REVISTA GUAIAÓ
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Panorama

Por Gino Caldatto
Fotografia Marcos Piffer

Praia do Góes_Patrimônio Revista GUAIAÓ 03

 

A visita à Praia do Góes reserva uma surpresa aos aventureiros. Admiração não destinada unicamente à natureza do local, virgem e bucólica, como em tempos passados. Junto à maré, entremeado pela densa vegetação, revela-se  o Fortim do Góes, aliás, seus vestígios, pois há tempos caiu em desuso e, da antiga fortificação, só restaram pedras e a vista de Santos.

É preciso ter imaginação para refazer na mente a primitiva arquitetura. Coberta por raízes, troncos, folhagens e muito mato, expõe disfarce natural à construção, deixando seu futuro nas mãos da sorte. Se acaso o Fortim estivesse ativo, a vegetação sobreposta até serviria de camuflagem eficaz às operações militares.

Surgiu no século XVIII como base avançada da Fortaleza da Barra Grande, junto ao estuário, aprimorando o primitivo sistema de defesa português, imposto desde o início da colonização para coibir o acesso de piratas, entre tantos invasores que traziam temor e dor de cabeça aos minguados habitantes da região.

As primeiras tentativas em defender o povoado local se manifestaram por meio de obras improvisadas. Eram paliçadas feitas de madeira, similares àquela em que Hans Staden, em Bertioga, viveu sua aventura quase terminada em churrasco para os canibais. História que até hoje continua saboreando leitores e cinéfilos.

Foi o governador Luiz Antônio de Souza Mourão, o “Morgado de Mateus”, responsável, entre outras medidas, pela fortificação da Praia do Góes. A remodelação das construções de defesa da Baixada Santista, iniciada a partir da segunda metade do século XVIII, incorporou a base avançada do Góes à Fortaleza da Barra Grande, privando o desembarque de invasores antes de alcançar o estuário. A princípio, almejava-se produzir obras emergenciais, feitas de troncos de madeira cravados no chão, dispostos em formato curvilíneo. Insatisfeito com a solução rudimentar – parecida com o “forte apache” -, “Morgado de Mateus” promoveu mudanças substanciais na obra. Tudo foi alterado e ampliado para suprir as novas necessidades. Fizeram sólida muralha de pedra em formato prismático contendo peças de artilharia e, nas arestas, guaritas para vigilância, em conformidade com as normativas da arquitetura militar então em voga.

A mudança de local nem foi cogitada, e não teria motivo. A melhor vista da região não apenas atendia aos preceitos de defesa, como o de visual, de beleza incomparável, enchia os olhos impassíveis de qualquer soldado. As qualidades naturais do Góes, com o tempo, se revelaram um contraveneno ao estado moral depressivo da tropa. Segundo consta, no Fortim nunca foi dado um tiro sequer e os invasores tampouco foram impedidos de conhecer nossas praias. Guerra e ódio, definitivamente, não se coadunaram com aquele  lugar.

É verdade, a felicidade, sobre as pedras do Fortim do Góes, existe!

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