso instrumento de trabalho; guardadas as devidas proporções, mal comparando, era como um entalhador de madeira ao contemplar a porta de um guarda roupa onde devesse deixar as marcas da sua carpintaria. Éramos preparados para isso, assim deveria ser. De tal forma, que pouco me importei ao ver o cadáver vestido, abandonado, por assim dizer, solenemente sobre a mesa, na imensa sala de dissecação. A roupa e o fato de ter morrido há pouco tempo eram os aditivos inabituais, mas isso pouca importância tinha. O que importava era a experiência nova.

Com muita dificuldade consegui despir-lhe a roupa. Tive de passar o seu braço em volta do meu pescoço para virá-lo com muito esforço na laje. Isto, obviamente, repugnou-me; felizmente não exalava cheiro de formol. Depois de despi-lo, coloquei as luvas, virei-lhe ligeiramente a cabeça para o outro lado e me preparei para iniciar o trabalho. Retirei com a pinça um pelo úmido atravessado sobre a linha da incisão e enfiei o bisturi na sua garganta, dando início à dissecação. Assim que o bisturi mergulhou na carne macia, o homem emitiu um grito tão pavoroso que ainda hoje posso ouvi-lo nas minhas noites de atormentado sono. Tudo aconteceu tão de repente e de maneira tão inesperada que não posso imaginar como fui capaz de permanecer tanto tempo parado ali. Estava literalmente paralisado. Não tive, não poderia ter tido reação alguma, exceto um grito que eu também emiti como se fizesse eco ao protesto doloroso do meu primeiro paciente. Creio que nossas vozes se confundiram e ecoaram em uníssono naquela sala vazia como um ruído saído do fundo de um inferno de almas penadas, sobrenatural, inacreditável, mas absolutamente real. Parecia que meus pés estavam fincados no chão por botas de cimento. E só por essa razão não saí em disparada. É claro que o pobre homem fora levado ali sem estar ainda definitivamente morto. É claro que eu havia cometido um bárbaro assassinato. Tudo isso me ocorreu à mente conturbada numa fração de segundo. Eu só antevia desgraças para o meu futuro. A minha carreira estava encerrada antes mesmo de começar. E, o pior, eu me tornara um assassino frio, numa sala de dissecação, sem ter ao menos um colega por testemunha, com quem eu pudesse dividir essa infelicidade. Essa ideia da ausência de testemunhas percorreu-me o cérebro como um relâmpago. Nem tudo estava perdido! Eu poderia manter-me em silêncio! Essa foi a ideia que se repetia na minha mente, batendo como um martelo. Esses pensamentos fizeram-me recobrar a lucidez e, em poucos segundos, já estava parcialmente refeito. Ora, pensei, eu não podia abrir um buraco na garganta do cadáver, ver o sangue escorrer na laje e simplesmente ir embora. Obviamente eu teria que dar explicações no dia seguinte. Ai de mim! Ato contínuo: meio alucinado, tratei de colocar em prática os pensamentos que me ocorriam céleres. O primeiro deles era saber se o homem estava afinal de contas morto, ou ainda não. Examinei suas pupilas. Estavam baças, sem nenhum brilho. Coloquei a mão sobre o seu coração e não percebi o menor vestígio de batimentos. No entanto, nada disso me serviu de consolo. Tive crítica suficiente para entender que a espessura daquela camada de gordura no peito me impediria de ouvir ou sentir o coração, e certamente por isso ele fora dado como morto, quando simplesmente dormia um sono patológico, e nem mesmo um estetoscópio estava disponível naquela sala. E de que serviria um estetoscópio na sala de dissecação? E eu saberia usá-lo? Não! Definitivamente eu deveria arranjar rapidamente uma solução para aquele enigma. Foi então que me ocorreu o pensamento mais simples e que poderia ser a solução para o meu desespero. Enfiei o dedo indicador na ferida, até alcançar a carótida. Movimentei o dedo sobre ela, desloquei-a para um lado e para o outro, esperei alguns segundos com o dedo repousando sobre o cano semi-rígido, roliço, que o meu dedo podia identificar na profundidade daquele pescoço gordo. Quantos segundos eu teria permanecido ali naquela esdrúxula situação? Dois segundos, cinco? Nunca pude saber ao certo. Mas, qualquer que tenha sido o tempo dedicado a fazer aquele diagnóstico, fiquei convencido de que se vida ali houvesse, ela teria se esvaído – oh meu Deus! – quando o meu odioso bisturi perfurou aquela artéria.

Uma vez constatado que não havia ali nenhum sinal de vida e que, portanto, o pobre homem estava afinal definitivamente morto, eu deveria tomar a segunda decisão. Já estava claro na minha mente que era preciso ocultar aquele fato. Alardeá-lo seria arrematada burrice. Eu terminaria minha carreira naquele dia, provavelmente passaria toda a minha juventude numa prisão, afora as manchetes dos jornais e o meu nome divulgado aos quatro cantos “JOVEM ESTUDANTE DE MEDICINA MATA CADÁVER NA PRIMEIRA AULA DE ANATOMIA”. Não! Eu estava decidido a me livrar de tais embaraços. Passei à segunda parte do plano. Eu estava ali com uma missão: havia me comprometido a apresentar o resultado do meu trabalho no dia seguinte, isto é: eu fora designado para dissecar o pescoço de um cadáver fresco e iria fazê-lo. Caso contrário, deveria dar justificações que comprometeriam gravemente o meu nome e o meu futuro. E como explicar que abandonara o trabalho depois de ter perfurado o pescoço com um único golpe de bisturi? Ai de mim! Enrubesço e me queimo de horror e vergonha diante do que fiz. Para encurtar, por mais repugnante e monstruoso que isso possa parecer, passei o resto da noite limpando artérias, isolando nervos, separando músculos e, devo admitir sem falsa modéstia: nunca se viu dissecação mais primorosa. No dia seguinte, ainda alquebrado pelos esforços da noite precedente, recebi elogios e murmúrios de admiração. Certamente estava-se ali diante de um exímio e precoce cirurgião. No fundo somente eu, e certamente a alma penada do meu cadáver, sabíamos a que custo eu conseguira aquilo. Ninguém, nem de longe, poderia suspeitar o que se passara naquela sala. E ninguém poderia sequer imaginar o que ia na minha pobre mente conturbada, e muito menos o que seriam os meus dias daí em diante.

Eis aí o início da minha carreira. A duras penas consegui evitar cadáveres e doentes adormecidos em cima de macas ou de mesas cirúrgicas. Dediquei-me à endoscopia. Nunca mais recobrei completamente a alegria de viver ou trabalhar com tranquilidade. Nunca mais – everness – tive um segundo de paz. Never more, fui o mesmo homem e hoje, ou ontem eu… everness more…., como um abutre, um réptil ou batráquio, um simples verme, eis aí…, eis o resultado de tudo… everness…”.

Editora LetraSelvagem, 2012

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